28 de Março de 2018

Homilia de Dom Paulo na Missa Do Santo Crisma E Renovação Das Promessas Sacerdotais


Bênção Dos Santos Óleos – Catedral – 27/03/2018

– Excelentíssimo Dom Aldo, Reverendíssimos e amados filhos Presbíteros, Religiosos e Religiosas, Seminaristas, autoridades constituídas ou representadas e todo povo santo de Deus. De modo particular os religiosos e seminaristas missionários do Sagrado Coração de Jesus, que estão em missão em nossa Diocese. Queridos ouvintes da Rádio Kairós e demais meios de comunicação social, a nossa saudação.

– Neste ano do laicato, além de reconhecer os nossos irmãos e irmãs leigos e leigas como sujeitos e protagonistas do nosso modelo eclesial, convido a todos, para estarmos unidos em oração pela paz e comunhão em nossa Igreja e pela paz no mundo, mesmo diante das adversidades, dos conflitos que estamos vivendo nos últimos dias em diversas áreas. Todos de mãos dadas trilhando o mesmo caminho a serviço da vida. Perseverantes na oração e fortes nas tribulações.

– No espírito dos 60 anos de caminhada de fé em nossa Diocese, com o tema IGREJA PROFÉTICA E MISSIONÁRIA A SERVIÇO DA VIDA e com o lema: A MISSÃO CONTINUA, revisitamos a história (muito trabalho neste ano). Sendo assim, num espírito de continuidade, além de tudo que estamos contemplando e celebrando nestes 60 anos, trago em poucas palavras, o que refletimos nas duas últimas Missas de bênção dos santos óleos e renovação das promessas sacerdotais.

– Em 2016, no Ano da Misericórdia, fomos convidados a sermos misericordiosos como o Pai. Além disso, na mesma celebração, inspirado na mensagem do Papa Francisco foi mencionado, que para o presbítero ser obediente ao Pai e à Igreja no serviço, requer disponibilidade e prontidão, para servir a todos da melhor forma. “A disponibilidade do sacerdote faz da Igreja uma casa de portas abertas (…). Onde o povo de Deus tem uma necessidade, lá está o sacerdote, que sabe escutar e sente um mandato amoroso de Cristo… Foi reafirmado também o seguinte clamor: Trabalhem na obra comum com os leigos e leigas, religiosos e religiosas, vivam no meio deles segundo o exemplo do Mestre, que veio não para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de muitos. (Mt 20,28).

– Na mesma homilia, fiz questão de ressaltar aos religiosos, religiosas, leigos e leigas: sejam amáveis, amigos e parceiros dos seus presbíteros e não inimigos. Tomem consciência das obrigações, que têm para com eles, por isso dediquem-lhes filial amor como pais e pastores de vocês. Caminhem juntos.

– Em 2017, por estarmos no Ano Mariano, de uma forma simples, estabeleci um paralelo entre os nove meses da gestação de Maria e os nove anos do processo formativo para se chegar à ordenação presbiteral. Trabalhando o tema: MARIA E PRESBÍTERO, UMA ALIANÇA DE AMOR: Maria e presbítero se entrelaçam no seu jeito de amar e de acolher o chamado de Deus. O sim de Maria, também é o sim do presbítero ao chamado que o Senhor lhe faz. Além de várias reflexões algumas se destacaram: Na figura de Simeão foi dito que a experiência dos presbíteros mais experientes forma os mais novos. O cuidado com os mais jovens. E aos jovens presbíteros, quando sentirem-se cansados ou sozinhos, lembrem-se de que sempre por perto há um Simeão; A energia positiva dos novos presbíteros reencanta os mais experientes; Silenciar para melhor servir (guardar no coração); Retirar-se para se fortalecer (fuga para o Egito); Pais atentos e cuidadosos com os filhos e filhas (Jesus no Templo entre os doutores). Além de pai, o presbítero também é filho; Maria e presbítero, uma oferta de amor (Maria aos pés da cruz e Jesus no altar da cruz). Foi mencionado também a todos, principalmente aos religiosos, religiosas, seminaristas, leigos e leigas, que não existem seres humanos perfeitos, por isso sejam humanos na arte de julgar e ajudem os presbíteros a serem mais humanos. Quanto mais humanos formos, mais próximos da divindade, estaremos.

– Em 2018, contemplando a história, reconhecemos com muito júbilo todas as iniciativas positivas, porém alguns elementos foram aparecendo, nos chamam a atenção e nos inspiram cuidados:

A) No dia 16/02/18, no aniversário de instalação da Diocese, além de vários pontos de reflexão, um deles se destacou: o verbo ENTRAR. Falar de uma Igreja em Saída, missionária, primeiramente é preciso ENTRAR. Por que tantas perguntas sem respostas? Tantas mortes, guerras e conflitos? Crise na família, na política, na educação, na Igreja, na saúde, nas relações interpessoais, etc.? Chegamos à conclusão que isto acontece, porque estamos fora. Por diversas vezes, fora de nós mesmos; fora da casa; fora da família; fora do Templo; fora da comunidade (Igreja); fora do trabalho; fora da política, etc. E quando estamos fora, julgamos, criticamos, odiamos, ofendemos, machucamos as pessoas, não nos envolvemos e não chegamos a lugar nenhum. Um grande convite para que todos entrem, conheçam, se encantem, se apaixonem, se envolvam e façam o Evangelho acontecer na vida.

B) ACOLHIMENTO: Outro elemento fundamental a partir das experiências pastorais e do resultado da ENQUET (empresa que realizou uma pesquisa na Igreja do Estado do ES) é o acolhimento. Quando entramos de fato em nossa Igreja, fazemos outros questionamentos: como fomos acolhidos e como acolhemos? Não queremos competir com os evangélicos ou outras expressões, mas reconhecer que estamos ausentes e falhos no jeito de acolher. Quando marcamos presença, somos frios e às vezes ritualistas. Falta-nos muitas vezes amor, energia renovadora e aquecida na arte de acolher. A palavra acolhimento no aspecto positivo ou negativo chamou-nos a atenção nesta pesquisa.

C) GRATUIDADE FRAGILIZADA: Nossa Diocese de São Mateus é composta por 24 paróquias (aproximadamente 700 comunidades e 147 funcionários em 23 paróquias). Sem contar os trabalhos remunerados em diversas comunidades, com diaristas sem carteira assinada, muitas delas são comunidades pequenas e pobres. Isso nos preocupa. Aos poucos, vamos perdendo o espírito de gratuidade, o encontro de famílias, pastorais e movimentos que se organizavam conjuntamente e gratuitamente nas festas de seus santos padroeiros e em outros momentos nas comunidades. Hoje, percebe-se que em alguns lugares optou-se pelo mais rápido e prático. O trabalho remunerado e o descartável usam e descartam. Além de agredir a natureza, perdemos a grande oportunidade de estarmos mais próximos e integrados. Por outro lado, corremos o risco em fazer com que as relações interpessoais também se tornem descartáveis.

– Como é bonito e rico recordar, quando as comunidades se organizavam na construção de barracas (palhas de coco, bambu…), lavavam pratos e talheres, faxinas coletivas na Igreja e no pátio e tantas outras iniciativas. Eram momentos fortes de encontro e convivência em nossas comunidades eclesiais. Quanta festa e quanta alegria! Os fiéis não viam esta função como trabalho ou sacrifício, mas sim, como graça e dom de Deus.

– Como disse no ano passado, Deus seja louvado por tantos homens e mulheres, que além da casa, da família, do trabalho, se dedicam incansavelmente no seguimento a Jesus e no compromisso com a Igreja voluntariamente. Como é prazeroso perceber esta riqueza em algumas comunidades, mas por outro lado, alguns fiéis e lideranças infelizmente se desmotivaram ou mudaram seu foco. Em diversos lugares, pastorais, movimentos, famílias e demais organismos, organizam-se em blocos isolados, fazem a chamada vaquinha e preferem pagar alguém para fazer, do que estarem juntos com a mão na massa. Além de formar uma pastoral de guetos ou panelinhas, dificultamos a pastoral de conjunto e o espírito de comunhão e unidade na diversidade. Em muitos casos estabelecemos com o sagrado uma relação de troca. Se nós bispos, presbíteros, religiosos (as) e lideranças leigas não acordarmos e não nos abrirmos para a dinâmica da gratuidade, em pouco tempo, pode-se chegar a remuneração de catequistas, ministros e outras funções em nossa Igreja. Até a visita aos doentes, já tem gente cobrando. Isso é preocupante.

– Ao visitar a memória no contexto dos 60 anos, percebe-se a necessidade de manter aceso o alerta do RETORNO A GRATUIDADE, voltar-se para Deus e despojar-se para uma Igreja a caminho. Gratuidade e disponibilidade na arte de acolher e servir. Lembramos com saudades dos fiéis, que caminhavam alegremente a cavalo ou a pé, horas e horas, para visitar a outra comunidade, principalmente nas festas de seus santos padroeiros (com calçados nas mãos para não gastá-los). Hoje, ampliou-se a facilidade, comunidades mais próximas, a maioria dos fiéis possui carro ou outros meios de locomoção e colocam dificuldades de estarem presentes na vida da própria comunidade.

– Esta não é apenas uma preocupação do Bispo de São Mateus, ou de alguns presbíteros, mas sim do próprio Papa Francisco, que constantemente vem trazendo a reflexão por diversos lugares em suas visitas pontificais. No Santuário Nacional Mariano no Equador (08/07/15 – El Quinche), por exemplo, em seu discurso ao clero, religiosos, religiosas e seminaristas, o Papa enalteceu dois princípios fundamentais para vivência do Evangelho: A GRATUIDADE EM SERVIR E A PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA.

– “Façam este caminho de retorno à gratuidade, para a qual Deus os escolheu, pois vocês não pagaram a entrada, para entrar na vida religiosa. Toda a vida de um religioso, sacerdote ou seminarista tem que ser um caminho de gratuidade e de voltar-se para Deus. Somos objetos da gratuidade de Deus, mas se nós nos esquecemos disso, vamos nos distanciando da gratuidade de Deus. Nunca se esqueçam da própria origem e da gratuidade do serviço prestado a Deus”, diz o Papa.
– Jesus pagou a festa com a sua humilhação até a morte e morte de Cruz. E esta é a grande gratuidade. Hoje, “a Igreja nos pede para não termos medo da gratuidade de Deus. Devemos abrir o coração, fazer de nossa parte tudo o que podemos”. Cabe-nos servir com alegria numa entrega gratuita.

– Em seu discurso, o Papa destaca também o trinômio daquele que foi chamado por Deus: “Caminho, serviço e gratuidade”. O primeiro passo é navegar em si mesmo. “O percurso dentro de si, o percurso do discípulo que procura o Senhor todos os dias na oração e na meditação. O discípulo deve fazer este percurso, porque se não buscar sempre a Deus, o Evangelho que levará aos outros, será um Evangelho frágil, aguado e sem força”. – A segunda palavra: ‘Servir’. Um discípulo que não serve gratuitamente aos outros, não é cristão. “Se um discípulo não caminha para servir não serve para caminhar. Se a sua vida não é para o serviço, não serve para viver como cristão”. Jesus nos convida a servir o outro: “o serviço a Jesus nos doentes, nos encarcerados, nos famintos, nos despidos, etc. O serviço a Cristo nos outros”. O caminho do serviço é gratuito. “Pois, gratuitamente vocês receberam e gratuitamente devem dar”, disse o Papa.

– As palavras do santo Padre vêm ao encontro do Evangelho de hoje, nesta missa dos santos óleos: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me, para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor.” (Lu 4,16-21).

– Iluminado pelo Espírito Santo de Deus, aproveito a oportunidade neste dia, para fazer um clamor a todos, aqui reunidos e os que nos acompanham pelos meios de comunicação social, sobre a situação da Diocese de Formosa em Goiás. Há muitas informações desencontradas. Está nas mãos da justiça, da CNBB e da Nunciatura Apostólica. Não cabe a nós julgar, mas sim rezar, para que tudo se esclareça com justiça à luz do Evangelho.

– Inspirados na profecia de Isaías, iluminados por Jesus e em comunhão com o Papa Francisco clamamos a Deus, para que suscite novas e santas vocações no seio de nossa Igreja. Que as lideranças leigas, religiosas, os recém – ordenados, os que irão se ordenar e os mais experientes conservem o brilho nos olhos e confirmem em sua caminhada de fé a alegria do serviço e da gratuidade. Assim seja! Amém!
São Mateus! Rogai por nós!

DOM PAULO BOSI DAL’BÓ
BISPO DIOCESANO

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