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A Espiritualidade Mariana em tempos de Pandemia

A Virgem Maria é fonte de inspiração para numerosos cristãos, que sempre recorrem a ela em tempos de aflição espiritual em busca de conforto para a alma, ou quando em tempos de bonança para agradecer os benefícios alcançados.

Maria foi a primeira a ser evangelizada ao receber em sua presença o Anjo (Lc, 1 26-28) enviado do Pai, para anunciar-lhe a Encarnação do Verbo Divino. Foi a primeira a receber com solicitude a mensagem da salvação ao acolher em seu ventre virginal o Verbo encarnado, o “Filho de Deus” (Lc 1, 35). Em concordância como teólogo Clodovis Boff, afirmamos que Maria teve a primazia na obra da evangelização, pois ao visitar sua prima Isabel (Lc 1, 39-45) ela “aparece […] como a ‘primeira evangelizadora’, que leva por primeiro a mensagem da Boa-Nova: O Messias Salvador chegou, isso porém depois de ter sido a ‘primeira evangelizada’” (BOFF, 2009, p. 44), e se tornar por meio da evangelização do anjo o “cofre que guarda o Tesouro” ou “a arca da Aliança” (BOFF, 2009, p. 18).

Ao se identificar como serva humilde do Senhor (Lc 1, 48), Maria nos ensina uma virtude muito cara e pouco assimilada no presente. Vive-se hoje a agitação motivada pelo mercado de consumo, que incita no ser humano desejos por vezes egóicos (egoístas) em que o ter é posto numa perspectiva superior ao ser. Com isso a reciprocidade, o fazer com, a comum-união e outras virtudes propriamente humanas são esquecidas ou mesmo evitadas. E ainda mais produz no coração humano o revanchismo desmedido e inconsequente.

Maria é o “trono da Sabedoria” (BOFF, 2009, p. 18). Ao contemplar a sua atitude diante dos desafios que enfrentara, encontra-se um manancial de vocação, amor e fidelidade ao ‘sim’ que manifestara ao apelo divino. Para superar o egoísmo que brota constantemente no coração humano, é bom recorrer à sua materna intercessão. Pois, ao olhar para os seus filhos e filhas amados, (com o mesmo olhar de serva humilde quando se dirigiu ao Pai), oriente-os afim de que superem as tentações da carne e se coloquem como “seguidores do caminho” (At 9, 2).

As mulheres e os homens que se colocam sob a materna proteção de Maria nutrem por ela um afeto filial e se espelham nela para superar as tribulações da vida. Esta relação filial entre os filhos e a mãezinha querida é estabelecida por meio das devoções populares “como o terço, as novenas, as promessas, as fórmulas de consagração, as romarias” que “são manifestações do coração” (MURAD, 2012, p. 209), dos seus filhos e filhas amados em virtude das graças alcançadas.

Fácil é encontrar histórias de pessoas e mesmo de comunidades que alcançaram grandes graças por intercessão da Virgem de Nazaré. Eis o relato de Haroldo Rahm (1985, p.96).

“Em 1737 terrível peste devastou o México de ponta aponta. Por toda a parte se fizeram penitencias públicas, procissões e preces. Só na Cidade do México centro da epidemia se fizeram setenta novenas solenes. Estava reservado a Nossa Senhora de Guadalupe restituir a saúde do país. Mal as autoridades civis e eclesiásticas começaram a deliberar a cerca da nomeação de Nossa Senhora de Guadalupe como Padroeira da cidade começou a peste a arrefecer. Quando esta notícia chegou às Províncias, todas cidades e aldeias castigadas fizeram votos de, também elas, tomarem Nossa Senhora de Guadalupe por padroeira e obtiveram proteção idêntica à que experimentara na capital” (RAHM, 1985, p. 96).

Este relato manifesta a confiança e a fé do povo mexicano na intercessão maternal de Nossa Senhora de Guadalupe, a ponto de dedicarem todo o País a sua proteção. Maria é solícita e atenta às necessidades de cada filho espiritual que a ela recorre em busca de alívio para corpo e para a alma.

Por meio da intercessão de Maria, Deus atende prontamente as súplicas dos seus filhos e filhas amados. Na festa de “casamento em Caná da Galileia” (Jo 2, 1-11), Maria se mostra atenta e percebe a carência de vinho e intercede em favor dos noivos, e Jesus atende suas súplicas. O papa Francisco na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (2014, p. 225) disse que “como uma verdadeira mãe, ela caminha conosco, luta conosco e aproxima-nos incessantemente do amor de Deus”. Se num ambiente festivo ela salvaguarda a alegria da festa, quanto mais não salvaguardará a saúde a seus filhos em tempos de calamidade para a vida humana.

A crise instaurada pela pandemia do coronavírus exige dos cristãos e mesmo dos não cristãos a consciência humanitária. O observar as recomendações sanitárias de higiene pessoal e coletivas se tornam expressões de amor consigo e ao próximo. Assim, quem cuida de si mesmo, cuida e protege também a sua família e toda sociedade. Esta é uma característica da Virgem Maria. Ela se preocupa com todos. É prestativa e está sempre disponível para cuidar da vida e o bem comum. Em tempos de grandes tribulações é imperativo que os cristãos, sobretudo, os católicos se aproximem mais de Deus, por meio da oração, seja ela pessoal, familiar ou em comunidade. O importante é se conectar com o sagrado por meio de súplicas.

A oração que brota espontaneamente do coração coloca a pessoa em contato com as suas realidades mais íntimas. Neste momento é oportuno fazer uma reflexão pessoal e pedir a Deus o perdão para as faltas do dia-a-dia, agradecer por tudo que generosamente ele provê para o bem do homem, suplicar em favor das necessidades pessoais e comunitárias, sem esquecer-se das pessoas em situação de rua, os indígenas, os quilombolas, os povos nômades, os que vivem nas periferias das grandes cidades e por todos os que carecem de proteção contra os males deste mundo.

As devoções marianas são um importante canal de ligação espiritual com o divino. Em geral as devoções “tem grande força simbólica e ritual” (MURAD, 2012, p. 208), sendo memorizada com facilidade e garantindo ao crente maior domínio e segurança para rezar. “É como se o ritual tivesse uma potência mágica, cujo segredo reside na disposição das palavras e dos gestos” (MURAD, 2012, p. 209).

Na carta para o mês de maio, endereçada aos católicos, o papa Francisco diz: “pensei propor-vos a todos que volteis a descobrir a beleza de rezar o Terço em casa, no mês de maio. Podeis fazê-lo juntos ou individualmente: decidi vós de acordo com as situações, valorizando ambas as possibilidades. Seja como for, há um segredo para bem o fazer: a simplicidade; e é fácil encontrar, mesmo na internet, bons esquemas para seguir na sua recitação”.

Em virtude do sim de Maria ao projeto salvífico de Deus, ela participa da missão de Jesus (ser o mediador entre Deus e o homem).  Quando se recorre às intercessões de Nossa Senhora, ela aponta diretamente para o Cristo, pois a sua vida está voltada exclusivamente para aquele que ela santamente concebeu. Por isso, os cristãos podem e devem reclamar com confiança, fé e amor os méritos da Virgem Maria, em todos as circunstâncias de suas vidas, com a segurança de que ela escuta atentamente a cada pedido e cada oração recitada e meditada no coração dos fiéis e as deposita diretamente nas mãos de seu Filho, Cristo Jesus.

 

REFERÊNCIAS

BOFF, Clodovis. Mariologia: Iniciação à Teologia. ___. Introdução geral à Mariologia. 7. ed. Petrópolis: Vozes. 2019. p.18

BIBLIA. N.T. Bíblia Sagrada. Tradução Oficial CNBB. 1. ed. São Paulo: Edições CNBB. 2018.

BOFF, Clodovis. Mariologia: Iniciação à Teologia. ___. Maria no Novo Testamento: Mariologia em Lucas. 7. ed. Petrópolis: Vozes. 2019. p.45

FRANCISCO, Papa. Evangelii Gaudium. ___. Evangelizadores com Espírito: Maria a mãe da evangelização. 1ª. ed. São Paulo: Paulinas. 2014. p. 225

FRANCISCO, Papa. Carta do Papa Francisco a todos os fiéis para o mês de maio de 2020. Disponível em: http://www.vatican.va/content/francesco/pt/letters/2020//documents/papa-francesco_20200425_lettera-mesedimaggio.html.> Acesso em: 02/05/2020.

MURAD, Afonso. Maria: Toda de Deus e Tão Humana. ___. Maria na Devoção e na Liturgia: Maria e as “Nossas Senhoras”. 1. ed. São Paulo: Paulinas.  2012. p. 208

MURAD, Afonso. Maria: Toda de Deus e Tão Humana. ___. Maria na Devoção e na Liturgia: Devoção, Continuidade e Renovação. 1. ed. São Paulo: Paulinas.  2012. p. 209

RAHM, Harold. Mãe Das Américas.___. Progressos da Devoção. 2. ed. São Paulo: Edições Loyola. 1985. p. 96

O sepulcro passou!

A lógica da cruz é misteriosa, pois anestesia a ideia de felicidade difundida em nosso mundo (FRANCISCO, 2018, p.82). São Paulo nos aponta para o alto, onde o Senhor está vitorioso, e lá, a nossa “vida está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3, 3). São Boaventura já dizia que “a nossa lógica” leva a uma alegria eterna e não de aparências. Não pertencemos mais às sombras da antiga culpa. Para os judeus, o sábado passou e agora, o povo pode voltar as suas tarefas. Mas há algo diferente: as mulheres ao visitarem o túmulo de Jesus testemunham a inexistência do corpo do Mestre. O sepulcro se tornou lugar de passagem. A natureza “treme”, pois o “grão que caiu na terra, produziu vida (Jo 12,24), e assim, todos podem “ter vida em abundância” (Jo 10,10). Aquele túmulo frio, sem vida, agora se encontra vazio. O anjo que surge na cena da ressurreição não tira a pedra, mas comunica que a vida venceu a morte. A alegria foi superior ao desespero. Os guardas tremem, pois de fato, os sistemas a que estão “atados” não deixam que os mesmos vivam o ideal cristão. O medo impossibilita as relações fraternas e leva à morte. Porém, o que aquelas mulheres veem agora gera um sentimento de muita alegria e o Senhor as pede: “Ide anunciar a meus irmãos que se dirijam para a Galiléia, lá me verão” (Mt 28,10).

A ressurreição de Jesus é motivo de alegria e exultação (Sl 118, 24), pois a todos que Ele se manifesta, tais alteram profundamente o seu viver. Páscoa é passagem, é caminho de mudança, transformação. Requer muitas vezes dores inimagináveis e dias de luto; todavia, Cristo foi fiel e por ser fiel, dignificou-nos novamente. Do Éden que outrora fomos expulsos (Gn 3,23), Jesus nos apresenta um novo jardim. As coisas antigas ficaram e com elas precisamos junto ao Mestre prosseguir. Mais uma vez Ele estará conosco e vitorioso, a morte já não usa mais de seu aguilhão (1 Cor 15,55).

Com o auxílio e cuidado de todos aqueles que querem o bem, venceremos esta pandemia e além disso, deixaremos para trás o “perigo da onipotência humana” (CANTALAMESSA, 2020) que extermina a vida e não a deixa germinar, pois onde o “vírus da morte” aparece, temos “de novo o jugo da escravidão” (Gl 5,1).

Portanto, tenhamos coragem, pois como Ele venceu o mundo (Jo 16,33), nós também conseguiremos sair desta situação temorosa. Eis a nossa certeza: Ele nos amou e por nós se entregou (Gl 2,20). Tenhamos uma Páscoa de esperança em tempos novos e abracemos esta certeza. Aleluia, aleluia.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BÍBLIA DO PEREGRINO. 3 ed. São Paulo: Paulus, 2011

BÍBLIA SAGRADA. Tradução Oficial da CNBB. 1 ed. Brasília: CNBB, 2018.

CANTALAMESSA, Raniero. Pregação da Sexta-feira da Paixão do Senhor. Roma, 2020. Disponível de: <https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2020-04/pregação-sexta-feira-paixao-raniero-cantalamessa-vaticano> Acesso em 11 Abr. 2020

FRANCISCO. Gaudete et Exsultate: sobre o chamado à santidade no mundo atual. São Paulo, Paulus, 2018.

“Sede alegres na esperança, pacientes na tribulação e perseverantes na oração” (Rm 12,12)

“Sede alegres na esperança, pacientes na tribulação e perseverantes na oração” (Rm 12,12)

O momento que vivemos requer de nós um olhar de cuidado e empatia para com os que sofrem. São tempos difíceis que geram em nós o sentimento de angústia, dúvida e desespero.
Mas nunca devemos perder a confiança em Deus; Ele sim está sempre ao nosso lado, como um pastor que cuida das suas ovelhas. “Como meu Pai me conhece e eu conheço o Pai. Dou a minha vida pelas minhas ovelhas” (Jo 10, 15).
Neste Domingo de Ramos iniciamos a Semana Maior da fé católica, a Semana Santa. Este ano vamos vivê-la de maneira diferente, em nossas casas. Mesmo sem a oportunidade de vivenciar as celebrações nas igrejas, as grandes procissões, os teatros da paixão e tantas outras programações comuns nesse período, não percamos o encanto por Jesus. Façamos nós a nossa Semana Santa. Soframos com Jesus, morramos com Jesus e acima de tudo, Ressuscitemos com Ele. “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10).
Em meio à escuridão, busquemos a luz. A luz que é Jesus, que guia nossos passos e nos conduz à alegria, uma alegria plena e verdadeira. Deus jamais esquece a aliança que fez conosco; que assim também nós não esqueçamos dessa aliança. “vós, que temeis o Senhor, tende confiança nele…” (Eclo 2,8).
Continuemos em constante oração, tendo sempre confiança no Senhor, e acreditando em sua poderosa misericórdia.

“Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mc 12,31) – Um olhar sobre a realidade

“Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mc 12,31)

A antiga e tão jovem Palavra de Deus se faz sempre contemporânea aos homens e mulheres de cada tempo da história. Nos dias atuais, com o presente surto causado pela pandemia do Covid-19, uma das formas mais eficazes de cumprirmos este mandamento do Senhor de amor ao próximo é, nos resguardarmos todos dentro de nossos lares. Sim, obedecendo às normas estabelecidas pelas autoridades de nossos tempos com relação aos devidos cuidados a serem tomados. Isso é sem dúvida, uma forma de amor próprio e amor ao próximo.

A genuína e autêntica liberdade é expressa não só pelo ato de sermos responsáveis por nós mesmos, mas em também nos sentirmos corresponsáveis pela causa do outro. A causa do amor ao próximo e o zelo com ele é sempre uma urgência inadiável. Este princípio de alteridade, torna o homem mais humanizado, capaz de, desprendido das amarras egocêntricas, conseguir enxergar no horizonte da vida a presença do próximo como uma extensão de um outro eu.  É preciso que no meio de todo este caos vivido nos dias atuais, encontremos um motivo real que nos faça aceitar a reclusão,bem como as devidas precauções,sem preconceito ou arrogância, esta causa é, sem dúvidas, o amor. Somente o amor leva o ser humano à obediência. Amar é a única razão pela qual alguém consentesubmeter-sea situações racionalmente incompreensíveis no presente momento.

Não se deve jamais interpretar este sombrio momento como um castigo de Deus, por alguma falha provindo da miséria humana. Não! “Deus é amor” (1Jo 4,8), e o amor não se interessa em castigar, não se regozija com o sofrimento, mas versa-se em acolher, educar e salvar o gênero humano em sua inteireza. Em meio a toda tempestade desta pandemia que assola diversos povos, deve-se buscar enxergar um sinal da graça de Deus. Não que Ele tenha querido ou planejado tal atrocidade, mas mesmo em meio às tempestades, a voz do Criador fala às criaturas. Nos momentos de ruas, shoppings e até mesmo universidades vazias, os lares estão povoados; os templos, desde os pequenos às grandes catedrais, encontram-se vazios, os lares se tornam templos de oração, um lugar de encontro com o Sagrado; as mesas dos restaurantes encontram-se vazias, mas nas mesas dos lares, esposo e esposa, pais e filhos, poderão tomar juntos as refeições, poderão olhar nos olhos, dialogar sem a pressa dos ponteiros do relógio. Talvez agora, diante do presente caos lá fora, dentro de casa torna-se possível o encontro familiar tão protelado e impossível de se acontecer por decorrência dos horários incompatíveis, muitas vezes causados pelo sistema consumidor.

Sabemos o quão desolador tem sido estes dias vividos de tribulações. É preciso cuidar para que estas realidades não nos façam cair em um abismo de desesperança. É dever de todos nós, homens e mulheres de boa vontade, cumprirmos com as obrigações que nos são incumbidas e lançarmos nosso olhar a Jesus, Ele foi a esperança do Pai para redenção da humanidade, e é a nossa esperança para vencermos vigorosamente as adversidades. Devemos, pois, fincar nossa confiança no Senhor do alto da Cruz, Ele é nossa esperança e como bem diz o Apóstolo: “a esperança não decepciona” (Rm 5,5).

Todos nós, peregrinos neste mundo, enquanto marchamos rumo à Jerusalém celeste, estamos sujeitos às realidades muitas vezes pavorosas e dolorosas que se nos apresentam, contudo, não devemos temer, pois não estamos sós, nosso Senhor nos prometeu sua companhia até que o tempo se consuma (Cf Mt 28,20) e Aquele que É a Verdade, jamais nos enganaria. Em meio ao medo dos ventos tempestuosos, só há uma maneira de não perdermos a felicidade que o Criador implantou em nós desde a criação: confiarmo-nos ao Senhor. Pois como bem disse o Salmista no refrão; “É feliz quem a Deus se confia” (Sl 1). É preciso confiarmos sempre no Senhor, inclusive quando nossas capacidades se tornam incapazes. Confiemos n’Ele, ainda que o medo faça nossos passos vacilarem, mas que nossa fé encoraje nosso espírito a firmar-se no Senhor, nosso Rochedo.

Por fim, contemos sempre com a força da graça de Deus e com a fiel intercessão de Maria Santíssima, a Mãe do Senhor da Cruz e de todos os peregrinos da terra. Que Ela rogue por nós a seu Filho, para que o amor e o zelo ao próximo nunca nos falte.

Seguidores ou PERseguidores?

Seguidores ou PERseguidores?

“Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens” (Mt 4,19). A todas as pessoas de boa vontade que, pela Igreja de Cristo, receberam a graça do Batismo, este apelo de Jesus se faz sempre novo: o Senhor, Bondoso Mestre, chama-nos a segui-Lo. Mas, nos tempos hodiernos poder-se-ia alguém perguntar: mas como segui-Lo se não O estamos enxergando? A resposta será imediata e convicta: o Cristo de Deus permanece presente no mundo através de sua Santa Igreja, uma vez que a Igreja é o Sacramento de Cristo, ou seja, seu sinal visível no meio dos homens. Portanto, o caminho do discipulado a Jesus, começa na Igreja e segue mundo a fora.
Em sua santa sabedoria, Jesus escolheu Pedro para conduzir sua Igreja em seu nome e deu-lhe o poder de estabelecer a comunhão entre o céu e a terra (cf. Mt 16,18-19). E Pedro, o primeiro Papa, assim o fez conduzido pela força do Espírito Santo. Desde Pedro, muitos outros homens de coragem, escolhidos pelo Espírito Santo, guiaram a Barca de Cristo por este mundo dilacerado por discórdias. Hoje, LEGITIMAMENTE, o Pedro a guiar a Barca de Cristo que é a Igreja, é o Papa Francisco, homem de Deus, que com o farol do Espírito vem lutando para clarear as vistas de tantos homens perdidos na escuridão do egoísmo e ignorância.
Percebemos nas celebrações litúrgicas que nossos templos estão cheios, bancos sem espaços. Mas, após ler, ouvir e presenciar tantos ataques à Igreja e ao Sumo Pontífice, paira uma pergunta: as capelas estão cheias de seguidores ou perseguidores? Muitas pessoas que se intitulam católicas e que inclusive são batizadas, vão às Celebrações litúrgicas, mas mal saem pela porta e já começam a difamar a Igreja. Pessoas que cultivam tal costume, vão de fato à Igreja, mas não são seguidoras e sim perseguidoras. Este tipo de comportamento jamais parte de quem optou genuinamente seguir a Jesus, pelo contrário, é como um retrato bem pintado dos fariseus que iam atrás de Jesus perseguindo-o no intuito de tramar ciladas contra Ele.
Percebe-se ainda nos tempos atuais, pessoas que leram uma página do Catecismo, do Código de Direito Canônico ou de algum documento da Igreja e já se sente doutoras para tecerem críticas desfundamentadas à Igreja. Alguns, em suas infidelidades aos bons modos e à ética, se referem ao Papa Francisco com vocábulos inescrupulosos. Ninguém é obrigado a concordar com todas as ideias do Santo Padre, porém, todos os católicos que gozam de boa consciência devem prezar pela unidade da Igreja. Caluniar o Papa, difamar a Igreja e criar situações de divisão, é ir contra a prece de Jesus: “que todos sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós” (Jo 17,21). Partindo dos princípios evangélicos, entende-se com distinção que a universalidade da Igreja de Cristo, tem por objetivo unir todos os povos. Portanto, nunca, jamais um católico deve ser causador de contendas e semeador da discórdia. Somos chamados à levarmos nos lábios a Boa Nova de Jesus e proclamar o tempo da graça do Senhor e jamais difundir as práticas farisaicas.
Que o Senhor, Bondoso Mestre, nos ajude a sermos melhores cristãos e que Maria, Mãe da humanidade interceda por nós, para que seguindo seu amadíssimo Filho, possamos nós percorrer os caminhos da fraternidade.

EU APOIO O PAPA. EU REZO PELO SÍNODO

Apóstolos, isto é, enviados, por vocação, para o anúncio do Evangelho de Deus, que é Jesus Cristo encarnado, morto e ressuscitado, pela força do Espírito Santo, para a nossa Salvação. Por este Evangelho fomos escolhidos, “Batizados e enviados”, para trazermos à obediência da fé todos os povos pagãos, os povos que ainda não conhecem a Jesus Cristo (cf. Rm 1,1-6). Dentre estes povos estamos nós e está também os povos da Amazônia, para os quais a Igreja nestes dias dirige a sua total atenção em Sínodo em vistas de discutir e descobrir caminhos novos para a evangelização daqueles povos e para uma ecologia integral.

Este Sínodo tem gerado muitas discussões e até divisões dentro da Igreja. Não muito diferente da época em que Paulo pregou o Evangelho, quando, por exemplo, os fiéis cristãos de origem judaica se sentiam a verdadeira essência da mensagem cristã e queriam fazer pesar sobre os fiéis cristãos de origem grega os mesmos compromissos que, certa vez, lhe pesaram o judaísmo: a circuncisão e a observância estrita da Lei. Para resolver este problema, os apóstolos se reuniram de maneira sinodal: o Concílio de Jerusalém, e decidiram, o Espírito Santo e eles, que o essencial não são os rituais da cultura judaica, mas a fidelidade a um único Deus revelado de forma plena a Jesus Cristo. Os preceitos judaicos passaram, o que conta é a liberdade conseguida por Cristo: liberdade para escolher amar e servir a este Deus, em Jesus Cristo, no interior de qualquer cultura em que o Evangelho alcançasse, purificasse e enriquecesse com a Sua graça, mas não eliminasse, para transformá-la em outra cultura que se considerasse superior (cf. At 15,1-29).

Jesus Cristo derramou o Seu Sangue na Cruz também pelos povos da Amazônia, para a salvação deles e para que eles fossem igualmente conduzidos ao verdadeiro Deus e à verdadeira vida. Contudo, como em Pentecostes, as maravilhas de Deus devem ser anunciadas também na língua daqueles povos, para purificar e enriquecer sua cultura, mais voltada à ligação e o cuidado com a terra e com aquela Floresta que é tão importante para a humanidade. E assim eles também possam vir à obediência da fé (cf. Rm 1,4), e levar a esta obediência de fé todos os seus conterrâneos. Como diz o Salmo 97: “Os confins do universo contemplaram a salvação do nosso Deus”. Também àqueles confins deve-se ecoar de maneira sempre nova, adaptada, eficaz, o Evangelho de Jesus Cristo, e é nossa missão de batizados fazer cumprir esta missão. Por isso, devemos apoiar o Papa, rezar pelo Sínodo para a Amazônia. Se não podemos ir até lá e ser missionários entre aqueles povos, devemos pelo menos rezar pelos que já estão lá e fazem este trabalho. Devemos rezar pela Igreja, para que permaneça fiel à sua vocação de evangelizar e se converta, dia a dia, na Igreja “em saída”, misericordiosa e pobre, à qual convida o Papa Francisco, inspirado pelo Espírito Santo, que o conduziu ao ministério petrino.

Digamos não à guerra entre nós! Não à divisão, que vem do Maligno! Não escutemos estes “profetas da divisão” que falam contra o Papa, contra o Sínodo, contra a CNBB, contra a Igreja. Eles não são nossos pastores! Jesus escolheu a Barca de Pedro para nela ficar e a partir dela anunciar o Seu Evangelho. Quem conduz a Barca de Pedro hoje é Francisco. Não há outro modo de ser verdadeira Igreja de Cristo senão pela união com o Papa. E aquele que está na Barca de Pedro tem a garantia divina de que Cristo está nela.

O verdadeiro sentido da vida

O verdadeiro sentido da vida

Num momento oportuno da história, ainda sem nenhuma ideia de ressurreição, a existência foi tida como absurda. Em Eclesiástico 40, percebe-se a “penosa sorte” dada a cada indivíduo, visto assim como uma cruz complicada para se carregar. Tal realidade é comum a todos, nem mesmo aquele que a tudo tem, não fica imune a tamanha realidade absurda da vida. No descansar da noite, o homem “fica perturbado pelos fantasmas de sua mente, como quem fugiu da linha de batalha” (Eclo40, 6b) mas, ao despertar, se vê novamente defronte com seus inúmeros desafios a enfrentar.

O verdadeiro sentido da vida acontece na fiel temeridade a Deus. Porém, escolhê-Lo nem sempre é tarefa fácil. Num mundo marcado por tantas formas de alienação, uma cultura segundo os ideais do consumo é tida como a garantidora da felicidade. Será? O Documento Final da XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, “Os Jovens, a Fé e o Discernimento Vocacional” (2019, p.28-29) relata que “está crescendo, especialmente entre o jovens, a disseminação de formas de sofrimento psíquico, depressão” e o texto ainda fala acerca “do trágico fenômeno do suicídio.”Qual o motivo? Perceba a contradição a que chegamos: as pessoas estão “vazias” com o tudo dado a elas.

Tornar o coração repleto da graça é permitir viver uma vida voltada a Deus (cf. Hb 12, 9b). Por isso, desejar a autossuficiência é impossibilitar a autêntica condição humana a que cada um fora chamado: a de ser feliz com o outro! É fundamental vivermos em comunidade, e isso requer que “amemo-nos uns aos outros, […] e todo aquele que ama, nasceu de Deus e conhece a Deus.” (1 Jo 4, 7)Juntos, em comunidade, teremos a força para levarmos nossas cruzes. A alegria do cristão é resultado do bom humor. O oposto “não é um sinal de santidade,” já fala o Papa Francisco (2018, p.61) e assim, é preciso retirar toda a angústia presente no coração e se afastar de qualquer mal (cf. Ecl 11,10). Papa Francisco (2018, p.62) ainda diz sobre “àquela alegria que se vive em comunhão, que se partilha e comunica.”

Portanto, Jesus pede que frente a todas as condições temerosas da vida, o ser humano possa se levantar e erguer a cabeça (cf. Lc 21, 28) para que desta forma ele prossiga na sua caminhada lidando com todas as suas adversidades. No fim, assim como São Paulo, poderemos dizer que “o Senhor ficou comigo e me encheu de força, a fim de que eu pudesse anunciar a mensagem e ela chegasse aos ouvidos de todas as nações” (2 Tm 4, 17). Que o nosso pessimismo possa ser transformado em esperança, e esta, possa ser encontrada no Senhor.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BÍBLIA SAGRADA, Edição Pastoral. 45 ed. São Paulo: Paulus, 2002

FRANCISCO. Gaudete et Exsultate: sobre o chamado à santidade no mundo atual. 1 ed. São Paulo: Paulus, 2018

SÍNIDO DOS BISPOS. Os jovens, a fé e o discernimento vocacional: Documento final. 1 ed. São Paulo: Paulus, 2019

 

Decida-se pela alegria duradoura!

A Igreja reza no mês de agosto de forma particular pelas vocações e assim, sendo ela intermediadora da graça divina, conclama seus fiéis a se colocarem em serviço. O Salmo 25 canta a mudança de vida do pecador. Ao sair de uma condição de vergonha para um caminhar junto ao Deus que “ensina aos pobres o seu caminho” (v.9b), o Senhor mais uma vez espera por respostas que surgirão do encontro com aquele que estava perdido e agora inicia sua trajetória nesta jornada. Decidir-se pelo itinerário proposto pelo Senhor é se deixar tocar por sua ação e confiar que de sua força virá as palavras necessárias quando eu precisar (cf. Jr 1, 9). Optar-se ao seguimento do Mestre nos provoca a viver de forma despreocupada com o amanhã: “Basta a cada dia a própria dificuldade” (Mt 6, 34c). Ele não isenta a ninguém dos obstáculos da vida, mas provoca a se ter confiança, a fazer o percurso passando pela porta mais estreita, a ser aquele seguidor que tem prudência e no Senhor é chamado a fincar suas bases. (cf. Mt 7,7-27)

Decidir por algo é renunciar outras coisas. Tais escolhas poderão não corresponder com os anseios do mundo. Em meio a tantas fragmentações do ser humano, falar numa cultura vocacional é indicar “um caminho necessário para a construção unitária da pessoa” (Texto-base do IV Congresso Vocacional do Brasil, 2018, p.15). Os muitos problemas vividos pelos homens atualmente se contrapõem ao ideal proposto por Jesus ao descer da montanha. Sua mensagem é de esperança, para que no fim possam ser felizes, pois o desejo por um mundo novo implica em denunciar a certas atitudes contrárias ao amor divino (cf. Lc 6, 17-26). A realização deste intuito de Cristo acontece em nossas famílias, comunidades, sociedade, todos os dias, pois são nos pequenos gestos de conversão que se decide andar no caminho do Pai. Todos são convocados a serem propagadores desta graça. “A descoberta da vida como dom recebido de um Pai amoroso e providente provoca surpresa e maravilha na pessoa” (Texto-base do IV Congresso Vocacional do Brasil, 2018, p.17). Assim como São Paulo nos diz para agradecermos sempre (1Ts 5,18), sejamos colaboradores de um mundo mais grato e feliz, com mais esperança e menos pessimismo, e logo, mediante as realidades de tristeza, (Eclo, 38,20) tenhamos a força necessária para dar ao nosso coração a certeza de termos um Deus amigo, que não nos abandona, porque ele é Pai. Decida-se pela alegria que dura mais!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BÍBLIA SAGRADA.Edição Pastoral. 45 ed. São Paulo: Paulus, 2002
PASTORAL VOCACIONAL DO BRASIL. Texto-base do IV Congresso Vocacional do Brasil. Brasília: Edições CNBB, 2018

O retorno à casa paterna

“Era necessário fazer festa, porque esse teu irmão estava morto e reviveu, tinha-se perdido e foi encontrado.” (Lc15,32) Por que se alegrar com o retorno deste filho bastardo? A parábola do Pai misericordioso é uma preciosidade para a literatura mundial. Apresenta a face mais bela de Deus, que na lógica do mundo se desfaz com o mistério insondável do Criador. Se Deus é “compassivo e clemente, paciente e misericordioso” (Jn 4,2), não é de se estranhar que este Pai não agiria com misericórdia. Mas por que tal gesto de retorno à casa paterna provocou a agitação do filho mais velho? O protesto deste se vincula a uma ideia de retribuição. Afinal, tinha sido sempre obediente ao seu pai. Porém, na perspectiva da paternidade, o lar aqui descrito provoca no filho mais velho a necessidade de ser fraterno e romper com sua indiferença. Portanto, uma vida que provou do arrependimento merece ser celebrada. A “compaixão transformada em corrida de encontro” (STEINER, 2016) provoca rapidez paterna para ser amoroso. Não se perde tempo com palavras, mas se ganha sendo caridoso. O Papa Francisco lembra que a Igreja precisa ser semelhante ao “pai do filho pródigo, que continua com as portas abertas para quando este voltar, poder entrar sem dificuldade.” (2013, p.33)
Voltar à casa do pai é perceber que a lei do amor faz sentido nesta dimensão que liberta e não aprisiona. Alegrar-se por aquele que se arrependeu é entender que o amor fraterno é um ideal para todos nós cristãos e não faria sentido um sentimento deste restrito apenas a alguns. E se for preciso ir até o Pai, não sintamos receio, pelo contrário, sejamos corajosos para seguir este caminho. Sendo assim, não há motivo para se entristecer, pois que estava perdido, foi reencontrado.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BÍBLIA DO PEREGRINO. São Paulo, Paulus, 2011.
FRANCISCO. Evangelli Gaudium A alegria do Evangelho: sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. São Paulo, Paulus, 2013
STEINER, D. Leonardo. O rosto da misericórdia. Brasília, Edições CNBB, 2016

As reformas de Francisco

Antes da escolha do Papa, o tema das reformas da Cúria Romana era predominante entre os membros do Colégio de Cardeais, responsável pela escolha do futuro Pontífice. E, talvez por isso mesmo, a opção de se escolher um Papa do “fim do mundo” como declarou o cardeal Bergoglio ao ser apresentado à população na Praça de São Pedro, após ser o escolhido, tinha esta intenção subjacente. O fato de não ser europeu poderia contribuir muito no movimento necessário das reformas da Igreja.

Mas que características o Papa Francisco defende para conduzir este movimento? Ao se referir à Cúria Romana, que é um conjunto de dezenas de organismos encarregados de conduzir a Igreja pelo mundo todo, o Papa assim declara pouco antes do Natal de 2014: “É bonito pensar na Cúria Romana como um pequeno modelo de Igreja, ou seja, como um corpo que busca ser, séria e cotidianamente, mais vivo, mais saudável, mais harmonioso e mais unido em si mesmo e com Cristo”. Portanto, não se trata de uma estrutura burocrática e administrativa em primeiro lugar, mas um modelo de Igreja que deveria servir de exemplo para as dioceses, paróquias e comunidades. As reformas do Papa Francisco assim devem impactar todo o conjunto da Igreja, atingindo lá longe nas periferias. Qualquer alteração na estrutura administrativa da Igreja particular deveria seguir esta ideia.

O Papa também tem consciência das dificuldades para implementar as reformas necessárias. E assim às vésperas do Natal de 2017 nos alerta: “Fazer as reformas em Roma é como limpar a Esfinge do Egito com uma escova de dentes. Nela se ressalta a grande paciência, dedicação e delicadeza que são necessárias para se alcançar tal objetivo, dado que a Cúria é uma instituição antiga, complexa, venerável, composta por pessoas de diferentes culturas, línguas e mentalidade que existe para o bem de todo o corpo da Igreja”. Isso nos dá esperança e conforto quando tentamos mudanças nas estruturas paroquiais e de comunidades em escala menor. É sempre um trabalho paciente, humilde e delicado. Mas, em que direção devem caminhar as reformas?

Em 24 de novembro de 2013 o Papa publica a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium – A alegria do Evangelho: sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual – e afirma que este documento “possui um caráter programático e tem consequências importantes”; implica uma “renovação individual a partir do coração do Evangelho”. Nasce aqui a ideia de uma “Igreja em saída”. Eis a chave missionária das reformas. Esta é a reforma fundamental conduzida por Francisco. Não é um slogan qualquer, mas um programa de mudanças, que implica todo o conjunto da Igreja. E afirma: “Convido a todos a serem ousados e criativos nesta tarefa de repensar os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores das respectivas comunidades, superando o projeto do “sempre assim” e renovando as estruturas, os métodos, as linguagens, o papado, as paróquias, a teologia”.

Esta exortação se completa com a Encíclica Laudato Si e a Exortação Amoris Laetitia, sendo esta a que mais reações negativas, principalmente nas orientações a respeito dos divorciados, produziu no interior da Igreja. A resposta do Papa a estas reações é dura: “Um pastor não pode sentir-se satisfeito apenas aplicando leis morais àqueles que vivem em situações ‘irregulares’, como se fossem pedras que se atiram contra a vida das pessoas”. Refere-se aqui a questão dos divorciados e aqueles em nova união e sua participação na Igreja. Assim, a reforma de Francisco toma como princípios no interior da comunidade eclesial a conversão e a misericórdia. O modelo pastoral deverá ser baseado na lógica da misericórdia.

No que se refere à estrutura, a paróquia deveria assumir formas diferentes com docilidade e criatividade missionária por parte do pastor e da comunidade. Nela todas as forças vivas devem se integrar. A escolha dos futuros padres e bispos deveria ter como critério o perfil de “sacerdotes das ruas” e bispos com cheiro do povo, que favoreçam a comunhão missionária. Às vezes devem estar à frente do povo, outras com o povo e também, se for necessário, estar atrás do povo de acordo com as exigências do momento.

Neste processo de renovação, o princípio da sinodalidade deve preponderar, com o pastor ouvindo o povo e o povo ouvindo o pastor; ao mesmo tempo, deveria ser visível, gradual e buscar sempre o consenso, e não se impor uma reforma de maneira autoritária. A condução deste movimento que deverá atingir a todos deve ser pautada pela caridade, pastoralidade, e pela preservação da comunhão com muita paciência e respeito pelos atrasos. O tempo de cada um deve ser respeitado e assim se dá a renovação da Igreja enraizada na tradição.

O papa faz a reforma da Cúria Romana reorganizando os vários organismos com a ajuda de um Conselho (C 9) composto por 9 cardeais, que também o auxiliam no governo da Igreja. Denuncia a existência de “carreirismo eclesial”, com pessoas carentes ainda de uma profunda experiência espiritual. Denuncia as várias resistências que vai encontrando e reclama das resistências abertas que nascem do diálogo e da boa vontade das pessoas em querer o melhor para a Igreja; e de maneira ele se refere às resistências ocultas e malévolas, que nascem dos corações assustados e empedernidos, e das mentes tortuosas cheias de más intenções que causam muito prejuízo na Igreja, afastando antigos e novos fiéis. A reforma nos organismos também se defronta com as resistências daqueles que dizem “sempre fizemos desse jeito” ou “nunca fizemos isso antes”.

Para concluir este artigo, podemos assegurar que o Papa Francisco manterá até o fim de seu pontificado este movimento de reforma que incluiu toda a Igreja, exigindo assim o mesmo de cada Igreja Particular, de cada paróquia, de cada comunidade, de cada pessoa. Ser fiel neste momento significa caminhar nesta direção. Ele se preocupa muito com o silêncio dos Bispos que ainda não fizeram chegar a reforma em suas Igrejas particulares e não se movimentam contra as resistências ocultas e malévolas que fazem tanto mal à Igreja. Ele tem demonstrado mudanças na escolha dos novos Bispos, buscando pessoas com cheiro do povo e na renovação do colégio de cardeais. Isso deveria garantir a continuidade das reformas ao longo do tempo. E de modo incisivo, queremos concluir com Francisco: “É preciso destacar que a reforma será eficaz única e exclusivamente se for implementada com homens ‘renovados” e não simplesmente com homens ‘novos’. Não basta se contentar em mudar o pessoal, mas é preciso levar os membros da Cúria a se renovarem espiritual, humana e profissionalmente. A reforma da Cúria não se implementa de modo algum com a mudança das pessoas, mas com a conversão das pessoas. Não basta uma formação permanente. É preciso sobretudo uma conversão e uma purificação permanentes”.

Estas são algumas ideias principais para o movimento da reforma da Igreja conduzida pelo Papa Francisco. Agradeço imensamente o convite que o bispo Dom Paulo Dal’Bó me fez para falar na miniassembleia ocorrida em 24 de novembro passado e desejo que a renovação se desenvolva de maneira profunda nestas terras do norte do Espírito Santo, tão carente dos bens do Reino de Deus. Tenho profunda estima e admiração pelo povo de São Mateus, especialmente pelo Bispo atual e seu clero, com quem caminhamos no processo formativo. E mais ainda o meu reconhecimento aos bispos anteriores, padres anteriores especialmente os da família comboniana, e especialmente Dom Aldo Gerna com quem mantivemos sempre um caminho de comunhão e ajuda no processo formativo de seus padres. Obrigado a todos e que Deus nos abençoe neste momento histórico tão desafiador para os cristãos do Brasil. No capítulo IV da Evangelii Gaudium, o programa de reforma aponta a dimensão social com a inclusão dos pobres como um dos maiores desafios. É o grito dos pobres que a Igreja precisa ouvir para ser plena a sinodalidade defendida no programa reformador.

O Papa Francisco em diversas oportunidades tem manifestado grande preocupação coma nova cultura que está se formando. E nos coloca como desafio o desmascaramento das “táticas de cobra”, que são os produtores das fake News, manipuladoras que fomentam a desunião para servir a interesses políticos e econômicos. Ele se refere ao primeiro momento de queda do homem, ainda no Jardim do Éden, quando a serpente produziu a primeira notícia falsa, levando Adão e Eva ao pecado: “Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele (deste fruto) comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal”. Esconde-se aí a sedução traiçoeira e perigosa que se abre no coração do homem com argumentos falsos e atraentes. Francisco nos interroga: “sou um cristão que caminha na estrada da vida ou da mentira?” Como seria possível aplicar o dito do Evangelho de que “a verdade vos libertará?” Por outro lado, o consumo de notícias falsas é como comer fezes, nos alerta o papa.

Os cristãos entram nesse fim de ano no tempo do Advento, esperando o nascimento do Menino Deus. O Natal terá sentido verdadeiro se estiver inserido no contexto da verdade e não da mentira. A prática religiosa cristã no Brasil atual necessita de um profundo exame de consciência. Por este motivo, entendemos que o primeiro passo das reformas de Francisco passa necessariamente por um profundo e sincero “Ato Penitencial”. Somente assim podemos proferir “Bom Natal” aos quatro cantos da terra.

Autor: Prof. Dr. Edebrande Cavalieri

Graduado em Filosofia pela Faculdade Nossa Senhora Medianeira – São Paulo – (1976), curso livre de Teologia pelo ITESP (Instituto Teológico São Paulo), doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (2005) e Professor titular de Filosofia da UFES