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XXIX DIA Mundial do Enfermo – O testemunho da fraternidade no cuidado com os enfermos


Autor: Magno Nogueira Pereira

Neste dia 11 de fevereiro de 2021, dia de Nossa Senhora de Lourdes, a Igreja celebra o XXIX Dia Mundial do Enfermo. Com essa celebração, a intenção da Igreja jamais é de fazer apologia à dor e ao sofrimento da pessoa humana. Não! Uma mãe que sente pelos filhos o genuíno amor visceral, jamais se engrandecerá com o sofrimento destes. Da mesma forma, a Igreja sente desde as entranhas sincera compaixão por todas as pessoas que se encontram em estado de vulnerabilidade. E este gesto caritativo da Igreja está sob olhar de Maria Santíssima, a Mãe de misericórdia, que a nenhum dos filhos de Deus desampara e despreza.

Olhando para “Jesus Cristo, que é o rosto da misericórdia do Pai”1, a Igreja sente-se impelida a irradiar no mundo o clarão da luz da compaixão de Deus que se comove ao ouvir o clamor dos homens e mulheres de todos os tempos (Cf. Ex 3,7). Como propagadora da graça de Deus manifestada em Jesus, a Igreja Católica entende que o cuidado com os que se encontram em estado de fragilidade não é uma ideologia como muitos que para se esquivarem de seus compromissos na responsabilidade com o outro vêm dizendo, nem tão pouco é uma opinião partidária, mas é sumamente compromisso com o Evangelho de Jesus, o misericordioso de Nazaré. Por isso, neste dia, cabe-nos dirigir uma palavra de alento e amor a cada pessoa que se encontra acometida por alguma enfermidade e junto a estas palavras também dedicamos nossas orações e reiteramos nosso compromisso de lutarmos para que haja mais e melhores condições para os cuidados da saúde de todos, sobretudo dos mais pobres e necessitados. Também dedicamos nossas orações a todas as pessoas de boa vontade que se dedicam ao cuidado dos enfermos, sejam elas em caráter domiciliar ou nos ambientes clínico-hospitalar.

O Papa Francisco dedicou o seguinte tema par o XXIX Dia Mundial do Enfermo celebrado neste ano de 2021: Um só é o vosso Mestre e vós sois todos irmãos (Mt 23, 8). A relação de confiança, na base do cuidado dos doentes. No trecho do texto evangélico (Mt 23, 1-12), Jesus faz uma profunda crítica à hipocrisia de todos quantos dizem muito, mas nada fazem para aliviar a dor de quem traz nos ombros um fardo pesado. Para Francisco,

Quando a fé fica reduzida a exercícios verbais estéreis, sem se envolver na história e nas necessidades do outro, então falha a coerência entre o credo professado e a vida real. O risco é grave; Jesus, para acautelar do perigo de derrapagem na idolatria de si mesmo, usa expressões fortes e afirma: “Um só é o vosso Mestre e vós sois todos irmãos”. Esta crítica feita por Jesus àqueles que “dizem e não fazem” é sempre salutar para todos, pois ninguém está imune do mal da hipocrisia, um mal muito grave, cujo efeito é impedir-nos de desabrochar como filhos do único Pai, chamados a viver uma fraternidade universal2.

Assim como para Jesus é inadmissível o comportamento hipócrita e acomodado dos que enriquecem os discursos com belas eloquências, mas tem uma prática miserável e desprovida de amor, também para a Igreja de Cristo é inconcebível que os cristãos se eximam do cuidado com os que mais necessitam. Para a Igreja, a prática dos cristãos deve ser como as de Jesus: ir ao encontro, entrar na casa, conhecer a realidade dos que sofrem, para assim como Ele fez, estender a mão e ajudar o enfermo a se reerguer. Foi por estes gestos que a sogra de Pedro sentiu a força que vem de Deus (Cf. Mc 1, 30-32). Diante dessas circunstâncias, cumprem papel de fundamental importância os ministros ordenados que vão ao encontro dos moribundos e lhes garantem o alívio que só é possível pelos Sacramentos da Igreja. Também os fiéis leigos nas diversas pastorais voltadas diretamente à saúde e bem estar das pessoas, suas visitas com a oração, um abraço ou uma palavra amiga sempre manifestam a ternura da Igreja que não se mantem indiferente quando um dos membros do Corpo Místico de Cristo sofre.

Nesses tempos em que estamos a enfrentar os mais diversos níveis de dor e sofrimentos causados pela pandemia do Novo Coronavírus, a Igreja não cessa de agradecer aos profissionais da área da saúde que nos diversos espaços das unidades hospitalares manifestam a ternura e compaixão de Jesus. Tal como Jesus frente àquele homem acometido pela enfermidade da lepra que não hesitou em lhe estender a mão e curá-lo (Cf. Lc 5,12-13), assim também estão os profissionais da saúde frente a estes irmãos e irmãs acometidos pela Covid-19, estendem a mão, o coração, enfim, agem com compaixão. Vós, caros irmãos e irmãs, dão com este gesto testemunho da fraternidade que supera as práticas do indiferentismo tão frequentes em nossos tempos. Somente a fraternidade pode curar o mal do egoísmo narcísico que impede o ser humano de enxergar as necessidades do outro que está a sua frente. Por isso, permaneçam firmes nesse compromisso com o cuidado com o outro que se descortina frente a vós, vale a pena lutar com amor em favor da vida humana, afinal, ela é o dom mais precioso de toda obra da criação.

Por fim, dirijo-me diretamente aos enfermos mais uma vez: diante da dor e do sofrimento que por vezes assolam vossos dias, não desanimem, jamais. Recordai-vos que Cristo que também sofreu em sua carne as dores da humanidade, não se esquece de nenhum daqueles que o Pai o confiou. Esforcem-se para transformar os possíveis múrmuros em preces, as lágrimas de dor em rios de esperanças, os momentos de solidão em momentos de um deserto fecundo, propício para o encontro com o Senhor. Vós, com vossas lutas diárias para continuarem a viver a cada dia, são para todos nós testemunho de coragem e temor ao Deus Criador. A Igreja se ocupa com zelo e ternura com cada um de vós, pois acredita no valor da vida e defende que a dignidade da pessoa humana permanece intacta independente da qualidade da sua saúde física.

E para concluir, roguemos à Virgem de Lourdes, Maria Santíssima, Mãe do Senhor Crucificado, para que junto de Seu Filho ressuscitado na glória de Deus Pai, interceda por todos os enfermos, para que em suas dores sejam consolados, nas tristezas sejam reanimados e em todos os momentos sejam abençoados e guarnecidos da força da graça de Deus.

1 Cf. FRANCISCO, Papa. Bula Misericordiae Vultus – O Rosto da Misericórdia: São Paulo: Paulinas, 2015, n.1.

2 FRANCISCO. MENSAGEM DE SUA SANTIDADE PAPA FRANCISCO PARA O XXIX DIA MUNDIAL DO DOENTE. 2021. Disponível em: http://www.vatican.va/content/francesco/pt/messages/sick/documents/papa-francesco_20201220_giornata-malato.html. Acesso em: 09 Jan. 2021.

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