Artigos

“Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mc 12,31) – Um olhar sobre a realidade


Autor: Magno Nogueira Pereira – Seminarista e acadêmico do 7º período de Teologia do Instituto de Filosofia e Teologia do Espírito Santo (IFTES)

“Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mc 12,31)

A antiga e tão jovem Palavra de Deus se faz sempre contemporânea aos homens e mulheres de cada tempo da história. Nos dias atuais, com o presente surto causado pela pandemia do Covid-19, uma das formas mais eficazes de cumprirmos este mandamento do Senhor de amor ao próximo é, nos resguardarmos todos dentro de nossos lares. Sim, obedecendo às normas estabelecidas pelas autoridades de nossos tempos com relação aos devidos cuidados a serem tomados. Isso é sem dúvida, uma forma de amor próprio e amor ao próximo.

A genuína e autêntica liberdade é expressa não só pelo ato de sermos responsáveis por nós mesmos, mas em também nos sentirmos corresponsáveis pela causa do outro. A causa do amor ao próximo e o zelo com ele é sempre uma urgência inadiável. Este princípio de alteridade, torna o homem mais humanizado, capaz de, desprendido das amarras egocêntricas, conseguir enxergar no horizonte da vida a presença do próximo como uma extensão de um outro eu.  É preciso que no meio de todo este caos vivido nos dias atuais, encontremos um motivo real que nos faça aceitar a reclusão,bem como as devidas precauções,sem preconceito ou arrogância, esta causa é, sem dúvidas, o amor. Somente o amor leva o ser humano à obediência. Amar é a única razão pela qual alguém consentesubmeter-sea situações racionalmente incompreensíveis no presente momento.

Não se deve jamais interpretar este sombrio momento como um castigo de Deus, por alguma falha provindo da miséria humana. Não! “Deus é amor” (1Jo 4,8), e o amor não se interessa em castigar, não se regozija com o sofrimento, mas versa-se em acolher, educar e salvar o gênero humano em sua inteireza. Em meio a toda tempestade desta pandemia que assola diversos povos, deve-se buscar enxergar um sinal da graça de Deus. Não que Ele tenha querido ou planejado tal atrocidade, mas mesmo em meio às tempestades, a voz do Criador fala às criaturas. Nos momentos de ruas, shoppings e até mesmo universidades vazias, os lares estão povoados; os templos, desde os pequenos às grandes catedrais, encontram-se vazios, os lares se tornam templos de oração, um lugar de encontro com o Sagrado; as mesas dos restaurantes encontram-se vazias, mas nas mesas dos lares, esposo e esposa, pais e filhos, poderão tomar juntos as refeições, poderão olhar nos olhos, dialogar sem a pressa dos ponteiros do relógio. Talvez agora, diante do presente caos lá fora, dentro de casa torna-se possível o encontro familiar tão protelado e impossível de se acontecer por decorrência dos horários incompatíveis, muitas vezes causados pelo sistema consumidor.

Sabemos o quão desolador tem sido estes dias vividos de tribulações. É preciso cuidar para que estas realidades não nos façam cair em um abismo de desesperança. É dever de todos nós, homens e mulheres de boa vontade, cumprirmos com as obrigações que nos são incumbidas e lançarmos nosso olhar a Jesus, Ele foi a esperança do Pai para redenção da humanidade, e é a nossa esperança para vencermos vigorosamente as adversidades. Devemos, pois, fincar nossa confiança no Senhor do alto da Cruz, Ele é nossa esperança e como bem diz o Apóstolo: “a esperança não decepciona” (Rm 5,5).

Todos nós, peregrinos neste mundo, enquanto marchamos rumo à Jerusalém celeste, estamos sujeitos às realidades muitas vezes pavorosas e dolorosas que se nos apresentam, contudo, não devemos temer, pois não estamos sós, nosso Senhor nos prometeu sua companhia até que o tempo se consuma (Cf Mt 28,20) e Aquele que É a Verdade, jamais nos enganaria. Em meio ao medo dos ventos tempestuosos, só há uma maneira de não perdermos a felicidade que o Criador implantou em nós desde a criação: confiarmo-nos ao Senhor. Pois como bem disse o Salmista no refrão; “É feliz quem a Deus se confia” (Sl 1). É preciso confiarmos sempre no Senhor, inclusive quando nossas capacidades se tornam incapazes. Confiemos n’Ele, ainda que o medo faça nossos passos vacilarem, mas que nossa fé encoraje nosso espírito a firmar-se no Senhor, nosso Rochedo.

Por fim, contemos sempre com a força da graça de Deus e com a fiel intercessão de Maria Santíssima, a Mãe do Senhor da Cruz e de todos os peregrinos da terra. Que Ela rogue por nós a seu Filho, para que o amor e o zelo ao próximo nunca nos falte.

Últimos artigos