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EU APOIO O PAPA. EU REZO PELO SÍNODO

Apóstolos, isto é, enviados, por vocação, para o anúncio do Evangelho de Deus, que é Jesus Cristo encarnado, morto e ressuscitado, pela força do Espírito Santo, para a nossa Salvação. Por este Evangelho fomos escolhidos, “Batizados e enviados”, para trazermos à obediência da fé todos os povos pagãos, os povos que ainda não conhecem a Jesus Cristo (cf. Rm 1,1-6). Dentre estes povos estamos nós e está também os povos da Amazônia, para os quais a Igreja nestes dias dirige a sua total atenção em Sínodo em vistas de discutir e descobrir caminhos novos para a evangelização daqueles povos e para uma ecologia integral.

Este Sínodo tem gerado muitas discussões e até divisões dentro da Igreja. Não muito diferente da época em que Paulo pregou o Evangelho, quando, por exemplo, os fiéis cristãos de origem judaica se sentiam a verdadeira essência da mensagem cristã e queriam fazer pesar sobre os fiéis cristãos de origem grega os mesmos compromissos que, certa vez, lhe pesaram o judaísmo: a circuncisão e a observância estrita da Lei. Para resolver este problema, os apóstolos se reuniram de maneira sinodal: o Concílio de Jerusalém, e decidiram, o Espírito Santo e eles, que o essencial não são os rituais da cultura judaica, mas a fidelidade a um único Deus revelado de forma plena a Jesus Cristo. Os preceitos judaicos passaram, o que conta é a liberdade conseguida por Cristo: liberdade para escolher amar e servir a este Deus, em Jesus Cristo, no interior de qualquer cultura em que o Evangelho alcançasse, purificasse e enriquecesse com a Sua graça, mas não eliminasse, para transformá-la em outra cultura que se considerasse superior (cf. At 15,1-29).

Jesus Cristo derramou o Seu Sangue na Cruz também pelos povos da Amazônia, para a salvação deles e para que eles fossem igualmente conduzidos ao verdadeiro Deus e à verdadeira vida. Contudo, como em Pentecostes, as maravilhas de Deus devem ser anunciadas também na língua daqueles povos, para purificar e enriquecer sua cultura, mais voltada à ligação e o cuidado com a terra e com aquela Floresta que é tão importante para a humanidade. E assim eles também possam vir à obediência da fé (cf. Rm 1,4), e levar a esta obediência de fé todos os seus conterrâneos. Como diz o Salmo 97: “Os confins do universo contemplaram a salvação do nosso Deus”. Também àqueles confins deve-se ecoar de maneira sempre nova, adaptada, eficaz, o Evangelho de Jesus Cristo, e é nossa missão de batizados fazer cumprir esta missão. Por isso, devemos apoiar o Papa, rezar pelo Sínodo para a Amazônia. Se não podemos ir até lá e ser missionários entre aqueles povos, devemos pelo menos rezar pelos que já estão lá e fazem este trabalho. Devemos rezar pela Igreja, para que permaneça fiel à sua vocação de evangelizar e se converta, dia a dia, na Igreja “em saída”, misericordiosa e pobre, à qual convida o Papa Francisco, inspirado pelo Espírito Santo, que o conduziu ao ministério petrino.

Digamos não à guerra entre nós! Não à divisão, que vem do Maligno! Não escutemos estes “profetas da divisão” que falam contra o Papa, contra o Sínodo, contra a CNBB, contra a Igreja. Eles não são nossos pastores! Jesus escolheu a Barca de Pedro para nela ficar e a partir dela anunciar o Seu Evangelho. Quem conduz a Barca de Pedro hoje é Francisco. Não há outro modo de ser verdadeira Igreja de Cristo senão pela união com o Papa. E aquele que está na Barca de Pedro tem a garantia divina de que Cristo está nela.

O verdadeiro sentido da vida

O verdadeiro sentido da vida

Num momento oportuno da história, ainda sem nenhuma ideia de ressurreição, a existência foi tida como absurda. Em Eclesiástico 40, percebe-se a “penosa sorte” dada a cada indivíduo, visto assim como uma cruz complicada para se carregar. Tal realidade é comum a todos, nem mesmo aquele que a tudo tem, não fica imune a tamanha realidade absurda da vida. No descansar da noite, o homem “fica perturbado pelos fantasmas de sua mente, como quem fugiu da linha de batalha” (Eclo40, 6b) mas, ao despertar, se vê novamente defronte com seus inúmeros desafios a enfrentar.

O verdadeiro sentido da vida acontece na fiel temeridade a Deus. Porém, escolhê-Lo nem sempre é tarefa fácil. Num mundo marcado por tantas formas de alienação, uma cultura segundo os ideais do consumo é tida como a garantidora da felicidade. Será? O Documento Final da XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, “Os Jovens, a Fé e o Discernimento Vocacional” (2019, p.28-29) relata que “está crescendo, especialmente entre o jovens, a disseminação de formas de sofrimento psíquico, depressão” e o texto ainda fala acerca “do trágico fenômeno do suicídio.”Qual o motivo? Perceba a contradição a que chegamos: as pessoas estão “vazias” com o tudo dado a elas.

Tornar o coração repleto da graça é permitir viver uma vida voltada a Deus (cf. Hb 12, 9b). Por isso, desejar a autossuficiência é impossibilitar a autêntica condição humana a que cada um fora chamado: a de ser feliz com o outro! É fundamental vivermos em comunidade, e isso requer que “amemo-nos uns aos outros, […] e todo aquele que ama, nasceu de Deus e conhece a Deus.” (1 Jo 4, 7)Juntos, em comunidade, teremos a força para levarmos nossas cruzes. A alegria do cristão é resultado do bom humor. O oposto “não é um sinal de santidade,” já fala o Papa Francisco (2018, p.61) e assim, é preciso retirar toda a angústia presente no coração e se afastar de qualquer mal (cf. Ecl 11,10). Papa Francisco (2018, p.62) ainda diz sobre “àquela alegria que se vive em comunhão, que se partilha e comunica.”

Portanto, Jesus pede que frente a todas as condições temerosas da vida, o ser humano possa se levantar e erguer a cabeça (cf. Lc 21, 28) para que desta forma ele prossiga na sua caminhada lidando com todas as suas adversidades. No fim, assim como São Paulo, poderemos dizer que “o Senhor ficou comigo e me encheu de força, a fim de que eu pudesse anunciar a mensagem e ela chegasse aos ouvidos de todas as nações” (2 Tm 4, 17). Que o nosso pessimismo possa ser transformado em esperança, e esta, possa ser encontrada no Senhor.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BÍBLIA SAGRADA, Edição Pastoral. 45 ed. São Paulo: Paulus, 2002

FRANCISCO. Gaudete et Exsultate: sobre o chamado à santidade no mundo atual. 1 ed. São Paulo: Paulus, 2018

SÍNIDO DOS BISPOS. Os jovens, a fé e o discernimento vocacional: Documento final. 1 ed. São Paulo: Paulus, 2019

 

Decida-se pela alegria duradoura!

A Igreja reza no mês de agosto de forma particular pelas vocações e assim, sendo ela intermediadora da graça divina, conclama seus fiéis a se colocarem em serviço. O Salmo 25 canta a mudança de vida do pecador. Ao sair de uma condição de vergonha para um caminhar junto ao Deus que “ensina aos pobres o seu caminho” (v.9b), o Senhor mais uma vez espera por respostas que surgirão do encontro com aquele que estava perdido e agora inicia sua trajetória nesta jornada. Decidir-se pelo itinerário proposto pelo Senhor é se deixar tocar por sua ação e confiar que de sua força virá as palavras necessárias quando eu precisar (cf. Jr 1, 9). Optar-se ao seguimento do Mestre nos provoca a viver de forma despreocupada com o amanhã: “Basta a cada dia a própria dificuldade” (Mt 6, 34c). Ele não isenta a ninguém dos obstáculos da vida, mas provoca a se ter confiança, a fazer o percurso passando pela porta mais estreita, a ser aquele seguidor que tem prudência e no Senhor é chamado a fincar suas bases. (cf. Mt 7,7-27)

Decidir por algo é renunciar outras coisas. Tais escolhas poderão não corresponder com os anseios do mundo. Em meio a tantas fragmentações do ser humano, falar numa cultura vocacional é indicar “um caminho necessário para a construção unitária da pessoa” (Texto-base do IV Congresso Vocacional do Brasil, 2018, p.15). Os muitos problemas vividos pelos homens atualmente se contrapõem ao ideal proposto por Jesus ao descer da montanha. Sua mensagem é de esperança, para que no fim possam ser felizes, pois o desejo por um mundo novo implica em denunciar a certas atitudes contrárias ao amor divino (cf. Lc 6, 17-26). A realização deste intuito de Cristo acontece em nossas famílias, comunidades, sociedade, todos os dias, pois são nos pequenos gestos de conversão que se decide andar no caminho do Pai. Todos são convocados a serem propagadores desta graça. “A descoberta da vida como dom recebido de um Pai amoroso e providente provoca surpresa e maravilha na pessoa” (Texto-base do IV Congresso Vocacional do Brasil, 2018, p.17). Assim como São Paulo nos diz para agradecermos sempre (1Ts 5,18), sejamos colaboradores de um mundo mais grato e feliz, com mais esperança e menos pessimismo, e logo, mediante as realidades de tristeza, (Eclo, 38,20) tenhamos a força necessária para dar ao nosso coração a certeza de termos um Deus amigo, que não nos abandona, porque ele é Pai. Decida-se pela alegria que dura mais!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BÍBLIA SAGRADA.Edição Pastoral. 45 ed. São Paulo: Paulus, 2002
PASTORAL VOCACIONAL DO BRASIL. Texto-base do IV Congresso Vocacional do Brasil. Brasília: Edições CNBB, 2018

O retorno à casa paterna

“Era necessário fazer festa, porque esse teu irmão estava morto e reviveu, tinha-se perdido e foi encontrado.” (Lc15,32) Por que se alegrar com o retorno deste filho bastardo? A parábola do Pai misericordioso é uma preciosidade para a literatura mundial. Apresenta a face mais bela de Deus, que na lógica do mundo se desfaz com o mistério insondável do Criador. Se Deus é “compassivo e clemente, paciente e misericordioso” (Jn 4,2), não é de se estranhar que este Pai não agiria com misericórdia. Mas por que tal gesto de retorno à casa paterna provocou a agitação do filho mais velho? O protesto deste se vincula a uma ideia de retribuição. Afinal, tinha sido sempre obediente ao seu pai. Porém, na perspectiva da paternidade, o lar aqui descrito provoca no filho mais velho a necessidade de ser fraterno e romper com sua indiferença. Portanto, uma vida que provou do arrependimento merece ser celebrada. A “compaixão transformada em corrida de encontro” (STEINER, 2016) provoca rapidez paterna para ser amoroso. Não se perde tempo com palavras, mas se ganha sendo caridoso. O Papa Francisco lembra que a Igreja precisa ser semelhante ao “pai do filho pródigo, que continua com as portas abertas para quando este voltar, poder entrar sem dificuldade.” (2013, p.33)
Voltar à casa do pai é perceber que a lei do amor faz sentido nesta dimensão que liberta e não aprisiona. Alegrar-se por aquele que se arrependeu é entender que o amor fraterno é um ideal para todos nós cristãos e não faria sentido um sentimento deste restrito apenas a alguns. E se for preciso ir até o Pai, não sintamos receio, pelo contrário, sejamos corajosos para seguir este caminho. Sendo assim, não há motivo para se entristecer, pois que estava perdido, foi reencontrado.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BÍBLIA DO PEREGRINO. São Paulo, Paulus, 2011.
FRANCISCO. Evangelli Gaudium A alegria do Evangelho: sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. São Paulo, Paulus, 2013
STEINER, D. Leonardo. O rosto da misericórdia. Brasília, Edições CNBB, 2016

As reformas de Francisco

Antes da escolha do Papa, o tema das reformas da Cúria Romana era predominante entre os membros do Colégio de Cardeais, responsável pela escolha do futuro Pontífice. E, talvez por isso mesmo, a opção de se escolher um Papa do “fim do mundo” como declarou o cardeal Bergoglio ao ser apresentado à população na Praça de São Pedro, após ser o escolhido, tinha esta intenção subjacente. O fato de não ser europeu poderia contribuir muito no movimento necessário das reformas da Igreja.

Mas que características o Papa Francisco defende para conduzir este movimento? Ao se referir à Cúria Romana, que é um conjunto de dezenas de organismos encarregados de conduzir a Igreja pelo mundo todo, o Papa assim declara pouco antes do Natal de 2014: “É bonito pensar na Cúria Romana como um pequeno modelo de Igreja, ou seja, como um corpo que busca ser, séria e cotidianamente, mais vivo, mais saudável, mais harmonioso e mais unido em si mesmo e com Cristo”. Portanto, não se trata de uma estrutura burocrática e administrativa em primeiro lugar, mas um modelo de Igreja que deveria servir de exemplo para as dioceses, paróquias e comunidades. As reformas do Papa Francisco assim devem impactar todo o conjunto da Igreja, atingindo lá longe nas periferias. Qualquer alteração na estrutura administrativa da Igreja particular deveria seguir esta ideia.

O Papa também tem consciência das dificuldades para implementar as reformas necessárias. E assim às vésperas do Natal de 2017 nos alerta: “Fazer as reformas em Roma é como limpar a Esfinge do Egito com uma escova de dentes. Nela se ressalta a grande paciência, dedicação e delicadeza que são necessárias para se alcançar tal objetivo, dado que a Cúria é uma instituição antiga, complexa, venerável, composta por pessoas de diferentes culturas, línguas e mentalidade que existe para o bem de todo o corpo da Igreja”. Isso nos dá esperança e conforto quando tentamos mudanças nas estruturas paroquiais e de comunidades em escala menor. É sempre um trabalho paciente, humilde e delicado. Mas, em que direção devem caminhar as reformas?

Em 24 de novembro de 2013 o Papa publica a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium – A alegria do Evangelho: sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual – e afirma que este documento “possui um caráter programático e tem consequências importantes”; implica uma “renovação individual a partir do coração do Evangelho”. Nasce aqui a ideia de uma “Igreja em saída”. Eis a chave missionária das reformas. Esta é a reforma fundamental conduzida por Francisco. Não é um slogan qualquer, mas um programa de mudanças, que implica todo o conjunto da Igreja. E afirma: “Convido a todos a serem ousados e criativos nesta tarefa de repensar os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores das respectivas comunidades, superando o projeto do “sempre assim” e renovando as estruturas, os métodos, as linguagens, o papado, as paróquias, a teologia”.

Esta exortação se completa com a Encíclica Laudato Si e a Exortação Amoris Laetitia, sendo esta a que mais reações negativas, principalmente nas orientações a respeito dos divorciados, produziu no interior da Igreja. A resposta do Papa a estas reações é dura: “Um pastor não pode sentir-se satisfeito apenas aplicando leis morais àqueles que vivem em situações ‘irregulares’, como se fossem pedras que se atiram contra a vida das pessoas”. Refere-se aqui a questão dos divorciados e aqueles em nova união e sua participação na Igreja. Assim, a reforma de Francisco toma como princípios no interior da comunidade eclesial a conversão e a misericórdia. O modelo pastoral deverá ser baseado na lógica da misericórdia.

No que se refere à estrutura, a paróquia deveria assumir formas diferentes com docilidade e criatividade missionária por parte do pastor e da comunidade. Nela todas as forças vivas devem se integrar. A escolha dos futuros padres e bispos deveria ter como critério o perfil de “sacerdotes das ruas” e bispos com cheiro do povo, que favoreçam a comunhão missionária. Às vezes devem estar à frente do povo, outras com o povo e também, se for necessário, estar atrás do povo de acordo com as exigências do momento.

Neste processo de renovação, o princípio da sinodalidade deve preponderar, com o pastor ouvindo o povo e o povo ouvindo o pastor; ao mesmo tempo, deveria ser visível, gradual e buscar sempre o consenso, e não se impor uma reforma de maneira autoritária. A condução deste movimento que deverá atingir a todos deve ser pautada pela caridade, pastoralidade, e pela preservação da comunhão com muita paciência e respeito pelos atrasos. O tempo de cada um deve ser respeitado e assim se dá a renovação da Igreja enraizada na tradição.

O papa faz a reforma da Cúria Romana reorganizando os vários organismos com a ajuda de um Conselho (C 9) composto por 9 cardeais, que também o auxiliam no governo da Igreja. Denuncia a existência de “carreirismo eclesial”, com pessoas carentes ainda de uma profunda experiência espiritual. Denuncia as várias resistências que vai encontrando e reclama das resistências abertas que nascem do diálogo e da boa vontade das pessoas em querer o melhor para a Igreja; e de maneira ele se refere às resistências ocultas e malévolas, que nascem dos corações assustados e empedernidos, e das mentes tortuosas cheias de más intenções que causam muito prejuízo na Igreja, afastando antigos e novos fiéis. A reforma nos organismos também se defronta com as resistências daqueles que dizem “sempre fizemos desse jeito” ou “nunca fizemos isso antes”.

Para concluir este artigo, podemos assegurar que o Papa Francisco manterá até o fim de seu pontificado este movimento de reforma que incluiu toda a Igreja, exigindo assim o mesmo de cada Igreja Particular, de cada paróquia, de cada comunidade, de cada pessoa. Ser fiel neste momento significa caminhar nesta direção. Ele se preocupa muito com o silêncio dos Bispos que ainda não fizeram chegar a reforma em suas Igrejas particulares e não se movimentam contra as resistências ocultas e malévolas que fazem tanto mal à Igreja. Ele tem demonstrado mudanças na escolha dos novos Bispos, buscando pessoas com cheiro do povo e na renovação do colégio de cardeais. Isso deveria garantir a continuidade das reformas ao longo do tempo. E de modo incisivo, queremos concluir com Francisco: “É preciso destacar que a reforma será eficaz única e exclusivamente se for implementada com homens ‘renovados” e não simplesmente com homens ‘novos’. Não basta se contentar em mudar o pessoal, mas é preciso levar os membros da Cúria a se renovarem espiritual, humana e profissionalmente. A reforma da Cúria não se implementa de modo algum com a mudança das pessoas, mas com a conversão das pessoas. Não basta uma formação permanente. É preciso sobretudo uma conversão e uma purificação permanentes”.

Estas são algumas ideias principais para o movimento da reforma da Igreja conduzida pelo Papa Francisco. Agradeço imensamente o convite que o bispo Dom Paulo Dal’Bó me fez para falar na miniassembleia ocorrida em 24 de novembro passado e desejo que a renovação se desenvolva de maneira profunda nestas terras do norte do Espírito Santo, tão carente dos bens do Reino de Deus. Tenho profunda estima e admiração pelo povo de São Mateus, especialmente pelo Bispo atual e seu clero, com quem caminhamos no processo formativo. E mais ainda o meu reconhecimento aos bispos anteriores, padres anteriores especialmente os da família comboniana, e especialmente Dom Aldo Gerna com quem mantivemos sempre um caminho de comunhão e ajuda no processo formativo de seus padres. Obrigado a todos e que Deus nos abençoe neste momento histórico tão desafiador para os cristãos do Brasil. No capítulo IV da Evangelii Gaudium, o programa de reforma aponta a dimensão social com a inclusão dos pobres como um dos maiores desafios. É o grito dos pobres que a Igreja precisa ouvir para ser plena a sinodalidade defendida no programa reformador.

O Papa Francisco em diversas oportunidades tem manifestado grande preocupação coma nova cultura que está se formando. E nos coloca como desafio o desmascaramento das “táticas de cobra”, que são os produtores das fake News, manipuladoras que fomentam a desunião para servir a interesses políticos e econômicos. Ele se refere ao primeiro momento de queda do homem, ainda no Jardim do Éden, quando a serpente produziu a primeira notícia falsa, levando Adão e Eva ao pecado: “Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele (deste fruto) comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal”. Esconde-se aí a sedução traiçoeira e perigosa que se abre no coração do homem com argumentos falsos e atraentes. Francisco nos interroga: “sou um cristão que caminha na estrada da vida ou da mentira?” Como seria possível aplicar o dito do Evangelho de que “a verdade vos libertará?” Por outro lado, o consumo de notícias falsas é como comer fezes, nos alerta o papa.

Os cristãos entram nesse fim de ano no tempo do Advento, esperando o nascimento do Menino Deus. O Natal terá sentido verdadeiro se estiver inserido no contexto da verdade e não da mentira. A prática religiosa cristã no Brasil atual necessita de um profundo exame de consciência. Por este motivo, entendemos que o primeiro passo das reformas de Francisco passa necessariamente por um profundo e sincero “Ato Penitencial”. Somente assim podemos proferir “Bom Natal” aos quatro cantos da terra.

Autor: Prof. Dr. Edebrande Cavalieri

Graduado em Filosofia pela Faculdade Nossa Senhora Medianeira – São Paulo – (1976), curso livre de Teologia pelo ITESP (Instituto Teológico São Paulo), doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (2005) e Professor titular de Filosofia da UFES

 

Pentecostes: a linguagem da unidade

Todos desejam viver um bem comum, mas por muitas situações adversas não correspondem ao sonhado. São tantas visões decorrentes que o diferente se torna cada vez mais inválido. Se muitas reflexões existem e tudo é válido e permitido, não há mais uma realidade palpável a se fundamentar a trajetória humana. De fato, afirma Brüschke (2018) que “a verdade não é relativa, mas relacional – ou seja, ela é compreendida na relação dialógica.” Sem diálogo, não há comunhão, apenas divisões. Já diz o Papa Francisco (2018) para o 52º dia mundial das Comunicações Sociais: “No projeto de Deus, a comunicação humana é uma modalidade essencial para viver a comunhão.”

O acontecimento do Pentecostes impulsionou aos seus participantes a uma inimaginável experiência deste Pai. O Paráclito vem e provoca uma renovação indescritível para razões humanas. Mas esta presença não fora para um momento localizado apenas, mas para todos. A vinda do Espírito Santo gerou um conhecimento diferente. Um saber compreendido na perspectiva de um único falar. Já não há mais confusão! O Advogado prometido por Cristo (Cf. Jo 14,16) emana entendimento. Perceba: pela insensatez humana em amar criou-se uma “chaga” de divisão e agora, tal dor foi definitivamente curada. Assim, a manifestação do Espírito Santo promoveu a unidade na diversidade de carismas. “Mas tudo é realizado pelo mesmo e único Espírito, repartindo a cada um como ele quer” (1 Cor 12, 11).

A força santificadora da graça divina vem ao encontro daqueles que unidos em suas diferenças clamam ao Pai por uma verdadeira comunhão, tal proveniente apenas da fidelidade no seguimento ao mandato missionário de Jesus. Sendo fiel à ação do Espírito, cada um entenderá que seu dom criará uma única certeza: a linguagem do amor. Assim, mediante a promessa de Jesus, “e eu pedirei ao Pai que vos envie outro Valedor que esteja convosco sempre: o Espírito da verdade” (Jo 14, 16-17). Portando, com a certeza unificadora revelada pelo Defensor, não há mais um mundo de relativizações, mas o da presença amorosa do Ressuscitado e assim, “o missionário está convencido de que existe já, nas pessoas e nos povos, pela ação do Espírito, uma ânsia de conhecer a verdade acerca de Deus, do homem, do caminho que conduz à libertação do pecado e da morte”. (JOÃO PAULO II, 1990) O Intercessor gerará assim a unidade dita por Cristo e logo todos serão apenas um (Cf. Jo 17,21).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BÍBLIA DO PEREGRINO. Edição de estudo. Luís Alonso Schökel. Paulus, 2011

BRÜSCHKE, Klaus. Que pluralismo para o bem comum? Revista Cidade Nova, Ano LX, nº5, Maio 2018, p.9

FRANCISCO. A verdade vos tornará livres” (Jo 8, 32). Vaticano, 2018. Disponível de: <https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/messages/communications/documents/papa-francesco_20180124_messaggio-comunicazioni-sociali.html> Acesso em 18 Mai 2018 às 15h47

JOÃO PAULO II. Redemptoris missio. Vaticano.7 de dezembro de 1990, 45: AAS 83.

O NECESSÁRIO ESFORÇO PELA UNIDADE

Nesta semana que antecede a festa do grande Pentecostes, celebramos a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Não há tempo mais propício para tal celebração: Pentecostes foi a manifestação da Igreja a todos os povos, quando ela, imbuída da força do Espírito Santo, inicia a difusão do Evangelho (Cf. At 2,1-11). A Igreja manifesta naquela ocasião concretizava a união de todos os povos que, separados em Babel pela confusão das línguas (cf. Gn 11,1-9), se unem novamente na compreensão mútua de todos pela linguagem única da caridade, na pregação do Evangelho.

Professamos no credo niceno-constantinopolitano: “Cremos na Igreja una, santa, católica e apostólica”. São João ao relatar a ironia que se tornou profecia do sumo-sacerdote Caifás “que Jesus morreria pela nação”, o evangelista acrescenta uma explicação, dando-nos o verdadeiro sentido do sacrifício de Jesus: “e não só pela nação, mas também para congregar na unidade todos os filhos de Deus dispersos” (Jo 11,51-52).

Durante esta semana, o trecho do Evangelho que nos iluminou, na liturgia da Palavra, é a Oração Sacerdotal de Jesus (Jo 17), por meio da qual Jesus roga insistentemente ao Pai por esta unidade: que aquela mesma unidade que é a Trindade Santa, que esta seja a dos filhos e filhas de Deus –“paraque todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti” –; eque nós, os filhos e filhas de Deus unidos, também sejamosintroduzidos dentro do Seio da unidade perfeita da Trindade: “Que eles estejam em nós” (Jo 17,21)

Inspirados por estes textos do Evangelho desta semana, vemos o quanto é importante o vínculo da unidade. Mais do que uma pretensão humana, esta unidade faz parte do desígnio de Deus, isto é, do querer de Deus, para a nossa salvação. O Concílio Vaticano II define a Igreja como “sacramento da união íntima com Deus e da unidade de todo gênero humano” (Lumen Gentium 1). O Senhor Jesus inclusive condiciona a credibilidade do anúncio do Evangelho a esta unidade: “a fim de que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17,21).

Dentre as imagens da Igreja, a do Corpo de Cristo é a que melhor explicita esta sua dimensão sacramental, pois pela união emCristo em seu Corpo se realiza a união da humanidade entre si, congregando-se nele pessoas “de todas as nações, tribos, povos e línguas” (Ap 7,9).  E nesta humanidade unida entre si e no Seio da Trindade é o próprio Cristo, Deus feito homem, que se faz presente: “Quem vos recebe, a mim recebe” (Mt 10,40).

Esforçar-se pela unidade e pela comunhão é um dever de todo o cristão. Frente ao mundo repleto de divisões e discórdias, deveríamos ser, os cristãos, como uma luz do qual se irradia o pleno sentido do Evangelho: a unidade resultante da reconciliação de todos entre si e com Deus. Porém, quanto mais destacamos ou difundimos as divisões entre nós, mas vamos tornando ineficazes as nossas pregações e vazia a nossa evangelização.

A Igreja deve, portanto, orar e trabalhar sempre para reforçar e aperfeiçoar a unidade que Cristo tanto deseja e que o pecado humano feriu, conscientes de que a reconciliação numa só e única Igreja “ultrapassa as forças e capacidades humanas. Por isso depositamos a nossa confiança na oração de Cristo” (UR24).Na diversidade dos carismas que o Espírito Santo distribui a nós para o bem e utilidade de todos (cf. 1Cor 12,7), temos uma única missão: Anunciar o Evangelho e tornar Jesus e o amor do Pai conhecidos (cf.Jo 17,26). Para tal, que cada um se esforce para cumprir bem o seu chamado, e não deixemos de pedir ao Pai, unindo a nossa voz à prece de Jesus: “que todos sejam um” (Jo17,21).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BÍBLIA SAGRADA. Bíblia de Jerusalém. 1.ed. São Paulo: Paulus, 2002.

CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II (1962-1965).Lumen Gentium. In:______.Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965). 1. Ed. São Paulo: Paulus, 1997. P. 101-197. (Documentos da Igreja)

______. Unitatis Redintegratio. In:______. Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965). 1. Ed. São Paulo: Paulus, 1997. P. 215-240. (Documentos da Igreja)

Hospitalidade na Família: um Dom de Amor

A hospitalidade é uma característica pessoal que expressa concretamente uma compreensão amadurecida do Evangelho. Quando a hospitalidade, expressada no contexto familiar, a família torna-se um berço de acolhida, doação fraterna e de cuidado recíproco. Desta forma, a casa torna-se o local da partilha, onde todos colocam em comum suas riquezas e pobrezas, aumentando assim o sentimento de pertença ao círculo familiar.

A hospitalidade é um aspecto da dimensão humana que impulsiona para uma convivência aberta ao próximo. Ser aberto é assumir uma postura de saída de si para ir ao encontro do outro em suas alegrias, possibilidades e conquistas, mas sobretudo nas tristezas, misérias e carências. Assumir esta postura é colocar-se com total disponibilidade e gratuidade para com todos que se aproximam, necessitados de atenção, amparo e cuidado. A hospitalidade é uma virtude. É possível adquiri-la nas vivências cotidianas, a saber, nos gestos de carinho, na saudação cordial de bom dia no encontro pela manhã, na atitude afetuosa de despedida no fim do dia, no cultivo de relações solidárias em família, entre outros.

Jesus ensinou com gestos concretos como agir no trato com as pessoas, para que estas se sintam dignificadas como pessoa humana e desejosas de permanecerem no seio da família. Ao ser perguntado qual o maior dos mandamentos, Jesus respondeu: “Ame ao Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda tua alma e com todo o teu entendimento. Esse é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: Ame o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22, 37-40). Jesus coloca o amor como viés fundamental para uma vivência autêntica do Evangelho, seja no encontro pessoal com Deus, como no encontro comunitário. Aqui, o outro é a expressão daquilo que sou, pois, o outro é para mim uma oportunidade de amar.

A família é um espaço do crescimento e desenvolvimento afetivo. É cultivando círculos de relacionamentos fraternos no ambiente familiar que os laços familiares se formam e dão sustentação para uma vida em comunhão. Para tanto, é necessário ressaltar o papel a ser desempenhado por cada um, para que a família corresponda ao mandamento do amor ensinado por Jesus.  A mãe é o berço, na qual todos buscam o acolhimento em momentos de desolação. Colo quando a tristeza se faz presente por alguma decepção, ou mesmo por necessidade de abraço e afeto. Ela também é acolhedora, pois recebe a todos com generosidade encantadora e alegria maternal. O pai é protetor e acolhedor. Quando algum perigo ameaça tirar a paz ele protege cuidadosamente os seus. O patriarca é atencioso, quer dizer, escuta o desabafo, as conquistas e os desafios de cada um. Ele é um parceiro alegre e afetuoso. De poucas palavras em muitos casos, mas sempre com um coração humano e terno, impossível mensurar. Os filhos são a alegria dos pais. Na descontração buscam interagir com todos ao ponto de nada os conter. A infância é o momento das boas experiências, sendo tais essenciais para formação da personalidade da criança. Por isso não pode faltar, carinho, afeto, amor e paciência com os pequenos. Ao analisar a família em um contexto mais amplo o documento Amores Laetitia: sobre o amor na família do Papa Francisco, declara:

“O Núcleo familiar […] não deve isolar-se da família alargada, onde estão os pais, tios, os primos e até os vizinhos. Nesta família ampla, pode haver pessoas necessitadas de ajuda, ou pelo menos de companhia e gestos de carinho, ou haver grandes sofrimentos que precisam de conforto.” (2016 p.116)

Nas palavras do Papa, percebe-se uma preocupação com o ciclo de relacionamentos dentro do âmbito da família, afim de gerar redes de hospitalidade e cuidado mútuo entre os parentes.

A casa é o local do encontro fraterno, onde cada pessoa pode e deve colocar em comum, tudo aquilo que produz em sua vida, desde suas mais sofridas experiências nas labutas diárias, bem como suas vitórias, seja na profissão, na dimensão espiritual, no lazer ou em qualquer outra atividade que venha a realizar.  O lar é o espaço propício para viver plenamente a intimidade. É neste ambiente que a pessoa é capaz de despir-se plenamente das posturas rígidas e exigentes ditas pela cultura do mundo líquido moderno. Desta forma, o ambiente familiar é também um espaço de humanização, uma vez que a liberdade e a intimidade com o outro possibilita o contato direto com as realidades mais profundas de cada pessoa. É nesta relação íntima e aberta que os laços familiares se fortalecem e contagiam a todos.

A hospitalidade, quando vivenciada com total doação na família, deve abrir-se também para o convívio com a comunidade. Sendo assim, não pode faltar num lar hospitaleiro o acolhimento fraterno e solidário dos irmãos e irmãs que necessitam de caridade e amor. O filósofo Leonardo Boff, ao abordar o tema da acolhida, em sua obra “Virtudes para um outro Mundo Possível”, diz que:

“A acolhida não deve ser vivida como uma condenação por que não temos saída. Devemos viver a acolhida jovialmente como quem vê no outro um próximo, um companheiro de caminhada, um irmão e uma irmã, membros da grande família humana, […] reunida na mesma Casa Comum”. (2005, p.167)

Desta forma, a hospitalidade deve ser uma característica da família cristã. Tendo em vista que viver hospitaleiramente requer abertura, escuta, cuidado, partilha. Estas são virtudes que Jesus demonstrava quando em contato com as pessoas que a ele acorriam. Ele convida a cada um, a viver a acolhida fraterna, como um dom de amor e afirma, “Todas as vezes que fizerem isso a um dos menores dos meus irmãos, foi a mim que o fizeram” (Mt 25,40).

Referências Bibliográficas:

BÍBLIA. N. T. João. Bíblia Sagrada. Reed. Versão de José Luiz Gonzaga do Prado. São Paulo. Pastoral. 1990. V. 41, p.1210,1214.

FRANCISCO Papa. A vida na família em sentido amplo. Amores Laetitia: sobre o amor na família. 1ª ed. São Paulo. Paulus. 2016. p.116

BOFF Leonardo. Atitudes e comportamentos de hospitalidade: Acolher generosamente. Virtudes para um outro mundo possível, Vol. 1: Hospitalidade direitos e deveres de todos. 1ª ed. Petrópolis-RJ. Vozes. 2005. p.167.

Justiça Restaurativa: um modelo de Justiça com princípios humanizadores

Justiça Restaurativa: um modelo de Justiça com princípios humanizadores

Chegou em nossa Diocese o curso de Justiça Restaurativa. A dinâmica do curso é baseada na ESPERE (Escola de Perdão e Reconciliação). Já participaram pessoas que atuam nas Comunidades Eclesiais de Base, nas Pastorais e pessoas das diversas áreas do meio social, a saber: Assistentes Sociais, Conselheiros Tutelares, Psicólogos, Professores, Agentes Penitenciários e Servidores Públicos.

A Justiça Restaurativa é um modelo de justiça com princípios humanizadores. Em 1999 a ONU (Organização das Nações Unidas), reconheceu a sua importância como alternativa diferenciada à resolução de conflitos e meio possível à concórdia. Este importante órgão para a manutenção da paz no mundo, aprovou a resolução 1999/28, incentivando o desenvolvimento e a implementação da Justiça Restaurativa no Sistema de Justiça Criminal dos países, que fazem parte deste órgão. No que diz respeito a Justiça Criminal na Constituição Federal, percebe-se que as leis vigentes tem como pano de fundo uma tentativa de ressocialização dos apenados, mas na prática, ela não alcança sua finalidade.

O propósito da Justiça Restaurativa, é olhar agressor e vítima como partes de um conflito entre seres humanos e não como uma transgressão de regra ou de lei. Devido ao seu caráter restaurador, ela é chamada de “proposta de justiça humanizadora”.  Este modelo de justiça põe em evidência a pessoa humana; consequentemente, tanto o agressor quanto a vítima recebem atenção especial, isto é, são ouvidos e convidados a refletir sobre as causas e as consequências do conflito. Desta forma, quem causou o dano é levado a refletir sobre suas ações e a reparar os prejuízos causados. Por outro lado, a vítima tem a oportunidade de expressar sua dor.  SANTOS (2014, p.16) salienta o seguinte:

“A justiça restaurativa parte dos danos causados pela prática do delito, não do delito em si, na busca da restauração dos laços de relacionamento e confiabilidade social rompidos pela infração, mediante responsabilização dos indivíduos e reparação do mal provocado, seja material ou psicológico, assim como outras formas de sofrimento causado à vítima, sendo que ao longo desse processo a vítima ocupa uma posição especial, em relação àquela do sistema formal, qual seja, uma posição de destaque, em que suas necessidades, sentimentos e preocupações são levados em consideração, para que, ao final, todos envolvidos no conflito sintam-se satisfeitos, recuperando aquela relação anteriormente abalada pelo crime. Ao contrário da justiça penal tradicional, cuja preocupação central é a transgressão e a busca por culpados, o enfoque da justiça restaurativa reside nas consequências e danos advindos da prática infracional. Ao contrário do sistema de justiça baseado em leis, atribuição de culpa e punição, a justiça restaurativa tem como enfoque os danos, as necessidades e as obrigações.”

Na Escola de Perdão e Reconciliação (ESPERE), o participante é convidado a fazer o processo de perdão e reconciliação. Visto que, só é possível ajudar a outrem após passar pelo processo de restauração interior. A proposta do curso é levar o participante a entrar neste processo de cura interior através de atividades dentro do “grupo de confiança”.  Em seguida, trabalha-se diretamente com resolução de conflitos. Nas oficinas são ofertadas importantes ferramentas que auxiliam nesta atividade.

A Diocese de São Mateus tem capacitado seus agentes de pastorais, padres, seminaristas entre outros profissionais. Algumas turmas já foram formadas e os frutos deste trabalho, começam a aparecer. Os membros da Pastoral Carcerária que atuam no CDP (Centro de Detenção Provisório) e nos Presídios na Diocese, utilizam o conhecimento adquirido no curso em suas atividades pastorais. O reconhecimento do trabalho prestado junto ao CDP e Presídios é perceptível quanto ao retorno dos funcionários dos mesmos. Estes afirmam que os comportamentos dos internos melhoram consideravelmente após a visita dos agentes da pastoral.

Desta forma, compreende-se a Justiça Restaurativa como um modelo de justiça com princípios humanizadores. Este princípio faz a diferença na recuperação dos envolvidos. O texto da Campanha da Fraternidade 2018 (n.229 e 230, p.77) traz o seguinte:

“A Justiça Restaurativa é uma proposta concreta à situação de violência e desestruturação social à qual as pessoas privadas de liberdade são submetidas. Ela possibilita que a pessoa seja novamente acolhida e aceita em seu meio social, familiar e comunitário. Restaurar a pessoa significa também restaurar as suas relações, consigo, com seus familiares, com sua comunidade e principalmente com a família da vítima. A vivência dos princípios da justiça restaurativa é a base para o início de uma percepção das violências em si mesmo, pois a paz começa em cada um.”

Este novo modelo de justiça se destaca sobretudo por focar seu olhar no humano. Esta postura oferta grande possibilidade de recuperação e cura tanto da vítima quanto do ofensor. Ao analisarmos um determinado delito, notamos que existe um contexto que envolve toda a situação, e este nem sempre é considerado pela justiça tradicional. Em muitos casos analisados pela ótica da Justiça Restaurativa, chega-se a conclusão de que o próprio ofensor é no fundo uma vítima do sistema.

Isto posto, ressaltamos a importância deste projeto para a construção de uma sociedade mais justa e fraterna que corresponda ao mandato de Jesus, “[…] que todos seja um, como Tu, Pai, estás em mim e eu em ti. […] a fim de que o mundo acredite” (Jo 17,21). Só é possível construir um mundo voltado para a prática do amor quando olharmos para o irmão como um outro eu.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil / Campanha da Fraternidade 2018: Texto-Base. Brasília, Edições CNBB. 2017.
BÍBLIA. N. T. João. Bíblia Sagrada. Reed. Versão de José Luiz Gonzaga do Prado. São Paulo: Ed. Pastoral, 1990. V. 41, p. 1380.
SANTOS, Fernanda. Justiça restaurativa juvenil: justiça restaurativa e adolescente em conflito com a lei. Curitiba, 2014. Acesso de:< http://acervodigital.ufpr.br/bitstream/Handle/1884/37646/43.PDF?sequence=1> em 08 Fev. 2018

 

A violência da indiferença: refletindo a CF 2018

A violência da indiferença: refletindo a CF 2018

Em um mundo tão conectado de informações e acesso as mais diferentes possibilidades, o ser humano é atraído, seduzido e hipnotizado pelo ter. O desejo de possuir obrigou-o a estar numa condição diferente daquela outrora chamado a viver: “e Deus viu que era bom” (Gn 1,25). A beleza da Criação indicava o fato de tudo ser bom, mas num cintilar da história, a aliança do bom se quebrou. O mal penetrou o coração de um casal e enraizou-se por gerações. “Acaso sou guarda do meu irmão” (Gn 4,9). Tal alocução causou perturbações expressivas para toda a humanidade. O relacionamento dos irmãos encaminhou-se para rivalidade, ao invés da amabilidade. O homem foi indiferente ao seu semelhante. Caim esqueceu do “todo bom feito por Deus” e na sua mesquinhez quis se fazer Deus, não semelhante ao amor, mas ao poder. A autossuficiência faz o sangue de seu irmão ser sentido por Deus. Quando o homem se fecha ao mundo criado pela bondade, há exclusões. “Onde está teu irmão Abel?” Esta provocativa deverá impulsionar a cada cristão neste tempo quaresmal a ver nas práticas de Esmola, Jejum e Oração a situação do irmão, não simplesmente em dar a ele respostas momentâneas à realidade vivida, mas que possam ser gestos duradouros.

O ser humano é carente de esmolas, jejuns e orações. Ao longo de toda a vida ele precisa ser instigado a testemunhar com exemplos aquilo dito pelo Ungido de Jesus: amar! Tal prerrogativa incomoda a cultura da indiferença, pois obriga a cada indivíduo a sair da sua condição cômoda e sentir “na pele” as tristezas nem sempre mostradas com exatidão por alguns canais de comunicação. Quando Jesus dizia acerca da unidade, do amor, da fraternidade, ele mostrava da condição a que cada um é chamado a ser: “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8). Se o homem foi arbitrário com o projeto salvífico oferecido por Deus, tal permitiu no novo Adão a resposta para com a indiferença humana. O homem foi violento, mas na bondade divina, é possível recorrer a Deus: “Abba, Pai” (Gl 4,6). Logo, não há mais diferenças, todos são filhos, todos são herdeiros da vontade de Deus (Cf. Gl 4,7). O maior tesouro do ser humano é aquele contido em teu coração (Cf. Mt 6,21). Neste será possível dilatar a bondade e assim levar até aqueles mais carentes a misericórdia esquecida por muitos aos mais pequeninos do mundo.

A nossa prática nesta Quaresma nos permita viver o “despojamento do homem velho” para transformar as relações em “novas oportunidades de amar”. Ao ver a igualdade na obra criada pelo Pai reconheçamos nossa fraternidade enquanto irmãos que conduzidos durante a caminhada terrena, um dia poderemos contemplar da Páscoa particular a todos. Somos todos irmãos!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Bíblia Sagrada, tradução da CNBB, 7ª ed., 2008. (comentários bíblicos de Pe. Carlos Alberto Contieri);
Bíblia Sagrada, edição pastoral, PAULUS, 45ª ed., 2002;
CNBB. Conferência Nacional dos Bispos do Brasil/ Campanha da Fraternidade 2018: Texto-Base. Brasília, Edições CNBB. 2017