12 de julho de 2017

Homilia de Dom Paulo na Missa dos Santos Óleos


MISSA DO SANTO CRISMA E RENOVAÇÃO DAS PROMESSAS SACERDOTAIS

Bênção dos Santos Óleos – Montanhas – 11/04/17

1) Excelentíssimo Dom Aldo, amados filhos Presbíteros, Religiosos e Religiosas, Seminaristas, autoridades constituídas e todo povo santo de Deus.

– O mesmo Espírito que gerou o Novo em Maria (Jesus), que gerou o novo na comunidade dos Apóstolos em Pentecostes, é o mesmo Espírito, que gera o novo em cada um de nós. O Espírito Santo ninguém vê, mas vemos a sua ação no mundo através de nossas ações.

– No espírito do Ano Mariano, celebramos a Missa de bênção dos santos óleos e também a renovação das promessas sacerdotais. 300 anos da aparição de Nossa Senhora Aparecida, rainha e padroeira do Brasil e também padroeira desta paróquia de Montanhas, que nos acolhe e celebra jubilosamente seus 60 anos de instalação e caminhada de fé, neste ano de 2017. Maria, mãe da Igreja

– Padre Zezinho em sua canção sobre Maria diz o seguinte: “Não és deusa, não és mais que Deus, mas depois de Jesus, o Senhor, neste mundo ninguém foi maior”. Depois de Jesus, Maria é quem ocupa o lugar mais elevado e ao mesmo tempo mais próximo de nós, onde temos a graça de honrá-la e intitulá-la como Maria, mãe de Jesus e nossa mãe. “Maria sempre foi uma porta aberta ao conhecimento de Jesus; é o modelo de seguimento de Cristo, dos valores humanos que marcam a identidade religiosa do povo” (Cardeal Damasceno). Maria marca também a identidade do presbítero. Por isso, mesmo sabendo que o presbítero age “in persona Christi”, gostaria de mencionar a importância de Maria no exercício de seu ministério.

2) MARIA E PRESBÍTERO, UMA ALIANÇA DE AMOR:

– Maria e presbítero se entrelaçam no seu jeito de amar e de acolher o chamado de Deus. O sim de Maria, “Eis aqui a serva do Senhorfaça-se em mim segundo a tua palavra”(Lc 1,38), também é o sim do presbítero ao chamado que o Senhor lhe fez, quando jovem e ainda hoje lhe faz: Eis aqui o servo do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.

– Acolhendo o chamado de Deus através de seu mensageiro (Anjo Gabriel), o presbítero também é convidado a gerar. Estar grávido. E no período da gestação já se coloca a caminho, inspirado nos passos de Maria, que sai apressadamente para o encontro solidário a sua prima Isabel. Um encontro agraciado de fecundidade que provoca alegria, encanto e não frustração ou medo.

– O período de saída e gestação, nove meses, pode ser associado ao período em que o jovem deixa a casa, a família, o emprego, o mundo, etc., para se encontrar consigo mesmo, com Deus e com o outro. Prepara-se para gerar o novo, cheio de surpresas, às vezes um universo desconhecido. Em outras palavras, são aproximadamente nove anos entre a preparação através dos encontros vocacionais, Propedêutico, Filosofia, Teologia e o estágio antes da Ordenação Diaconal e Presbiteral. É de fato um período de gestação. Uma gravidez pautada de cuidados, bem assistida e acompanhada, que possibilitará o nascimento de uma criança saudável. Ou seja, um bom presbítero.

– Para que a criança nasça saudável, cresça em graça, sabedoria e idade, são necessários  cumprir os preceitos do Senhor, fazer a experiência da casa, da família (independente da consanguinidade), entrar, estar e amar o Templo, como se ama a sua própria casa e se estende em toda a Igreja como a casa maior. A família de Nazaré fez isso. No processo de formação faz-se necessário, cortar o cordão umbilical, porém sem matar suas raízes.

A) O NASCIMENTO NEM SEMPRE ACONTECE DO JEITO QUE A GENTE QUER: O presbítero na relação com Maria não pode se frustrar, quando seus projetos ou iniciativas pastorais não derem certo ou não encontrarem um lugar adequado ou digno, para nascerem do jeito que ele quer. Lembre-se: “Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou e o colocou na manjedourapois não havia lugar para eles dentro da casa” (Lc 2,7). Jesus nasce pobre, num curral, colocado num “coxo”, filho de uma família humilde e pobre, para cuidar e amar a todos, mas principalmente os pobres e excluídos. O presbítero deve ter a consciência em perceber, que do lugar onde não se espera, pode nascer algo encantador. Fazer-se pequeno e humilde na arte de nascer, amar e servir.

B) A EXPERIÊNCIA DOS MAIS EXPERIENTES FORMA OS NOVOS: Na pequenez de Maria, o jovem presbítero deve ter a humildade de se aproximar de Simeão, ou seja, dos mais experientes e permitir-se os toques necessários, para o amadurecimento humano e espiritual no exercício do seu ministério. Encarar estes toques como bênçãos, mesmo que, às vezes, possam trazer inquietações, dores e sofrimentos.Simeão os abençoou, e disse Maria,  mãe do  meninoEis que  este  menino vai ser causa de queda elevação de muitos em  Israel. Ele será  um sinal  de contradição.  Quanto você, uma espada  de  atravessar-lhe a alma” (Lc 2,34-35). Este toque de Simeão foi fundamental para o amadurecimento de Maria, enquanto mãe, mulher e missionária. Aprendeu a lidar com as podas, as perdas, o martírio de forma mais amadurecida. Hoje, corremos o risco de errar por não saber dar ou receber o toque na hora certa. Jovens presbíteros, quando sentirem-se cansados ou sozinhos, lembrem-se de que sempre por perto existe um Simeão.

C) A ENERGIA POSITIVA DOS NOVOS PRESBITEROS REENCANTAM OS MAIS EXPERIENTES. O “Presbítero Simeão” (mais experiente) é aquele que reconhece, que ninguém toma o lugar de ninguém. O novo presbítero chega para somar forças e não para ser concorrente. A energia positiva que brota da motivação e encanto do novo presbítero, deve levar o mais experiente a se reencantar, aprimorar suas forças, motivacionar o exercício do seu ministério. Espera-se que com a chegada do novo, o presbítero mais experiente não se acomode e nem diga o que o velho Simeão proclamou: “Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar o teu servo partir em paz”…(Lc 2,29). Não se trata de uma despedida ou acomodação, porque o novo chegou, trata-se do reconhecimento, que é mais um que chega e recebe de Deus o dom de comunicar a vida. O “presbítero Simeão” é aquele que toma o mais novo nos braços, abençoa-o, se faz próximo, louva ao Senhor por sua chegada e assume com responsabilidade, maturidade e capacidade de dar o toque na hora certa, àquele que chega. O presbítero em relação com Maria fica maravilhado com a dinâmica do encontro.

D) Outra virtude importante nessa relação; SILENCIAR PARA MELHOR SERVIR: Quando os pastores contaram o que o anjo lhes anunciara sobre o menino Jesus, Maria conservava todos os fatos em seu coração e meditava sobre eles, silenciosamente. Em função da dinâmica pastoral é quase impossível tirar tempo, para silenciar o coração. O presbítero também é homem do silêncio. Evangeliza e comunica a através da escuta. O ser humano geralmente é um ser falante. Quer falar o tempo todo e não tira tempo para ouvir, para silenciar… Tem receio de ouvir, pois estar aberto à dinâmica do ouvir, corre-se o risco de ouvir aquilo que deseja, mas também aquilo que não gostaria de ouvir. Saber ouvir, é silenciar-se e nem sempre o silêncio é algo confortável. Tira a pessoa da área de conforto. Meche com sentimentos ocultos. Sentimentos, às vezes, prazerosos, porém muitas vezes desconfortáveis. Quem aprende a ouvir e silenciar, aprende a comunicar a vida sem agredir. Em muitas situações na vida do presbítero o silencio é a melhor resposta. Faça a experiência do silêncio e saboreie o resultado. Não se esqueça de que o silêncio, também é um grande veículo de comunicação e evangelização.

E) Outro aspecto considerável na relação com Maria; RETIRAR-SE PARA SE FORTALECER, disse o anjo: “José levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito! Fica lá até que eu te avise! Porque Herodes vai procurar o menino, para matá-lo” (Mt 2,13).

– No corre – corre da vida, o presbítero deve saber a hora certa de se retirar. A fuga do Egito é necessária para o presbítero de hoje. Não fugir por medo ou insegurança, mas se preparar melhor, para enfrentar os Herodes do mundo moderno. A corrupção política, o desemprego, as drogas, a violência, o desrespeito ao ser humano e outros. Caminhar na contra- mão ou em ventos contrários, exige do presbítero e de cada um de nós um esforço contínuo de reconhecer, que se retirar para o deserto interior é necessário e produtivo no campo da preparação. Se não tomarmos cuidado, os Herodes dos tempos atuais matam Jesus e seu Evangelho, matam o presbítero e os que são evangelizados por ele. O presbítero precisa aprender a tirar tempo, para cuidar-se melhor.

F) PAIS ATENTOS E CUIDADOSOS COM OS FILHOS: Na figura de Maria acompanhada de José, o presbítero no papel de pai espiritual, deve estar sempre motivado para a festa da Páscoa. Estar com os filhos no Templo e na missão, porém com um olhar atento, para que eles não se percam. Quando isso acontecer, saber voltar atrás e aprender a procurar os filhos quando se perdem. Alegrar-se, quando os encontrarem mesmo sem saber os reais motivos, que os levaram a se perder. Maria e José não compreenderam o que Jesus lhes dissera, quando estava na casa de seu Pai. Lembrem-se: alguns filhos poderão estar no Templo entre os “doutores”, ouvindo-os e fazendo perguntas, assim como fez Jesus, mas outros poderão estar em universos desconhecidos e sofrendo amargamente com a ausência do pai. Por diversas vezes, o presbítero deve ser também pai dos pais. Muitos pais têm a sorte de Maria e José, ao encontrarem seus filhos sãos e salvos, porém muitos choram amargamente, por perderem seus filhos em caminhos sem volta. Querido presbítero, cuide dos filhos e filhas como verdadeiro pai. A missão do presbítero como pai é fazer-se próximo. Lembre-se: O verdadeiro pai não é simplesmente aquele que gera, mas sim, aquele que ama e cuida.

G) ALÉM DE PAI O PRESBÍTERO TAMBÉM É FILHO. Sendo filho, é convidado por sua Mãe Maria a fazer tudo o que Jesus disser. Renovar a cada dia sua aliança de amor com o Pai e levar os fiéis a fazerem o mesmo. Estabelecer com os irmãos e irmãs uma relação de amor (de casamento), de família, de confiança, de cuidado, cumplicidade e entrega. Somente quem ama, obedece. Amado filho presbítero, quando falta vinho, Maria vê a necessidade e intercede pelo seu povo. Mas também é obediente, dizendo: Fazei tudo o que Ele vos disser. Maria, presente em Caná, intercede em favor dos noivos e dos convidados à festa. Sem Maria, o vinho faltaria e não haveria nem festa e nem alegria. Sem Maria, não estaríamos aqui hoje, celebrando o Mistério Maior nesta missa de bênçãos dos santos óleos e renovação das promessas sacerdotais. Querido presbítero, seja obediente a Jesus, sem perder a sua relação filial com Maria. Procure estar atento, para que todos entrem na festa e não venha a faltar vinho (vida) aos convidados.

H) MARIA E PRESBÍTERO, UMA OFERTA DE AMOR. O presbítero na relação com Maria aprende a ofertar-se. Aos pés da cruz, Maria faz a grande oferta de amor, entregando seu Filho como graça e dom a toda humanidade. No Altar da cruz, o próprio Jesus se faz oferenda. Entrega-se por amor a humanidade, porque ama. No Altar da cruz, nos tornamos filhos amados no Filho Jesus, que ama até as últimas consequências. “Jesus, ao ver sua mãe e ao lado dela, o discípulo que ele amava, disse à mãe: Mulher, este é o teu filho. Depois disse ao discípulo: Esta é a tua mãe. Daquela hora em diante, o discípulo a acolheu consigo” (Jo 19,26-27). – Amado presbítero, lembra do toque precioso que Simeão fez a Maria? “Quanto a você, Maria, uma espada  de  atravessar-lhe a alma” (Lc 2,35). Além de ter sido agraciada pelo chamado, que Deus lhe fez, Maria contou com a presença e apoio de quem ama e se faz próximo. Aprendeu desde cedo a contemplar a beleza do chamado, mas também se preparar para a complexidade da missão. Os toques necessários, no tempo certo, fizeram com que Maria encarasse de pé, de forma amadurecida, sua missão de mãe, mulher e missionária. FOI DE PÉ, AOS PÉS DA CRUZ, na hora do maior sofrimento, que Maria fez a grande oferta de amor e acolheu a humanidade como sua filha. Assim, a Cruz como que uma Cátedra ou Altar serviu de apoio, para que o próprio Jesus expressasse as Palavras que legitimariam sua Mãe Maria, como Mãe de toda a humanidade. No exercício do seu ministério, unido a Jesus e a Mãe Maria, na dor ou na alegria, o presbítero é convidado a ofertar-se. Entregar-se por inteiro, porque ama.  Consciente da complexidade da missão, manter-se de pé, procurar fazer de sua vida e do seu ministério um Altar de amor e oferenda, sem perder o encanto e alegria de servir. Amado filho presbítero, além de Jesus, leve também Maria com todos os seus filhos e filhas para sua casa, para o seu coração, para sua vida e seu ministério. Acolhimento e doação são cântaros de amor.

I) COM MARIA TRANSFORMADOS PELO AMOR E POR AMOR. Se o presbítero mantém com Maria uma aliança de amor, ele também ama, se apaixona por Jesus e permite ser amado. Ama a Igreja mãe com todos seus filhos e filhas, ama o seu irmão presbítero, ama o seu ministério e tudo que faz, porque é transformado pelo amor e por amor. Foi escolhido e chamado por amor, para amar e servir.

– Da mesma forma que um homem e uma mulher não deixam de falar de sua paixão, quando estão apaixonados, um padre apaixonado por Jesus e pelo próximo, se deixa notar. “Quando um sacerdote é apaixonado por Jesus se nota, se reconhece, se vê esse amor, que é transmitido constantemente” (Papa Francisco).

– Amado filho presbítero, tire tempo para Jesus. Não basta simplesmente contemplar Jesus, é preciso que você se deixe contemplar por Ele. “Às vezes essa pode ser uma tarefa difícil, quando os presbíteros estão cansados, com problemas, de forma que podem até acabar cochilando diante do Sacrário. Mas nesses momentos, Deus olha para eles como um pai, que olha para o filho dormindo. Se você dorme diante do Santíssimo, não se preocupe, mas vá até o Tabernáculo, não deixe de ir. Ali vais encontrar o amor. O amor que transforma e contagia” (Papa Francisco).

– Querido presbítero, nesta missa dos santos óleos e renovação das promessas sacerdotais, procure se reencantar, voltar ao primeiro amor, renovar as forças e seguir firme no anúncio do Evangelho. Deus lhe escolheu, porque ama e hoje está convidando-lhe a abrir o livro do profeta Isaías, encontrar o programa da atividade de Jesus e também proclamar:

“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor.” (Lucas 4,16-21).

J) PAI HUMANO: PERFEITO OU IMPERFEITO?

– Queridos religiosos, religiosas, seminaristas, leigos e leigas, independente da função ou opção de vida   que cada um venha a escolher, não existem seres humanos perfeitos, por isso sejam humanos e ajudem os presbíteros a serem mais humanos. Quanto mais humanos formos, mais próximos da divindade estaremos. Sejam amigos e parceiros dos seus presbíteros e não inimigos. Quando errarem, sejam humanos no jeito de acolher, sejam misericordiosos, não julguem, caminhem juntos… Tomem consciência das obrigações, que têm para com eles. Procurem dedicar filial amor, como pais e pastores de vocês. Tomem parte nas suas preocupações, auxiliem-nos quanto lhes for possível, com orações e obras, para que eles melhor possam vencer as dificuldades e cumprir mais frutuosamente os seus deveres (Cf. PD 9). Cuidem, para que os presbíteros e o bispo não venham a adoecer psíquico, emocional, físico e espiritualmente. Sejam colaboradores, na arte de acolher e amar.

– Que Maria mãe de Jesus e nossa mãe, intitulada nesta paróquia, como Nossa Senhora Aparecida, fortaleça nossa aliança de amor e interceda a Deus por nós! Amém!

Dom Paulo Bosi Dal’Bó

Bispo Diocesano