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10 de março de 2017 | Categoria:

Exercícios que reconciliam


Por Dener Evangelista Barbosa de Sales

Estamos no tempo Quaresmal. Esse tempo é um grande retiro que a Igreja nos propõe, assim como fez Jesus ao jejuar quarenta dias no deserto se preparando para a sua missão. Todo mundo precisa fazer retiro na vida: parar um pouco a sua correria do dia a dia e rever, reavaliar e realinhar a própria existência. Por isso, a fé nunca anda desligada da vida, e no ritmo do tempo a Igreja vai nos propondo esses momentos para que, acompanhando a vida de Jesus, nós nos reajustemos também como cristãos. Sabemos que o pecado rompe com a comunhão original estabelecida por Deus: rompe a comunhão com Deus, com os irmãos, comigo mesmo e com a natureza. Nesse tempo, então, somos chamados à Conversão, isto é, a transformar a nossa vida, deixando de lado atitudes ruins que costumamos ter, em vista de reestabelecermos a comunhão rompida. Mas enfim, como ninguém muda de vida de uma hora para outra, para nos ajudar nesse processo de conversão a Igreja nos propõe os exercícios quaresmais do Jejum, da caridade e da oração.

Como a própria palavra já nos sugere, são exercícios e exigem de nós um esforço pessoal e penitencial. O primeiro é o do Jejum: esse exercício me faz entrar em contato comigo mesmo, fortalecendo o meu espírito para vencer as tentações e “maus costumes” da vida. Ele é um exercício de renúncia dos próprios desejos carnais do alimento, mas podemos fazê-lo também em relação a coisas ou atitudes às quais temos certo tipo de apego, para nos purificarmos e nos libertarmos desses apegos. “Acaso o jejum que me agrada não é outro: […] romper com todo tipo de escravidão?” (Isaías 58, 6).

O segundo exercício é o da caridade: com ele somos chamados a nos aproximarmos uns dos outros, rompendo as barreiras dos preconceitos e discriminações, e tendo a sensibilidade de tocar a carne do nosso irmão que sofre com fome, com sede, sem casa, sem roupa, doente, preso ou morto. Mas por que devemos fazer isso? Devemos fazer isso, pois só amaremos de verdade a Jesus, se amarmos essas pessoas, tendo coragem de socorrê-las em suas necessidades, pois nos disse Jesus: “Cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mateus 25,40). Significativa também a expressão de são João da Cruz: “No entardecer da nossa vida seremos julgados pelo amor”.

E por fim o exercício da Oração que me leva a aproximar-me de Deus. Quanto à oração, não são as muitas palavras que fazem dela uma oração eficaz. O que torna uma oração eficaz é a intimidade que eu crio com Deus a partir dela. “Pedi e vos será dado; buscai e achareis; batei e vos será aberto. E o Pai do céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem!” (Lucas 11,9.13).

E particularmente no Brasil temos a Campanha da Fraternidade que sempre nos vem como um apelo a uma conversão social. Talvez hoje um dos apelos mais fortes pela nossa conversão seja em relação ao cuidado com a natureza. Precisamos ouvir a voz de Deus nos grita: CONVERTEI-VOS! Meus irmãos, se não nos arrependermos de nossos pecados contra o meio ambiente, não fizermos penitência e mudarmos nossas atitudes, seremos destruídos por nosso próprio egoísmo. Que a reflexão sobre o tema “Fraternidade e biomas brasileiros e defesa a vida”, desperte a nossa solidariedade de fiéis e de sociedade, para romper as barreiras do egoísmo e redescobrirmos juntos a nossa missão de “cultivar e guardar a criação” (Gênesis 2,15).

A quaresma, portanto, é esse tempo privilegiado de esperança na nossa reconciliação com Deus, com os irmãos, consigo mesmo e com a natureza. Que os exercícios quaresmais perseverantes nestes quarenta dias transformem a nossa vida, para que, como pessoas e comunidades renovadas, exultemos de alegria com o Cristo Ressuscitado na Páscoa.