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Coração de Jesus: Expressão do amor divino


Autor: Rafael Charile Capucho - 1° ano de Filosofia - Etapa do discipulado

O mês de junho contém algumas festas litúrgicas solenes, este ano, Santíssima Trindade, Corpus Christi, Sagrado Coração de Jesus, Natividade de São João batista e São Pedro e São Paulo Apóstolos. Dentre todas essas, a solenidade do Sagrado Coração de Jesus ganha uma especial atenção durante todo mês. A devoção ao Sagrado Coração de Nosso Senhor pode ser vista já na última ceia, em que o discípulo amado, reclina a sua cabeça sobre o peito de Jesus, escutando as batidas do seu coração e encontrando consolo pela angústia da despedida (Jo 13, 23); também na cruz, quando o soldado lhe abre o lado com a lança e jorram sangue e água (Jo 19, 34), como a graça dos sacramentos que flui do coração ferido do Redentor, na qual os filhos da Igreja bebem a vida sobrenatural  (Haurietis Aquas, n. 39).

A primeira vez em que esta festa foi celebrada foi em 20 de outubro de 1672, pelo sacerdote francês João Eudes. Alguns místicos da Idade Média também cultivaram a devoção, mas foi através das revelações feitas pelo Senhor à religiosa da Visitação, Margarida Maria Alacoque (1647-1690), que a devoção pôde ser mais difundida. Em 27 de dezembro de 1673, Jesus apareceu-lhe pela primeira vez, revelando o seu amor pelos homens e pedindo a ajuda de Santa Margarida para difundi-lo. Depois, apareceu-lhe mais duas vezes: na primeira, viu o coração de Jesus em um trono de chamas, mais fulgurante que o sol, circundado por uma coroa de espinhos; na segunda, o sagrado coração apareceu glorioso, irradiando chamas por todos os lados, como uma fornalha. Jesus lhe pediu para “comungar todas as primeiras sextas-feiras do mês”, durante nove meses consecutivos. Em uma quarta visão, em 1675, o Senhor pediu à santa que na primeira sexta-feira após a oitava de Corpus Christi, fosse dedicada uma festa especial para honrar o Seu coração, em reparação das ofensas recebidas por Ele. Em 23 de agosto de 1856, o papa Pio IX estendeu a toda a Igreja a festa do coração sacratíssimo de Jesus, e prescreveu a sua celebração litúrgica.

O centro dessa devoção está no amor infinito de Deus por nós, que nos amou com um coração humano. Quando o Cristo, Verbo eterno, se encarnou, assumiu consigo a condição humana por inteiro, menos o pecado. As dores, os sentimentos, as angústias, raiva, alegrias e tristezas fizeram parte da vida de Jesus. Quando Ele olha para o jovem rico com amor (Mc 10, 21); quando se irrita com os vendedores do templo (Jo 2, 15-17); quando agonizou no Getsêmani (Mt 26, 36-38). Nesses e muitos outros momentos, vemos a sua humanidade aflorada. A humanidade de Cristo não é nenhum pouco menor ou diferente à nossa, com a inteligência, afetos e paixões como os nossos, como ensina a Igreja. Sendo perfeitamente Deus e homem, o coração de Cristo, unido à sua divindade, palpitou de amor por nós com o mesmo amor infinito que o Filho tem com o Pai e com o Espírito Santo (Haurietis Aquas, n. 21-23). Tudo isso para nos redimir, por meio da natureza mortal, oferecendo-se inteiramente na cruz por amor a nós.

Diante disso, saber que Deus tomou sobre si a nossa realidade humana para nos salvar e que se Ele se entregou totalmente por amor, é para nós motivo de alegria e consolo. Em meio às dificuldades da vida, encontramos no amor de Deus o nosso refúgio e o nosso descanso. Após Jesus bendizer ao Pai por ocultar as coisas dos sábios e doutores e revelar aos pequeninos, acolhe a todos os que estão cansados sob o peso de seus fardos e promete descanso (Mt 11, 25-30). Quando Jesus promete descanso e um fardo leve, não significa que a vida de quem a Ele se confia será livre de cruzes e dificuldades, mas sim, que terá sempre a certeza de um Deus que muito o ama, que carregou também uma cruz, mas por amor a nós, um coração ardente que pulsava de amor por nós enquanto tomava o lenho consigo. Ele sabe das nossas dores, e muito mais do que isso, passou por elas, sabe o que são na pele e se compadeceu do homem para dar fim ao jugo do pecado e da morte.

Ao aparecer a Santa Margarida, Jesus apresenta o seu Divino Coração rodeado por uma coroa de espinhos e diz: “Eis este coração que tanto tem amado os homens. Não recebo da maior parte senão ingratidões, desprezos, ultrajes, sacrilégios, indiferenças (…)”. Essa devoção também chama a nossa atenção para a nossa indiferença ao amor de Deus, que tanto fez e faz por nós, mas é ignorado. Peçamos ao Sacratíssimo Coração de Nosso Senhor a graça de um amor sincero a Deus, em profunda gratidão por tudo o que recebemos de Sua Divina Misericórdia, mesmo quando não merecemos e busquemos cada vez mais um coração semelhante ao Dele.

REFERÊNCIAS:

ALETEIA. Devoção ao Sagrado Coração de Jesus: como tudo começou. 2015. Disponível em: https://pt.aleteia.org/2015/06/11/devocao-ao-sagrado-coracao-de-jesus-como-tudo-comecou/. Acesso em 13 Jun. 2023.

BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova edição, revista e ampliada. 1 ed. São Paulo: Paulus, 2002.

PIO XII, Papa. Carta Encíclica Haurietis Aquas (Sobre o culto do Sagrado Coração de Jesus). Roma: Libreria Editrice Vaticana, 1956.

VATICAN NEWS. Sagrado Coração de Jesus. Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/feriados-liturgicos/sagrado-coracao-de-jesus.html. Acesso em 13 Jun. 2023.