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MEMÓRIAS DE DOM ALDO: 49 ANOS DE EPISCOPADO


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Primeira etapa da minha vida.

Fui coroinha dos 6 aos 12 anos, com muito gosto e orgulho do Sagrado.

Na minha aldeia frequentei a escola primária 5 anos e mais um ano por licença e sugestão de meus pais para decidir encaminhamento:

– ser técnico marceneiro;

– ou padre diocesano.

Nesse tempo recebi a visita de um comboniano, Pe. Lourenço, barbudo, ele falou muito sobre as missões na África e eu me decidi: “vou ser missionário lá para salvar pelo menos uma alma e depois morrer na simplicidade!”.

Comecei a preparação para ser padre: entrei no seminário aos 12 anos. Fiz 5 anos de ginásio, 2 de noviciado (tempo de espiritualidade e mística), 6 de Filosofia e Teologia. Escolhi fazer estes dois últimos cursos em Roma, bem ao lado da Basílica de São Pedro, um privilégio! Tive dificuldades. Na mesa de estudo tinha um mapa da África…

Após a ordenação tive uma surpresa: não fui enviado à África, mas ao Brasil. Saí, de navio, em novembro de 1957 e cheguei a São Mateus no mês seguinte. O território era mata atlântica, as atividades eram extração de madeira nas florestas. Não tinha asfalto. As viagens eram a cavalo debaixo de sol causticante. Fiquei como ajudante do padre e visitava as capelas do interior. Vi muitas comunidades nascerem. A pastoral era basicamente ministrar sacramentos.

Em 1962 Dom José mandou-me uma mensagem dizendo que eu seria o secretário dele no Concílio Vaticano II. Aproveitei para fazer novo estudo em Roma: Doutrina Social da Igreja. Retornei ao Brasil e fui para São José do Rio Preto e depois, de novo, São Mateus. Na Diocese me encarreguei das Pastorais Sociais, acompanhando sindicatos, que naquela altura eram fracos, e ajudando o povo a se organizar, sempre ao lado de Dom José.

A segunda etapa de minha vida foi maior.

Dom José renunciou e eu fui indicado para ser administrador da Diocese. No dia 24 de maio de 1971, aos 40 anos, fui nomeado bispo. Aceitei porque já conhecia a Diocese. Foi quando me perguntei: “e o meu sonho infantil de salvar uma alma na África e morrer lá?”

Fiz 5 visitas pastorais. Nas três primeiras visitei todas as comunidades. Uma vez fiquei em Ecoporanga 1 mês e 10 dias, sem vir a São Mateus. Pensei: “devo ir a São Mateus para ver se alguém deu um golpe de estado?” (risos). Cada pedaço de comunidade, cada pessoa, é um pedaço da minha alma! Creio que respondi de forma razoável aos clamores. Fiz tudo na certeza de caminhar com o povo de Deus rumo ao Reino de Deus. Ser presença Dele no mundo. Nos 36 anos de Bispo quantas alegrias e cruzes! Sofri até atentado no bispado com ataques de tiros. Houve momentos de crise…

Esta história é conhecida, apresentei uma avaliação rápida, imediata, superficial. A graça de Deus foi maior que minhas fraquezas. Glória a Deus! Gratidão afetuosa ao povo! Estou aqui para agradecer. A vocação é um processo, uma longa caminhada, a graça de Deus vai nos ajudando. As estruturas foram feitas pelo antecessor. Comigo foi feita a Catedral, o mosteiro e o seminário. Ordenei mais de 30 padres. A renúncia foi aceita pelo papa em 20 de março de 2006.

O Pai do céu tem um projeto para os jovens de hoje. Há uma nova vocação humana para todos os batizados:

– vocação à vida

– vocação à tarefa, missão etc.

Nossa passagem no mundo deve deixar nossas marcas: pequena, desconhecida ou maior. Que haja duas exigências:

– descobrir o que Deus quer de mim

– agir para tal ideal.

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