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9 de fevereiro de 2018 | Categoria:

A violência da indiferença: refletindo a CF 2018


Cosme da Rocha - Seminarista e acadêmico do 3º período de Filosofia do Centro Universitário Católico de Vitória

A violência da indiferença: refletindo a CF 2018

Em um mundo tão conectado de informações e acesso as mais diferentes possibilidades, o ser humano é atraído, seduzido e hipnotizado pelo ter. O desejo de possuir obrigou-o a estar numa condição diferente daquela outrora chamado a viver: “e Deus viu que era bom” (Gn 1,25). A beleza da Criação indicava o fato de tudo ser bom, mas num cintilar da história, a aliança do bom se quebrou. O mal penetrou o coração de um casal e enraizou-se por gerações. “Acaso sou guarda do meu irmão” (Gn 4,9). Tal alocução causou perturbações expressivas para toda a humanidade. O relacionamento dos irmãos encaminhou-se para rivalidade, ao invés da amabilidade. O homem foi indiferente ao seu semelhante. Caim esqueceu do “todo bom feito por Deus” e na sua mesquinhez quis se fazer Deus, não semelhante ao amor, mas ao poder. A autossuficiência faz o sangue de seu irmão ser sentido por Deus. Quando o homem se fecha ao mundo criado pela bondade, há exclusões. “Onde está teu irmão Abel?” Esta provocativa deverá impulsionar a cada cristão neste tempo quaresmal a ver nas práticas de Esmola, Jejum e Oração a situação do irmão, não simplesmente em dar a ele respostas momentâneas à realidade vivida, mas que possam ser gestos duradouros.

O ser humano é carente de esmolas, jejuns e orações. Ao longo de toda a vida ele precisa ser instigado a testemunhar com exemplos aquilo dito pelo Ungido de Jesus: amar! Tal prerrogativa incomoda a cultura da indiferença, pois obriga a cada indivíduo a sair da sua condição cômoda e sentir “na pele” as tristezas nem sempre mostradas com exatidão por alguns canais de comunicação. Quando Jesus dizia acerca da unidade, do amor, da fraternidade, ele mostrava da condição a que cada um é chamado a ser: “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8). Se o homem foi arbitrário com o projeto salvífico oferecido por Deus, tal permitiu no novo Adão a resposta para com a indiferença humana. O homem foi violento, mas na bondade divina, é possível recorrer a Deus: “Abba, Pai” (Gl 4,6). Logo, não há mais diferenças, todos são filhos, todos são herdeiros da vontade de Deus (Cf. Gl 4,7). O maior tesouro do ser humano é aquele contido em teu coração (Cf. Mt 6,21). Neste será possível dilatar a bondade e assim levar até aqueles mais carentes a misericórdia esquecida por muitos aos mais pequeninos do mundo.

A nossa prática nesta Quaresma nos permita viver o “despojamento do homem velho” para transformar as relações em “novas oportunidades de amar”. Ao ver a igualdade na obra criada pelo Pai reconheçamos nossa fraternidade enquanto irmãos que conduzidos durante a caminhada terrena, um dia poderemos contemplar da Páscoa particular a todos. Somos todos irmãos!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Bíblia Sagrada, tradução da CNBB, 7ª ed., 2008. (comentários bíblicos de Pe. Carlos Alberto Contieri);
Bíblia Sagrada, edição pastoral, PAULUS, 45ª ed., 2002;
CNBB. Conferência Nacional dos Bispos do Brasil/ Campanha da Fraternidade 2018: Texto-Base. Brasília, Edições CNBB. 2017