2 de novembro de 2018

“A tristeza se mistura com a esperança” – Homilia de Dom Paulo no dia de Finados


A tristeza se mistura com a esperança.

No Cemitério não encontramos os que partiram, apenas lembranças com saudades do passado das pessoas que amamos. Lembramos as histórias, as lutas, as alegrias e tristezas. Mantemos e guardamos a saudade que nos faz tão bem. Somos convidados a não guardar sentimentos de tristeza, pois, ela trás dor e sofrimento. No Cemitério ou no templo, encontramo-nos conosco mesmos, com o Senhor e com o outro. E neste encontro vamos fazendo o nosso caminho. Além de rezarmos por nossos entes queridos, pelos vivos e demais necessidades é um momento propício e oportuno para avaliarmos a nossa própria vida. Estarmos atentos, vigilantes e em oração, pois não sabemos o dia e nem a hora em que o Senhor virá. “Vocês também estejam preparados, porque o Filho do Homem vai chegar na hora em que vocês menos esperam” (Lc 12,40).

Humanamente falando, não gostamos de pensar na morte, especialmente na nossa própria morte. No entanto, temos a certeza que chegará o nosso dia. Por que temos receio da morte? Porque tira do nosso convívio pessoas muito queridas por nós! Acaba com planos e sonhos! A morte nos rouba pessoas que amamos. Como é difícil lidar com este mistério. Sofremos com sua perda. Sua partida nos empobrece, deixa em nós um vazio, um oco no estômago, uma angústia incontida. Ficam a dor, a lembrança, a saudade, em difícil convivência com a certeza da ressurreição, da vitória sobre a morte e a fé na vida eterna. A morte é dura, fria e vazia, mas Cristo nos deu a mensagem de esperança. “Nela brilhou para nós a esperança da feliz ressurreição. E, aos que a certeza da morte entristece, a promessa da imortalidade consola. Para os que crêem em Cristo a vida não é tirada, mas transformada. E, desfeito o nosso corpo mortal, nos é dado, nos céus, um corpo imperecível” (MR, prefácio f. defuntos I)

A liturgia de hoje nos convida a trazer os que já partiram de volta à nossa memória, ao nosso coração, ao nosso convívio. É dia de agradecer, de pedir perdão, de afirmar nossa certeza na misericórdia divina. A vida não nos é tirada, mas transformada. O Senhor ressuscitado está no meio de nós e, um dia, todos nos encontraremos com o Deus vivo e com os nossos irmãos e irmãs que chegaram antes de nós à casa do Pai. Celebremos este dia, com fé e amor, a esperança que nos anima, esperança que é a última a morrer. A esperança, de fato, vive de braços dados com a fé, “garantia antecipada do que se espera, a prova de realidades que não se vêem”, como nos ensina a carta aos Hebreus (Hb 11,1).

Para muitos é um dia de tristeza, mas também de esperança e lembrança. Esse é o duplo sentido da comemoração de todos os fiéis defuntos.

Diz o Papa Francisco: “O sentimento da tristeza, o cemitério é triste, recorda os nossos entes queridos que morreram e nos recorda o futuro: a morte. Mas nesta tristeza trazemos flores como um sinal de esperança, também possa dizer de festa mais adiante… Esta tristeza se mistura com a esperança. É o que todos nós sentimos hoje nesta celebração. A recordação de nossos entes queridos e a esperança”.

“Mas também sentimos que essa esperança nos ajuda porque também nós devemos fazer este caminho, todos nós, antes ou depois, mas todos. Com dor, mais dor ou menos dor, mas com a flor da esperança. Com aquele fio forte ancorado ao lado de lá. Esta âncora, a esperança da ressurreição não decepciona”.

Flores e velas acesas, símbolos da vida e da esperança. Para dar beleza e forma aos túmulos, Templo e Cemitério, foi necessário podar ou revirar os canteiros do jardim. Se o nosso jardim da existência humana hoje está murcho, revirado, mexido, porque foram tiradas as mais belas flores, podem ter certeza que o jardim de Deus está mais belo e florido. Assim Deus vai ornamentando o seu jardim do jeito que ele quer e não do jeito que nós queremos.

“Quem percorreu primeiro o caminho foi Jesus. Nós percorremos o caminho que Ele fez. Com a sua Cruz ele nos abriu a porta da esperança, nos abriu a porta para entrar onde contemplaremos Deus. Sei que o meu redentor está vivo, eu o verei e meus olhos o contemplarão”

Disse Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão mim. Se vocês me conhecem, conhecerão também o meu Pai (Jo 14,6-7). Jesus é a grande luz, que dissipa as trevas. Ressuscita e faz ressuscitar. “Os filhos da luz nascem para a vida eterna e as portas do Reino dos céus se abrem para os fiéis redimidos. Nossa morte foi redimida pela sua e na sua ressurreição ressurgiu a vida para todos”. (MR).

Meus queridos irmãos e irmãs, concluo com as palavras do Santo Padre, o Papa Francisco: “Voltemos para casa hoje com esta recordação do passado, de nossos entes queridos que morreram, mas com um olhar para o futuro, para onde iremos, confiantes nas palavras de Jesus: “Eu o ressuscitarei no último dia”.

Não nascemos para morrer, mas morremos para nascer… para a vida eterna, na plena comunhão com Deus e com os irmãos e irmãs.

     DOM PAULO BOSI DAL’BÓ
BISPO DIOCESANO

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