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Pentecostes: a linguagem da unidade

Todos desejam viver um bem comum, mas por muitas situações adversas não correspondem ao sonhado. São tantas visões decorrentes que o diferente se torna cada vez mais inválido. Se muitas reflexões existem e tudo é válido e permitido, não há mais uma realidade palpável a se fundamentar a trajetória humana. De fato, afirma Brüschke (2018) que “a verdade não é relativa, mas relacional – ou seja, ela é compreendida na relação dialógica.” Sem diálogo, não há comunhão, apenas divisões. Já diz o Papa Francisco (2018) para o 52º dia mundial das Comunicações Sociais: “No projeto de Deus, a comunicação humana é uma modalidade essencial para viver a comunhão.”

O acontecimento do Pentecostes impulsionou aos seus participantes a uma inimaginável experiência deste Pai. O Paráclito vem e provoca uma renovação indescritível para razões humanas. Mas esta presença não fora para um momento localizado apenas, mas para todos. A vinda do Espírito Santo gerou um conhecimento diferente. Um saber compreendido na perspectiva de um único falar. Já não há mais confusão! O Advogado prometido por Cristo (Cf. Jo 14,16) emana entendimento. Perceba: pela insensatez humana em amar criou-se uma “chaga” de divisão e agora, tal dor foi definitivamente curada. Assim, a manifestação do Espírito Santo promoveu a unidade na diversidade de carismas. “Mas tudo é realizado pelo mesmo e único Espírito, repartindo a cada um como ele quer” (1 Cor 12, 11).

A força santificadora da graça divina vem ao encontro daqueles que unidos em suas diferenças clamam ao Pai por uma verdadeira comunhão, tal proveniente apenas da fidelidade no seguimento ao mandato missionário de Jesus. Sendo fiel à ação do Espírito, cada um entenderá que seu dom criará uma única certeza: a linguagem do amor. Assim, mediante a promessa de Jesus, “e eu pedirei ao Pai que vos envie outro Valedor que esteja convosco sempre: o Espírito da verdade” (Jo 14, 16-17). Portando, com a certeza unificadora revelada pelo Defensor, não há mais um mundo de relativizações, mas o da presença amorosa do Ressuscitado e assim, “o missionário está convencido de que existe já, nas pessoas e nos povos, pela ação do Espírito, uma ânsia de conhecer a verdade acerca de Deus, do homem, do caminho que conduz à libertação do pecado e da morte”. (JOÃO PAULO II, 1990) O Intercessor gerará assim a unidade dita por Cristo e logo todos serão apenas um (Cf. Jo 17,21).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BÍBLIA DO PEREGRINO. Edição de estudo. Luís Alonso Schökel. Paulus, 2011

BRÜSCHKE, Klaus. Que pluralismo para o bem comum? Revista Cidade Nova, Ano LX, nº5, Maio 2018, p.9

FRANCISCO. A verdade vos tornará livres” (Jo 8, 32). Vaticano, 2018. Disponível de: <https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/messages/communications/documents/papa-francesco_20180124_messaggio-comunicazioni-sociali.html> Acesso em 18 Mai 2018 às 15h47

JOÃO PAULO II. Redemptoris missio. Vaticano.7 de dezembro de 1990, 45: AAS 83.

O NECESSÁRIO ESFORÇO PELA UNIDADE

Nesta semana que antecede a festa do grande Pentecostes, celebramos a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Não há tempo mais propício para tal celebração: Pentecostes foi a manifestação da Igreja a todos os povos, quando ela, imbuída da força do Espírito Santo, inicia a difusão do Evangelho (Cf. At 2,1-11). A Igreja manifesta naquela ocasião concretizava a união de todos os povos que, separados em Babel pela confusão das línguas (cf. Gn 11,1-9), se unem novamente na compreensão mútua de todos pela linguagem única da caridade, na pregação do Evangelho.

Professamos no credo niceno-constantinopolitano: “Cremos na Igreja una, santa, católica e apostólica”. São João ao relatar a ironia que se tornou profecia do sumo-sacerdote Caifás “que Jesus morreria pela nação”, o evangelista acrescenta uma explicação, dando-nos o verdadeiro sentido do sacrifício de Jesus: “e não só pela nação, mas também para congregar na unidade todos os filhos de Deus dispersos” (Jo 11,51-52).

Durante esta semana, o trecho do Evangelho que nos iluminou, na liturgia da Palavra, é a Oração Sacerdotal de Jesus (Jo 17), por meio da qual Jesus roga insistentemente ao Pai por esta unidade: que aquela mesma unidade que é a Trindade Santa, que esta seja a dos filhos e filhas de Deus –“paraque todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti” –; eque nós, os filhos e filhas de Deus unidos, também sejamosintroduzidos dentro do Seio da unidade perfeita da Trindade: “Que eles estejam em nós” (Jo 17,21)

Inspirados por estes textos do Evangelho desta semana, vemos o quanto é importante o vínculo da unidade. Mais do que uma pretensão humana, esta unidade faz parte do desígnio de Deus, isto é, do querer de Deus, para a nossa salvação. O Concílio Vaticano II define a Igreja como “sacramento da união íntima com Deus e da unidade de todo gênero humano” (Lumen Gentium 1). O Senhor Jesus inclusive condiciona a credibilidade do anúncio do Evangelho a esta unidade: “a fim de que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17,21).

Dentre as imagens da Igreja, a do Corpo de Cristo é a que melhor explicita esta sua dimensão sacramental, pois pela união emCristo em seu Corpo se realiza a união da humanidade entre si, congregando-se nele pessoas “de todas as nações, tribos, povos e línguas” (Ap 7,9).  E nesta humanidade unida entre si e no Seio da Trindade é o próprio Cristo, Deus feito homem, que se faz presente: “Quem vos recebe, a mim recebe” (Mt 10,40).

Esforçar-se pela unidade e pela comunhão é um dever de todo o cristão. Frente ao mundo repleto de divisões e discórdias, deveríamos ser, os cristãos, como uma luz do qual se irradia o pleno sentido do Evangelho: a unidade resultante da reconciliação de todos entre si e com Deus. Porém, quanto mais destacamos ou difundimos as divisões entre nós, mas vamos tornando ineficazes as nossas pregações e vazia a nossa evangelização.

A Igreja deve, portanto, orar e trabalhar sempre para reforçar e aperfeiçoar a unidade que Cristo tanto deseja e que o pecado humano feriu, conscientes de que a reconciliação numa só e única Igreja “ultrapassa as forças e capacidades humanas. Por isso depositamos a nossa confiança na oração de Cristo” (UR24).Na diversidade dos carismas que o Espírito Santo distribui a nós para o bem e utilidade de todos (cf. 1Cor 12,7), temos uma única missão: Anunciar o Evangelho e tornar Jesus e o amor do Pai conhecidos (cf.Jo 17,26). Para tal, que cada um se esforce para cumprir bem o seu chamado, e não deixemos de pedir ao Pai, unindo a nossa voz à prece de Jesus: “que todos sejam um” (Jo17,21).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BÍBLIA SAGRADA. Bíblia de Jerusalém. 1.ed. São Paulo: Paulus, 2002.

CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II (1962-1965).Lumen Gentium. In:______.Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965). 1. Ed. São Paulo: Paulus, 1997. P. 101-197. (Documentos da Igreja)

______. Unitatis Redintegratio. In:______. Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965). 1. Ed. São Paulo: Paulus, 1997. P. 215-240. (Documentos da Igreja)

Hospitalidade na Família: um Dom de Amor

A hospitalidade é uma característica pessoal que expressa concretamente uma compreensão amadurecida do Evangelho. Quando a hospitalidade, expressada no contexto familiar, a família torna-se um berço de acolhida, doação fraterna e de cuidado recíproco. Desta forma, a casa torna-se o local da partilha, onde todos colocam em comum suas riquezas e pobrezas, aumentando assim o sentimento de pertença ao círculo familiar.

A hospitalidade é um aspecto da dimensão humana que impulsiona para uma convivência aberta ao próximo. Ser aberto é assumir uma postura de saída de si para ir ao encontro do outro em suas alegrias, possibilidades e conquistas, mas sobretudo nas tristezas, misérias e carências. Assumir esta postura é colocar-se com total disponibilidade e gratuidade para com todos que se aproximam, necessitados de atenção, amparo e cuidado. A hospitalidade é uma virtude. É possível adquiri-la nas vivências cotidianas, a saber, nos gestos de carinho, na saudação cordial de bom dia no encontro pela manhã, na atitude afetuosa de despedida no fim do dia, no cultivo de relações solidárias em família, entre outros.

Jesus ensinou com gestos concretos como agir no trato com as pessoas, para que estas se sintam dignificadas como pessoa humana e desejosas de permanecerem no seio da família. Ao ser perguntado qual o maior dos mandamentos, Jesus respondeu: “Ame ao Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda tua alma e com todo o teu entendimento. Esse é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: Ame o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22, 37-40). Jesus coloca o amor como viés fundamental para uma vivência autêntica do Evangelho, seja no encontro pessoal com Deus, como no encontro comunitário. Aqui, o outro é a expressão daquilo que sou, pois, o outro é para mim uma oportunidade de amar.

A família é um espaço do crescimento e desenvolvimento afetivo. É cultivando círculos de relacionamentos fraternos no ambiente familiar que os laços familiares se formam e dão sustentação para uma vida em comunhão. Para tanto, é necessário ressaltar o papel a ser desempenhado por cada um, para que a família corresponda ao mandamento do amor ensinado por Jesus.  A mãe é o berço, na qual todos buscam o acolhimento em momentos de desolação. Colo quando a tristeza se faz presente por alguma decepção, ou mesmo por necessidade de abraço e afeto. Ela também é acolhedora, pois recebe a todos com generosidade encantadora e alegria maternal. O pai é protetor e acolhedor. Quando algum perigo ameaça tirar a paz ele protege cuidadosamente os seus. O patriarca é atencioso, quer dizer, escuta o desabafo, as conquistas e os desafios de cada um. Ele é um parceiro alegre e afetuoso. De poucas palavras em muitos casos, mas sempre com um coração humano e terno, impossível mensurar. Os filhos são a alegria dos pais. Na descontração buscam interagir com todos ao ponto de nada os conter. A infância é o momento das boas experiências, sendo tais essenciais para formação da personalidade da criança. Por isso não pode faltar, carinho, afeto, amor e paciência com os pequenos. Ao analisar a família em um contexto mais amplo o documento Amores Laetitia: sobre o amor na família do Papa Francisco, declara:

“O Núcleo familiar […] não deve isolar-se da família alargada, onde estão os pais, tios, os primos e até os vizinhos. Nesta família ampla, pode haver pessoas necessitadas de ajuda, ou pelo menos de companhia e gestos de carinho, ou haver grandes sofrimentos que precisam de conforto.” (2016 p.116)

Nas palavras do Papa, percebe-se uma preocupação com o ciclo de relacionamentos dentro do âmbito da família, afim de gerar redes de hospitalidade e cuidado mútuo entre os parentes.

A casa é o local do encontro fraterno, onde cada pessoa pode e deve colocar em comum, tudo aquilo que produz em sua vida, desde suas mais sofridas experiências nas labutas diárias, bem como suas vitórias, seja na profissão, na dimensão espiritual, no lazer ou em qualquer outra atividade que venha a realizar.  O lar é o espaço propício para viver plenamente a intimidade. É neste ambiente que a pessoa é capaz de despir-se plenamente das posturas rígidas e exigentes ditas pela cultura do mundo líquido moderno. Desta forma, o ambiente familiar é também um espaço de humanização, uma vez que a liberdade e a intimidade com o outro possibilita o contato direto com as realidades mais profundas de cada pessoa. É nesta relação íntima e aberta que os laços familiares se fortalecem e contagiam a todos.

A hospitalidade, quando vivenciada com total doação na família, deve abrir-se também para o convívio com a comunidade. Sendo assim, não pode faltar num lar hospitaleiro o acolhimento fraterno e solidário dos irmãos e irmãs que necessitam de caridade e amor. O filósofo Leonardo Boff, ao abordar o tema da acolhida, em sua obra “Virtudes para um outro Mundo Possível”, diz que:

“A acolhida não deve ser vivida como uma condenação por que não temos saída. Devemos viver a acolhida jovialmente como quem vê no outro um próximo, um companheiro de caminhada, um irmão e uma irmã, membros da grande família humana, […] reunida na mesma Casa Comum”. (2005, p.167)

Desta forma, a hospitalidade deve ser uma característica da família cristã. Tendo em vista que viver hospitaleiramente requer abertura, escuta, cuidado, partilha. Estas são virtudes que Jesus demonstrava quando em contato com as pessoas que a ele acorriam. Ele convida a cada um, a viver a acolhida fraterna, como um dom de amor e afirma, “Todas as vezes que fizerem isso a um dos menores dos meus irmãos, foi a mim que o fizeram” (Mt 25,40).

Referências Bibliográficas:

BÍBLIA. N. T. João. Bíblia Sagrada. Reed. Versão de José Luiz Gonzaga do Prado. São Paulo. Pastoral. 1990. V. 41, p.1210,1214.

FRANCISCO Papa. A vida na família em sentido amplo. Amores Laetitia: sobre o amor na família. 1ª ed. São Paulo. Paulus. 2016. p.116

BOFF Leonardo. Atitudes e comportamentos de hospitalidade: Acolher generosamente. Virtudes para um outro mundo possível, Vol. 1: Hospitalidade direitos e deveres de todos. 1ª ed. Petrópolis-RJ. Vozes. 2005. p.167.

Justiça Restaurativa: um modelo de Justiça com princípios humanizadores

Justiça Restaurativa: um modelo de Justiça com princípios humanizadores

Chegou em nossa Diocese o curso de Justiça Restaurativa. A dinâmica do curso é baseada na ESPERE (Escola de Perdão e Reconciliação). Já participaram pessoas que atuam nas Comunidades Eclesiais de Base, nas Pastorais e pessoas das diversas áreas do meio social, a saber: Assistentes Sociais, Conselheiros Tutelares, Psicólogos, Professores, Agentes Penitenciários e Servidores Públicos.

A Justiça Restaurativa é um modelo de justiça com princípios humanizadores. Em 1999 a ONU (Organização das Nações Unidas), reconheceu a sua importância como alternativa diferenciada à resolução de conflitos e meio possível à concórdia. Este importante órgão para a manutenção da paz no mundo, aprovou a resolução 1999/28, incentivando o desenvolvimento e a implementação da Justiça Restaurativa no Sistema de Justiça Criminal dos países, que fazem parte deste órgão. No que diz respeito a Justiça Criminal na Constituição Federal, percebe-se que as leis vigentes tem como pano de fundo uma tentativa de ressocialização dos apenados, mas na prática, ela não alcança sua finalidade.

O propósito da Justiça Restaurativa, é olhar agressor e vítima como partes de um conflito entre seres humanos e não como uma transgressão de regra ou de lei. Devido ao seu caráter restaurador, ela é chamada de “proposta de justiça humanizadora”.  Este modelo de justiça põe em evidência a pessoa humana; consequentemente, tanto o agressor quanto a vítima recebem atenção especial, isto é, são ouvidos e convidados a refletir sobre as causas e as consequências do conflito. Desta forma, quem causou o dano é levado a refletir sobre suas ações e a reparar os prejuízos causados. Por outro lado, a vítima tem a oportunidade de expressar sua dor.  SANTOS (2014, p.16) salienta o seguinte:

“A justiça restaurativa parte dos danos causados pela prática do delito, não do delito em si, na busca da restauração dos laços de relacionamento e confiabilidade social rompidos pela infração, mediante responsabilização dos indivíduos e reparação do mal provocado, seja material ou psicológico, assim como outras formas de sofrimento causado à vítima, sendo que ao longo desse processo a vítima ocupa uma posição especial, em relação àquela do sistema formal, qual seja, uma posição de destaque, em que suas necessidades, sentimentos e preocupações são levados em consideração, para que, ao final, todos envolvidos no conflito sintam-se satisfeitos, recuperando aquela relação anteriormente abalada pelo crime. Ao contrário da justiça penal tradicional, cuja preocupação central é a transgressão e a busca por culpados, o enfoque da justiça restaurativa reside nas consequências e danos advindos da prática infracional. Ao contrário do sistema de justiça baseado em leis, atribuição de culpa e punição, a justiça restaurativa tem como enfoque os danos, as necessidades e as obrigações.”

Na Escola de Perdão e Reconciliação (ESPERE), o participante é convidado a fazer o processo de perdão e reconciliação. Visto que, só é possível ajudar a outrem após passar pelo processo de restauração interior. A proposta do curso é levar o participante a entrar neste processo de cura interior através de atividades dentro do “grupo de confiança”.  Em seguida, trabalha-se diretamente com resolução de conflitos. Nas oficinas são ofertadas importantes ferramentas que auxiliam nesta atividade.

A Diocese de São Mateus tem capacitado seus agentes de pastorais, padres, seminaristas entre outros profissionais. Algumas turmas já foram formadas e os frutos deste trabalho, começam a aparecer. Os membros da Pastoral Carcerária que atuam no CDP (Centro de Detenção Provisório) e nos Presídios na Diocese, utilizam o conhecimento adquirido no curso em suas atividades pastorais. O reconhecimento do trabalho prestado junto ao CDP e Presídios é perceptível quanto ao retorno dos funcionários dos mesmos. Estes afirmam que os comportamentos dos internos melhoram consideravelmente após a visita dos agentes da pastoral.

Desta forma, compreende-se a Justiça Restaurativa como um modelo de justiça com princípios humanizadores. Este princípio faz a diferença na recuperação dos envolvidos. O texto da Campanha da Fraternidade 2018 (n.229 e 230, p.77) traz o seguinte:

“A Justiça Restaurativa é uma proposta concreta à situação de violência e desestruturação social à qual as pessoas privadas de liberdade são submetidas. Ela possibilita que a pessoa seja novamente acolhida e aceita em seu meio social, familiar e comunitário. Restaurar a pessoa significa também restaurar as suas relações, consigo, com seus familiares, com sua comunidade e principalmente com a família da vítima. A vivência dos princípios da justiça restaurativa é a base para o início de uma percepção das violências em si mesmo, pois a paz começa em cada um.”

Este novo modelo de justiça se destaca sobretudo por focar seu olhar no humano. Esta postura oferta grande possibilidade de recuperação e cura tanto da vítima quanto do ofensor. Ao analisarmos um determinado delito, notamos que existe um contexto que envolve toda a situação, e este nem sempre é considerado pela justiça tradicional. Em muitos casos analisados pela ótica da Justiça Restaurativa, chega-se a conclusão de que o próprio ofensor é no fundo uma vítima do sistema.

Isto posto, ressaltamos a importância deste projeto para a construção de uma sociedade mais justa e fraterna que corresponda ao mandato de Jesus, “[…] que todos seja um, como Tu, Pai, estás em mim e eu em ti. […] a fim de que o mundo acredite” (Jo 17,21). Só é possível construir um mundo voltado para a prática do amor quando olharmos para o irmão como um outro eu.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil / Campanha da Fraternidade 2018: Texto-Base. Brasília, Edições CNBB. 2017.
BÍBLIA. N. T. João. Bíblia Sagrada. Reed. Versão de José Luiz Gonzaga do Prado. São Paulo: Ed. Pastoral, 1990. V. 41, p. 1380.
SANTOS, Fernanda. Justiça restaurativa juvenil: justiça restaurativa e adolescente em conflito com a lei. Curitiba, 2014. Acesso de:< http://acervodigital.ufpr.br/bitstream/Handle/1884/37646/43.PDF?sequence=1> em 08 Fev. 2018

 

A violência da indiferença: refletindo a CF 2018

A violência da indiferença: refletindo a CF 2018

Em um mundo tão conectado de informações e acesso as mais diferentes possibilidades, o ser humano é atraído, seduzido e hipnotizado pelo ter. O desejo de possuir obrigou-o a estar numa condição diferente daquela outrora chamado a viver: “e Deus viu que era bom” (Gn 1,25). A beleza da Criação indicava o fato de tudo ser bom, mas num cintilar da história, a aliança do bom se quebrou. O mal penetrou o coração de um casal e enraizou-se por gerações. “Acaso sou guarda do meu irmão” (Gn 4,9). Tal alocução causou perturbações expressivas para toda a humanidade. O relacionamento dos irmãos encaminhou-se para rivalidade, ao invés da amabilidade. O homem foi indiferente ao seu semelhante. Caim esqueceu do “todo bom feito por Deus” e na sua mesquinhez quis se fazer Deus, não semelhante ao amor, mas ao poder. A autossuficiência faz o sangue de seu irmão ser sentido por Deus. Quando o homem se fecha ao mundo criado pela bondade, há exclusões. “Onde está teu irmão Abel?” Esta provocativa deverá impulsionar a cada cristão neste tempo quaresmal a ver nas práticas de Esmola, Jejum e Oração a situação do irmão, não simplesmente em dar a ele respostas momentâneas à realidade vivida, mas que possam ser gestos duradouros.

O ser humano é carente de esmolas, jejuns e orações. Ao longo de toda a vida ele precisa ser instigado a testemunhar com exemplos aquilo dito pelo Ungido de Jesus: amar! Tal prerrogativa incomoda a cultura da indiferença, pois obriga a cada indivíduo a sair da sua condição cômoda e sentir “na pele” as tristezas nem sempre mostradas com exatidão por alguns canais de comunicação. Quando Jesus dizia acerca da unidade, do amor, da fraternidade, ele mostrava da condição a que cada um é chamado a ser: “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8). Se o homem foi arbitrário com o projeto salvífico oferecido por Deus, tal permitiu no novo Adão a resposta para com a indiferença humana. O homem foi violento, mas na bondade divina, é possível recorrer a Deus: “Abba, Pai” (Gl 4,6). Logo, não há mais diferenças, todos são filhos, todos são herdeiros da vontade de Deus (Cf. Gl 4,7). O maior tesouro do ser humano é aquele contido em teu coração (Cf. Mt 6,21). Neste será possível dilatar a bondade e assim levar até aqueles mais carentes a misericórdia esquecida por muitos aos mais pequeninos do mundo.

A nossa prática nesta Quaresma nos permita viver o “despojamento do homem velho” para transformar as relações em “novas oportunidades de amar”. Ao ver a igualdade na obra criada pelo Pai reconheçamos nossa fraternidade enquanto irmãos que conduzidos durante a caminhada terrena, um dia poderemos contemplar da Páscoa particular a todos. Somos todos irmãos!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Bíblia Sagrada, tradução da CNBB, 7ª ed., 2008. (comentários bíblicos de Pe. Carlos Alberto Contieri);
Bíblia Sagrada, edição pastoral, PAULUS, 45ª ed., 2002;
CNBB. Conferência Nacional dos Bispos do Brasil/ Campanha da Fraternidade 2018: Texto-Base. Brasília, Edições CNBB. 2017

 

 

“O Verbo se fez carne e habitou entre nós”…(Jo 1,14)

Para nós, o Tempo do Advento é muito importante, pois através do convite de São João Batista, somos convidados a nos converter e preparar os caminhos do Senhor: “Uma voz clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, aplainai suas veredas. João Batista apareceu no deserto e pregava um batismo de conversão para a remissão dos pecados.” (Mc 1, 3-4).

Já nesse Tempo Litúrgico, nossa Igreja Católica nos convida a refletir sobre nós mesmos e nos mostra que o Menino que nasceu na pobre gruta de Belém de Judá é Aquele que definitivamente iluminou nosso caminho. O nascimento de Jesus então se tornou o inicio de um novo tempo.

São Francisco, que resolveu meditar este acontecimento com intensa afetividade, ao usar a manjedoura e formar o presépio pela primeira vez, nos ajudou a imaginar o que de fato aconteceu naquela noite.

Ao aproximar-se do Natal, a maioria destes símbolos pode ser encontrada por toda a parte: nas praças, nas ruas, nas iluminações dos prédios. Assim, nos alegram os cantos natalinos, as árvores de Natal, a estrela e principalmente o presépio, com as pessoas ao seu redor.

Faço uma pergunta para uma breve reflexão: “Estes símbolos causam dentro de nós um aprofundado pensamento religioso?”

A impressão que temos é que, em nossos dias, os símbolos religiosos do Natal tomaram uma dimensão comercial muito forte, perdendo a sua essência, que deveria nos remeter ao nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. O problema é mais grave ainda, pois retrata a tendência de a Sociedade viver intensamente seu caráter consumista, deixando Deus de lado.

O que devemos fazer para celebrar dignamente o Natal?

Comecemos a partir de nossas famílias, os pais explicando aos filhos que Jesus é a imagem mais importante no presépio e quem são outras pessoas ali presentes. Ao lado do presépio, vale a pena colocar a Bíblia, a fonte escrita da nossa fé, explicando também às crianças que o presente de Natal é por causa do nascimento do Menino Jesus e não de Papai Noel. Na noite de Natal, as famílias devem reservar o tempo para ir à Igreja e celebrar a festa do Natal do Senhor.

Somente a ceia tradicional não é o suficiente!  Não podemos seguir a atitude de frieza do povo de Belém de Judá, expressa no Prólogo do Evangelho de João: “Chegou para os seus e os seus não O acolheram.” (Jo 1,11)

Precisamos ter a coragem e sensibilidade de manter os corações abertos para acolher o Menino Deus no Natal de 2017. Como gesto concreto, talvez fosse interessante exercer a caridade, ajudando algum irmão necessitado. Este seria nosso presente para o Menino Jesus!

A vida é efêmera e passa muito rápido! Não podemos deixar nos perder nesse mundo, com as coisas que passam. Precisamos deixar que nossos olhos permaneçam fixos em Jesus, nosso Senhor, abraçando assim as coisas que não passam. O tempo que nós temos para sermos melhores, corretos, justos é o presente, o hoje. O ontem já se foi e somos incapazes de voltar no tempo, seja para corrigir algum erro ou para reviver alguma situação de alegria. O amanhã pertence a Deus e não temos nenhuma garantia de que o teremos. Recordo as palavras de São Paulo: “Pois ele diz: Eu te ouvi no tempo favorável e te ajudei no dia da salvação. Agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação.” (II Cor. 6,2)

Desejo a cada um de vocês um Feliz e Santo Natal. Pela intercessão e proteção de Nossa Senhora das Mercês, que o Ano de 2018 seja um ano cheio de paz, saúde e graça!

Gloria in excelsis Deo!!!

A ALEGRIA DO EVANGELHO PARA UMA IGREJA EM SAÍDA

A alegria do Evangelho para uma Igreja em saída

“Uma igreja fechada a si empobrece o mandato missionário deixado por Jesus”.

O ser humano sempre buscou meios para ter satisfações pessoais. Mas, no complicado processo de alcançar tais metas, infringiu limites, quebrou paradigmas e aniquilou o outro. Não respeitou o mínimo no seu semelhante e principalmente no diferente. A humanidade desprezou muito em não cuidar da natureza, das relações sociais, de sua história e logo, inúmeras foram as consequências. A tão sonhada “alegria” oferecida pelo mundo foi o oposto desejado por Deus.

Nunca se permitiu tanto meios para se ter uma felicidade. Mas qual? Esta momentânea, indiferente, pessoal, egoísta? As ferramentas tecnológicas tentam servir de esteios para garantir esta alegria, porém quando não são usadas para a promoção da vida passam a ser geradoras de uma cultura do descartável, passageiro e supérfluo. Segundo Aristóteles, “a felicidade não se encontra nos bens exteriores”, mas na condição inata do homem de querer o bem. A Campanha Missionária 2017 nos motiva a viver no hoje a alegria de ser missionário, indo até as periferias em que as “atuais felicidades” não conseguem chegar. A felicidade sonhada por Deus é para todos, não para um grupo restrito.

As ações das Pontifícias Obras Missionárias iniciadas em 1926 pelo Papa Pio XI nos impulsionam a sair do comodismo tão pregado atualmente, na perspectiva que tudo é permitido, segundo as vontades de cada um, mediante as suas necessidades particulares. Uma igreja fechada a si empobrece o mandato missionário deixado por Jesus (Cf. Mt 28,19) “Qual é o fundamento da missão? Qual é o coração da missão? Quais são as atitudes vitais da missão?”, questiona o Papa Francisco e diz: “A missão da Igreja é animada por uma espiritualidade de êxodo contínuo”. Trata-se de “sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho” (EG 20). (…) A missão adverte a Igreja de que não é fim em si mesma, mas instrumento e mediação do Reino”.

A missão é o rosto alegre de uma Igreja caridosa com seu povo. O Papa Francisco em “Amoris Laetitia” relata que “Se não alimentamos a nossa capacidade de rejubilar com o bem do outro, concentrando-nos sobretudo nas nossas próprias necessidades, condenamo-nos a viver com pouca alegria”. Portanto, a felicidade não é causa da ação do outro exclusivamente, mas do desejo de cada um em fazer diferente sua realidade social. Sendo assim, somente com esta alegria vinda do Senhor é que alcançaremos aquilo proposto pelo Mestre: salvar quem está perdido!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

A alegria do Evangelho. Disponível de: <http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html.
Acesso às 23h06, 15 Out 2017

Campanha Missionária 2017. http://www.pom.org.br/wp-content/uploads/2017/07/apresentacao-campanha-missionaria-2017.pdf
Acesso às 22h50, 15 Out 2017

Mensagem de sua Santidade Papa Francisco para o dia mundial das missões em 2016. Disponível de https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/messages/missions/documents/papa-francesco_20160515_giornata-missionaria2016.html
Acesso às 23h11, 15 Out 2017

O INDIVIDUALISMO CRISTÃO EM TEMPOS DE CRISES SOCIAIS

Cosme da Rocha
Seminarista e acadêmico do 2º período de Filosofia do Centro Universitário Católico de Vitória

Nem tudo pode ser vislumbrado como bom nos últimos momentos da história. Apesar de muitos avanços sociais, infelizmente políticas retrocedem aquilo que deveria ser o bem para o povo. Assim, como cuidar exige senso de boa conduta e administração (Cf. Jo 6, 10), Jesus convida a todos se sentarem, estarem no mesmo nível, a não haver diferenças – o cristão precisa conceber a cultura do comum.
Muitos gritos ecoam de muitas entidades que buscam promover um bem social, bem como a promoção de ideais de justiça e igualdade a todos. Permanecer inerte frente a tantas situações contra aos mais desfavorecidos da sociedade é uma grave realidade a que o ser humano adotou para si. O ignorar o ser do outro em detrimento dos interesses próprios mostra ainda como o velho homem impera sob a humanidade sonhada para o amor.
Os primeiros propagadores da fé (Cf. At 2, 42-47) inspiraram o desejo real da comunidade capaz de se abrir as angústias, dificuldades e mazelas dos mais pequenos. Quantos homens e mulheres são esquecidos, mutilados e negligenciados todos os dias! O Papa Francisco aponta isso na Laudato Si, nº 123:

 A cultura do relativismo é a mesma patologia que impele uma pessoa a aproveitar-se de outra e a tratá-la como mero objeto, obrigando-a a trabalhos forçados, ou reduzindo-a à escravidão por causa duma dívida. É a mesma lógica que leva à exploração sexual das crianças, ou ao abandono dos idosos que não servem os interesses próprios.

Tomar cuidado com estas realidades é necessário para o cristão. Este, quando não vê as disparidades contra o seu próximo é semelhante ao homem rico que na teoria sabia o tudo para se compor a fé, mas na prática, seu poder, suas riquezas, o distanciavam do outro, o mantinha cego perante a dor alheia. Porém, Jesus indica uma esperança, se “para os homens é impossível, não para Deus; tudo é possível para Deus” (Mc 10, 27). Afinal, todos caídos sob o julgo do pecado, todos perecem dos mesmos males, mas redimidos pelo amor daquele que amou a todos até o fim solicitou o mesmo: “Amai-vos uns aos outros, como eu vou amei: amai-vos assim uns aos outros.” (Jo 13, 34)
O Deus misericórdia não abandonou o seu povo, mas assim como o bom samaritano convidou o amor ao próximo independente de sua identidade, condição e aparato para promover o bem (cf. Lc 10, 25-37). O ato de agir para o bem enaltece a condição inata do ser humano num ideal que o mesmo carrega em si: de ser feliz. Ninguém consegue viver uma felicidade verdadeira distante do outro. A cada um foi dada uma felicidade única, ímpar.
O rompimento de tudo aquilo que impede a promoção da vida precisa ser tarefa contínua de todos na busca de uma sociedade melhor. O mundo carece de protagonistas capazes de fazer o bem. Todos precisam ser convocados a buscarem esta condição social capaz de dar esta tranquilidade e paz necessárias a todos os povos. Portanto, seja a crise superada pela unidade em meio as diferenças de cada indivíduo em prol da vida.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BÍBLIA DO PEREGRINO. Edição de estudo. Luís Alonso Schökel. Paulus, 2011
LAUDATO SI. Sobre o cuidado da casa comum. Carta Encíclica do Santo Padre Francisco. Diocese de Umuarama, 2015.

VOCAÇÃO: A PROPOSTA DE VIDA DE DEUS PARA A PESSOA

A Igreja nos propôs no mês de agosto meditarmos sobre as vocações. Esse tema de fato é muito importante para a caminhada cristã, e exige de cada pessoa a consciência de que se é um vocacionado, isto é, de que cada um é chamado por Deus a alguma coisa.

Na Bíblia, são paradigmáticos os chamados dos profetas. Cada profeta inicia a sua missão a partir de uma vocação, um chamado próprio e bem pessoal que recebe de Deus: é o caso de Moisés, Jeremias, Isaías, Amós, etc. Deus chama e indica uma missão. Vamos tomar o exemplo do profeta Jeremias e o belíssimo texto de sua vocação em Jr 1,4-10.
Digo que são paradigmáticos, porque servem de modelos para cada um de nós, batizados, seguidores de Jesus, como fonte de inspiração e também como um meio para que cada um também escute a voz de Deus que continua a nos falar e nos chamar através de sua Palavra.
Assim como Jeremias, somos chamados a acolher essa Palavra: “Antes de formar você no ventre da sua mãe, eu o conheci!” (1,5). Que maravilhoso é saber que não somos frutos do acaso, mas somos filhos e filhas de um Deus que nos quis. O Papa Francisco nos fala que “fomos concebidos no coração de Deus e, por isso, cada um de nós é o fruto de um pensamento de Deus. Cada um de nós é querido, cada um de nós é amado, cada um é necessário” (Laudato Si 65). Esse é o primeiro chamado que recebemos: a VOCAÇÃO À VIDA.
Seguindo a Palavra, nos é dito: “Antes que você fosse dado à luz, eu o consagrei” (1,5). Consagrar significa separar, escolher. Desde o princípio Deus já nos separou para Ele, para uma missão. Vemos que a iniciativa é toda de Deus, a nós cabe apenas a resposta. O segundo chamado nos vem no batismo, no qual a nossa eleição da parte de Deus é confirmada: é a nossa VOCAÇÃO CRISTÃ. Como batizados e batizadas, somos completamente envolvidos pela graça de Deus e nos tornamos seus filhos, “herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo” (Rm 8,17).
Recebemos a Vida, nos consagramos a Deus, mas para quê? “para fazer de você profeta das nações” (1,5). Fomos consagrados para uma grande missão. E como batizados, participamos da mesma unção de Cristo na qual somos constituídos como profetas, sacerdotes e reis. Em nossa reflexão, vamos nos dedicar à missão profética: A palavra profeta, em sua raiz antiga, desde o hebraico nabí significa “falar”; em latim, propheta significa “porta-voz”; Ou ainda do grego prophétes, “discursar em público”.
Muitos podem estar pensando: “Ah, mas eu não sei falar, como posso ser um profeta?” Nesse momento, o próprio Deus tem uma resposta, pois a mesma coisa Jeremias disse ao Senhor, conforme o versículo seguinte: “Ah, Senhor, eu não sei falar, porque sou jovem” (1,6). Essa é a nossa primeira tentação: fugir dos próximos chamados de Deus, por medo das exigências que esses chamados podem nos implicar. Jeremias também tentou fugir. Ele era um jovem do século VI a.C., o que nos indica que pelo visto as coisas não mudaram muito de lá pra cá. Enfim, seguindo o nosso itinerário, as próximas vocações são as chamadas VOCAÇÕES ESPECÍFICAS, que nos apontam a missão que Deus tem para cada um de nós na Igreja e no mundo.
As vocações específicas são quatro: VOCAÇÃO SACERDOTAL, à VIDA RELIGIOSA E CONSAGRADA, MATRIMONIAL e LEIGA.
Cada vocação específica implica em si um modo especial de falar e se relacionar com Deus, por isso, cada uma delas, exige do cristão o seu ministério profético, porquanto, o seu ministério de ser um “porta-voz de Deus”.
Poderíamos perguntar: mas essa não é uma missão específica dos sacerdotes, dos religiosos e religiosas e daqueles que vão pregar a Palavra de Deus? Não! Essa é a missão de todo o cristão, a partir do mandato missionário de Jesus: “Ide e fazei com que todos os povos se tornem meus discípulos!” (Mt 28,19). Porém a dimensão do falar está para além de ser apenas o discurso com palavras. Fala-se de muitas maneiras, e hoje em dia, na era da internet e da comunicação, os modos de falar se multiplicam com as redes sociais, TV, rádio, canais da internet… os nossos modos de ser e estar no mundo, e fala-se principalmente com a vida. O modo de viver a nossa vocação expressa o modo como falamos de Deus.
Qual a lição com tudo isso? Podemos falar de diversas formas. Falamos com nossos gestos, falamos com nossas atitudes, muito mais do que com as palavras. São Francisco de Assis dizia: “Evangelizar sempre, se preciso use palavras”. Evangelizamos primeiro com a nossa vida.
Rapidamente, olhemos para cada vocação específica, celebrada em cada domingo deste mês vocacional. A primeira é a VOCAÇÃO SACERDOTAL, para aqueles que são chamados ao sacramento da Ordem: diáconos, padres e bispos. Homens chamados a configurar-se a Cristo servo, pastor e cabeça da Igreja. No segundo domingo celebra-se o dia dos pais e, portanto, a VOCAÇÃO MATRIMONIAL, dos homens e mulheres chamados ao sacramento do Matrimônio, com a sua missão específica de formarem uma só carne, e colaborarem com o Senhor no seu projeto criador dando a vida e educando os novos filhos e filhas de Deus. No terceiro domingo celebramos a VOCAÇÃO RELIGIOSA CONSAGRADA, daqueles homens e mulheres que, pela consagração total a Deus através da vivência radical dos conselhos evangélicos: pobreza, obediência e castidade, se dedicam ao serviço dos irmãos e irmãs em um carisma específico. E por fim, no último domingo, celebramos a VOCAÇÃO LEIGA, daqueles homens e mulheres, casados ou não, que estão inseridos no mundo, na sociedade civil, no trabalho e nas nossas comunidades, para serem, nestes espaços, Sal e Luz (cf. Mt 6,13-16), santificando-os com o seu testemunho de vida.
Portanto, celebrar o mês vocacional, é celebrar propriamente a nossa vida, que desde o princípio, antes mesmo de nosso nascimento, já possui um desígnio próprio, marcado pelo Senhor, a fim de nos conduzir para a vida querida por Ele para cada um de nós, a vida em abundância (cf. Jo 10,10).
Ninguém está excluído da vocação, todos somos chamados a obedecer a Deus e seu desígnio para cada um: “Não diga ‘sou jovem’, porque você irá para aqueles a quem eu mandar e anunciará aquilo que eu ordenar. Não tenha medo deles, pois eu estou com você para protegê-lo”. (1,7-8).
Deus não apenas nos dá a missão, Ele nos faz uma promessa: “EU ESTOU CONTIGO!”
E aí, vamos nessa? Prontos para responder?

Meu primeiro “Dia do Padre”

Hoje tive um dia intenso. Graças a Deus. Intenso em atividades e qualidade. A liturgia hoje era uma espécie de chamado à contemplação: enxergar a mão de Deus que age no cotidiano da vida, para não se deixar vencer pela rotina ou pela mesmice. Acho que ser padre seja um pouco isso: contemplar os sinais da presença de Deus no cotidiano da vida – das outras pessoas e da minha própria. O extraordinário de Deus se dá no nosso cada dia ordinário.

 

Recebi neste dia uma enxurrada de belas mensagens – e até alguns presentes. Minha prece é para que minha presença seja também uma bela mensagem. Nem sempre é fácil. A gente é humano; tudo que é humano tem limite; tudo que é limitado pode falhar; toda falha pode levar a um fracasso; todo fracasso pode ser um desencanto ou uma oportunidade de se reinventar e começar de novo. Depende do olhar de cada um.

 

Uma coisa sempre ouvi e concordo: o padre é um homem de Deus. Uma coisa, porém, deve ser clara: “a graça supõe a natureza”, como dizia Sto. Tomás. Ou seja: Deus vai além de nós, mas conta conosco. É claro que uma vocação como o sacerdócio ministerial só se constrói e mantém pela misericórdia de Deus; mas se realiza em nós, pobres mortais. Pode o padre não ser perfeito, nem lá muito santo… mas é terra sagrada, morada de Deus, e sinal de Sua presença. É dom. É graça.

 

Sou um homem agradecido pela vocação que Deus me deu. Não sinto que a escolhi. Fui escolhido. É diferente. E não sei bem ainda para que, nem as consequências a que vão me levar tal chamado. Deixo que Deus me conduza. Isso me basta.

 

Agradeço aos meus amigos pelo apoio e oração de hoje e sempre. Que amadureçamos como suporte uns dos outros. E como escolhi para reger meu ministério: “rezem também por mim, para que a palavra seja posta em minha boca para que eu possa anunciar ousadamente o mistério do evangelho, como é minha obrigação” (cf. Ef 6,18-20). Deus abençoe a todos!
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