Arquivos

A ALEGRIA DO EVANGELHO PARA UMA IGREJA EM SAÍDA

A alegria do Evangelho para uma Igreja em saída

“Uma igreja fechada a si empobrece o mandato missionário deixado por Jesus”.

O ser humano sempre buscou meios para ter satisfações pessoais. Mas, no complicado processo de alcançar tais metas, infringiu limites, quebrou paradigmas e aniquilou o outro. Não respeitou o mínimo no seu semelhante e principalmente no diferente. A humanidade desprezou muito em não cuidar da natureza, das relações sociais, de sua história e logo, inúmeras foram as consequências. A tão sonhada “alegria” oferecida pelo mundo foi o oposto desejado por Deus.

Nunca se permitiu tanto meios para se ter uma felicidade. Mas qual? Esta momentânea, indiferente, pessoal, egoísta? As ferramentas tecnológicas tentam servir de esteios para garantir esta alegria, porém quando não são usadas para a promoção da vida passam a ser geradoras de uma cultura do descartável, passageiro e supérfluo. Segundo Aristóteles, “a felicidade não se encontra nos bens exteriores”, mas na condição inata do homem de querer o bem. A Campanha Missionária 2017 nos motiva a viver no hoje a alegria de ser missionário, indo até as periferias em que as “atuais felicidades” não conseguem chegar. A felicidade sonhada por Deus é para todos, não para um grupo restrito.

As ações das Pontifícias Obras Missionárias iniciadas em 1926 pelo Papa Pio XI nos impulsionam a sair do comodismo tão pregado atualmente, na perspectiva que tudo é permitido, segundo as vontades de cada um, mediante as suas necessidades particulares. Uma igreja fechada a si empobrece o mandato missionário deixado por Jesus (Cf. Mt 28,19) “Qual é o fundamento da missão? Qual é o coração da missão? Quais são as atitudes vitais da missão?”, questiona o Papa Francisco e diz: “A missão da Igreja é animada por uma espiritualidade de êxodo contínuo”. Trata-se de “sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho” (EG 20). (…) A missão adverte a Igreja de que não é fim em si mesma, mas instrumento e mediação do Reino”.

A missão é o rosto alegre de uma Igreja caridosa com seu povo. O Papa Francisco em “Amoris Laetitia” relata que “Se não alimentamos a nossa capacidade de rejubilar com o bem do outro, concentrando-nos sobretudo nas nossas próprias necessidades, condenamo-nos a viver com pouca alegria”. Portanto, a felicidade não é causa da ação do outro exclusivamente, mas do desejo de cada um em fazer diferente sua realidade social. Sendo assim, somente com esta alegria vinda do Senhor é que alcançaremos aquilo proposto pelo Mestre: salvar quem está perdido!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

A alegria do Evangelho. Disponível de: <http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html.
Acesso às 23h06, 15 Out 2017

Campanha Missionária 2017. http://www.pom.org.br/wp-content/uploads/2017/07/apresentacao-campanha-missionaria-2017.pdf
Acesso às 22h50, 15 Out 2017

Mensagem de sua Santidade Papa Francisco para o dia mundial das missões em 2016. Disponível de https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/messages/missions/documents/papa-francesco_20160515_giornata-missionaria2016.html
Acesso às 23h11, 15 Out 2017

O INDIVIDUALISMO CRISTÃO EM TEMPOS DE CRISES SOCIAIS

Cosme da Rocha
Seminarista e acadêmico do 2º período de Filosofia do Centro Universitário Católico de Vitória

Nem tudo pode ser vislumbrado como bom nos últimos momentos da história. Apesar de muitos avanços sociais, infelizmente políticas retrocedem aquilo que deveria ser o bem para o povo. Assim, como cuidar exige senso de boa conduta e administração (Cf. Jo 6, 10), Jesus convida a todos se sentarem, estarem no mesmo nível, a não haver diferenças – o cristão precisa conceber a cultura do comum.
Muitos gritos ecoam de muitas entidades que buscam promover um bem social, bem como a promoção de ideais de justiça e igualdade a todos. Permanecer inerte frente a tantas situações contra aos mais desfavorecidos da sociedade é uma grave realidade a que o ser humano adotou para si. O ignorar o ser do outro em detrimento dos interesses próprios mostra ainda como o velho homem impera sob a humanidade sonhada para o amor.
Os primeiros propagadores da fé (Cf. At 2, 42-47) inspiraram o desejo real da comunidade capaz de se abrir as angústias, dificuldades e mazelas dos mais pequenos. Quantos homens e mulheres são esquecidos, mutilados e negligenciados todos os dias! O Papa Francisco aponta isso na Laudato Si, nº 123:

 A cultura do relativismo é a mesma patologia que impele uma pessoa a aproveitar-se de outra e a tratá-la como mero objeto, obrigando-a a trabalhos forçados, ou reduzindo-a à escravidão por causa duma dívida. É a mesma lógica que leva à exploração sexual das crianças, ou ao abandono dos idosos que não servem os interesses próprios.

Tomar cuidado com estas realidades é necessário para o cristão. Este, quando não vê as disparidades contra o seu próximo é semelhante ao homem rico que na teoria sabia o tudo para se compor a fé, mas na prática, seu poder, suas riquezas, o distanciavam do outro, o mantinha cego perante a dor alheia. Porém, Jesus indica uma esperança, se “para os homens é impossível, não para Deus; tudo é possível para Deus” (Mc 10, 27). Afinal, todos caídos sob o julgo do pecado, todos perecem dos mesmos males, mas redimidos pelo amor daquele que amou a todos até o fim solicitou o mesmo: “Amai-vos uns aos outros, como eu vou amei: amai-vos assim uns aos outros.” (Jo 13, 34)
O Deus misericórdia não abandonou o seu povo, mas assim como o bom samaritano convidou o amor ao próximo independente de sua identidade, condição e aparato para promover o bem (cf. Lc 10, 25-37). O ato de agir para o bem enaltece a condição inata do ser humano num ideal que o mesmo carrega em si: de ser feliz. Ninguém consegue viver uma felicidade verdadeira distante do outro. A cada um foi dada uma felicidade única, ímpar.
O rompimento de tudo aquilo que impede a promoção da vida precisa ser tarefa contínua de todos na busca de uma sociedade melhor. O mundo carece de protagonistas capazes de fazer o bem. Todos precisam ser convocados a buscarem esta condição social capaz de dar esta tranquilidade e paz necessárias a todos os povos. Portanto, seja a crise superada pela unidade em meio as diferenças de cada indivíduo em prol da vida.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BÍBLIA DO PEREGRINO. Edição de estudo. Luís Alonso Schökel. Paulus, 2011
LAUDATO SI. Sobre o cuidado da casa comum. Carta Encíclica do Santo Padre Francisco. Diocese de Umuarama, 2015.

VOCAÇÃO: A PROPOSTA DE VIDA DE DEUS PARA A PESSOA

A Igreja nos propôs no mês de agosto meditarmos sobre as vocações. Esse tema de fato é muito importante para a caminhada cristã, e exige de cada pessoa a consciência de que se é um vocacionado, isto é, de que cada um é chamado por Deus a alguma coisa.

Na Bíblia, são paradigmáticos os chamados dos profetas. Cada profeta inicia a sua missão a partir de uma vocação, um chamado próprio e bem pessoal que recebe de Deus: é o caso de Moisés, Jeremias, Isaías, Amós, etc. Deus chama e indica uma missão. Vamos tomar o exemplo do profeta Jeremias e o belíssimo texto de sua vocação em Jr 1,4-10.
Digo que são paradigmáticos, porque servem de modelos para cada um de nós, batizados, seguidores de Jesus, como fonte de inspiração e também como um meio para que cada um também escute a voz de Deus que continua a nos falar e nos chamar através de sua Palavra.
Assim como Jeremias, somos chamados a acolher essa Palavra: “Antes de formar você no ventre da sua mãe, eu o conheci!” (1,5). Que maravilhoso é saber que não somos frutos do acaso, mas somos filhos e filhas de um Deus que nos quis. O Papa Francisco nos fala que “fomos concebidos no coração de Deus e, por isso, cada um de nós é o fruto de um pensamento de Deus. Cada um de nós é querido, cada um de nós é amado, cada um é necessário” (Laudato Si 65). Esse é o primeiro chamado que recebemos: a VOCAÇÃO À VIDA.
Seguindo a Palavra, nos é dito: “Antes que você fosse dado à luz, eu o consagrei” (1,5). Consagrar significa separar, escolher. Desde o princípio Deus já nos separou para Ele, para uma missão. Vemos que a iniciativa é toda de Deus, a nós cabe apenas a resposta. O segundo chamado nos vem no batismo, no qual a nossa eleição da parte de Deus é confirmada: é a nossa VOCAÇÃO CRISTÃ. Como batizados e batizadas, somos completamente envolvidos pela graça de Deus e nos tornamos seus filhos, “herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo” (Rm 8,17).
Recebemos a Vida, nos consagramos a Deus, mas para quê? “para fazer de você profeta das nações” (1,5). Fomos consagrados para uma grande missão. E como batizados, participamos da mesma unção de Cristo na qual somos constituídos como profetas, sacerdotes e reis. Em nossa reflexão, vamos nos dedicar à missão profética: A palavra profeta, em sua raiz antiga, desde o hebraico nabí significa “falar”; em latim, propheta significa “porta-voz”; Ou ainda do grego prophétes, “discursar em público”.
Muitos podem estar pensando: “Ah, mas eu não sei falar, como posso ser um profeta?” Nesse momento, o próprio Deus tem uma resposta, pois a mesma coisa Jeremias disse ao Senhor, conforme o versículo seguinte: “Ah, Senhor, eu não sei falar, porque sou jovem” (1,6). Essa é a nossa primeira tentação: fugir dos próximos chamados de Deus, por medo das exigências que esses chamados podem nos implicar. Jeremias também tentou fugir. Ele era um jovem do século VI a.C., o que nos indica que pelo visto as coisas não mudaram muito de lá pra cá. Enfim, seguindo o nosso itinerário, as próximas vocações são as chamadas VOCAÇÕES ESPECÍFICAS, que nos apontam a missão que Deus tem para cada um de nós na Igreja e no mundo.
As vocações específicas são quatro: VOCAÇÃO SACERDOTAL, à VIDA RELIGIOSA E CONSAGRADA, MATRIMONIAL e LEIGA.
Cada vocação específica implica em si um modo especial de falar e se relacionar com Deus, por isso, cada uma delas, exige do cristão o seu ministério profético, porquanto, o seu ministério de ser um “porta-voz de Deus”.
Poderíamos perguntar: mas essa não é uma missão específica dos sacerdotes, dos religiosos e religiosas e daqueles que vão pregar a Palavra de Deus? Não! Essa é a missão de todo o cristão, a partir do mandato missionário de Jesus: “Ide e fazei com que todos os povos se tornem meus discípulos!” (Mt 28,19). Porém a dimensão do falar está para além de ser apenas o discurso com palavras. Fala-se de muitas maneiras, e hoje em dia, na era da internet e da comunicação, os modos de falar se multiplicam com as redes sociais, TV, rádio, canais da internet… os nossos modos de ser e estar no mundo, e fala-se principalmente com a vida. O modo de viver a nossa vocação expressa o modo como falamos de Deus.
Qual a lição com tudo isso? Podemos falar de diversas formas. Falamos com nossos gestos, falamos com nossas atitudes, muito mais do que com as palavras. São Francisco de Assis dizia: “Evangelizar sempre, se preciso use palavras”. Evangelizamos primeiro com a nossa vida.
Rapidamente, olhemos para cada vocação específica, celebrada em cada domingo deste mês vocacional. A primeira é a VOCAÇÃO SACERDOTAL, para aqueles que são chamados ao sacramento da Ordem: diáconos, padres e bispos. Homens chamados a configurar-se a Cristo servo, pastor e cabeça da Igreja. No segundo domingo celebra-se o dia dos pais e, portanto, a VOCAÇÃO MATRIMONIAL, dos homens e mulheres chamados ao sacramento do Matrimônio, com a sua missão específica de formarem uma só carne, e colaborarem com o Senhor no seu projeto criador dando a vida e educando os novos filhos e filhas de Deus. No terceiro domingo celebramos a VOCAÇÃO RELIGIOSA CONSAGRADA, daqueles homens e mulheres que, pela consagração total a Deus através da vivência radical dos conselhos evangélicos: pobreza, obediência e castidade, se dedicam ao serviço dos irmãos e irmãs em um carisma específico. E por fim, no último domingo, celebramos a VOCAÇÃO LEIGA, daqueles homens e mulheres, casados ou não, que estão inseridos no mundo, na sociedade civil, no trabalho e nas nossas comunidades, para serem, nestes espaços, Sal e Luz (cf. Mt 6,13-16), santificando-os com o seu testemunho de vida.
Portanto, celebrar o mês vocacional, é celebrar propriamente a nossa vida, que desde o princípio, antes mesmo de nosso nascimento, já possui um desígnio próprio, marcado pelo Senhor, a fim de nos conduzir para a vida querida por Ele para cada um de nós, a vida em abundância (cf. Jo 10,10).
Ninguém está excluído da vocação, todos somos chamados a obedecer a Deus e seu desígnio para cada um: “Não diga ‘sou jovem’, porque você irá para aqueles a quem eu mandar e anunciará aquilo que eu ordenar. Não tenha medo deles, pois eu estou com você para protegê-lo”. (1,7-8).
Deus não apenas nos dá a missão, Ele nos faz uma promessa: “EU ESTOU CONTIGO!”
E aí, vamos nessa? Prontos para responder?

Meu primeiro “Dia do Padre”

Hoje tive um dia intenso. Graças a Deus. Intenso em atividades e qualidade. A liturgia hoje era uma espécie de chamado à contemplação: enxergar a mão de Deus que age no cotidiano da vida, para não se deixar vencer pela rotina ou pela mesmice. Acho que ser padre seja um pouco isso: contemplar os sinais da presença de Deus no cotidiano da vida – das outras pessoas e da minha própria. O extraordinário de Deus se dá no nosso cada dia ordinário.

 

Recebi neste dia uma enxurrada de belas mensagens – e até alguns presentes. Minha prece é para que minha presença seja também uma bela mensagem. Nem sempre é fácil. A gente é humano; tudo que é humano tem limite; tudo que é limitado pode falhar; toda falha pode levar a um fracasso; todo fracasso pode ser um desencanto ou uma oportunidade de se reinventar e começar de novo. Depende do olhar de cada um.

 

Uma coisa sempre ouvi e concordo: o padre é um homem de Deus. Uma coisa, porém, deve ser clara: “a graça supõe a natureza”, como dizia Sto. Tomás. Ou seja: Deus vai além de nós, mas conta conosco. É claro que uma vocação como o sacerdócio ministerial só se constrói e mantém pela misericórdia de Deus; mas se realiza em nós, pobres mortais. Pode o padre não ser perfeito, nem lá muito santo… mas é terra sagrada, morada de Deus, e sinal de Sua presença. É dom. É graça.

 

Sou um homem agradecido pela vocação que Deus me deu. Não sinto que a escolhi. Fui escolhido. É diferente. E não sei bem ainda para que, nem as consequências a que vão me levar tal chamado. Deixo que Deus me conduza. Isso me basta.

 

Agradeço aos meus amigos pelo apoio e oração de hoje e sempre. Que amadureçamos como suporte uns dos outros. E como escolhi para reger meu ministério: “rezem também por mim, para que a palavra seja posta em minha boca para que eu possa anunciar ousadamente o mistério do evangelho, como é minha obrigação” (cf. Ef 6,18-20). Deus abençoe a todos!
Fonte:

Homilia de Dom Paulo na Ordenação Episcopal de Dom Edivalter Andrade

DIOCESE DE SÃO MATEUS – 10 DE JUNHO DE 2017

HOMILIA: Ordenação Episcopal de Dom Edivalter Andrade.

– Excelentíssimos e Reverendíssimos Arcebispos e Bispos aqui presentes. Reverendíssimos e amados Presbíteros e Diáconos. Estimados Religiosos e Religiosas, Seminaristas, vocacionados e vocacionadas, autoridades constituídas ou representadas e todo povo santo de Deus aqui presente.

– No espírito do Ano Mariano e das Santas Missões Populares, pulsa forte o coração de nossa Igreja, principalmente a Igreja Particular de São Mateus e de Floriano Piauí, pela Ordenação Episcopal do nosso amigo e irmão Monsenhor Edivalter Andrade, que o saudamos alegremente, neste momento, juntamente com todos os seus familiares.

– No dia em que celebro o aniversário de 17 anos de Ordenação Presbiteral (por Dom Geraldo Lyrio Rocha), não somente eu, mas a Igreja recebe de Deus um grande presente: a ordenação Episcopal do Monsenhor Edivalter. E que presente! Um homem de fé, filho desta Diocese, grande conciliador e pastoralista. 27 anos de ministério presbiteral a serviço da Igreja (nesta Diocese amada de São Mateus). Atuando como: Vigário paroquial; administrador; Pároco; Coordenador Diocesano de Pastoral; Reitor do Seminário; Orientador Espiritual do Seminário; Diretor da Rádio Kairós; Ecônomo; Vigário Geral, etc,..

– Caríssimos irmãos e irmãs, consideremos atentamente o ministério que está sendo confiado na Igreja a este nosso Irmão Monsenhor Edivalter. Jesus Cristo enviou ao mundo os doze Apóstolos, cheios do Espírito Santo, para anunciarem o Evangelho, santificarem e conduzirem todos os povos, congregando-os num só rebanho. E para que este ministério continuasse até o fim dos tempos, os Apóstolos escolheram colaboradores, aos quais comunicaram o dom do Espírito Santo, recebido de Cristo, mediante a imposição das mãos, pela qual é conferida a plenitude do sacramento da Ordem. Assim, pela sucessão contínua dos Bispos, foi conservada, através das gerações, a tradição que vem desde o princípio e cresce até aos nossos dias.

– Monsenhor Edivalter nasceu, cresceu, foi chamado por Deus para uma vocação específica e exerce seu ministério nesta Igreja particular de São Mateus. Uma Igreja PROFÉTICA e missionária a serviço da vida. Ele amplia seu espírito de profetismo com o tema: NA TERNURA DE CRISTO, iluminado pela figura do Bom Pastor. Parabenizo-lhe pela sensibilidade e brilhante iluminação na escolha dos textos bíblicos, como fontes inspiradoras para sua ordenação e missão como sucessor dos Apóstolos. Textos que refletem não somente no cenário político, cultural ou religioso, mas em todos os cenários na arte do saber.

– Contemplemos o espírito de profeta e pastor na profecia de Ezequiel. No Antigo Testamento, os dirigentes do povo eram chamados pastores. Na comparação do profeta Ezequiel na primeira leitura, pastores são as autoridades públicas, o rebanho é o povo, que pertence exclusivamente a Deus. A função do pastor é cuidar do rebanho em todos os sentidos, principalmente defendê-lo dos lobos ferozes (maus pastores). O que acontece, porém? As autoridades públicas, em vez de cuidarem do povo, se preocupam exclusivamente com seus próprios interesses; em vez de servirem ao povo, elas o usam em proveito próprio; em vez de defenderem o rebanho, elas o entregam aos inimigos. Na visão do profeta Ezequiel, a ruína da nação é culpa exclusiva das autoridades que a governavam (Cf Ez 34,1-10).

– Quando o povo consegue se libertar das autoridades que dele abusam, consegue reconhecer que a verdadeira autoridade é o próprio Deus, que projeta liberdade e vida para todos. Desse modo, nasce um novo discernimento político e religioso: o povo aprende que só poderá construir uma sociedade justa e fraterna quando souber escolher governantes que façam do projeto de Deus o alicerce do seu próprio projeto (Ez 34,11-16).

– Diante de um sistema que oprime e mata, o profeta Ezequiel anuncia uma nova era de paz e prosperidade, e o evangelista João rele este capítulo e vê em Jesus a concretização do Deus Pastor e do Rei Pastor que liberta a humanidade e a reúne em um só rebanho (Jo 10). Porque ama.

– Jesus é o modelo de Pastor: ele não busca seus próprios interesses; ao contrário, ele dá a sua própria vida a todos aqueles que aceitam sua proposta. Jesus encanta multidões, mas também provoca divisão: para uns, suas palavras são loucuras; para outros, sua ação é sinal de libertação. É o verdadeiro Pastor que enfrenta os poderosos, acolhe, cuida, ama e dá a vida por suas ovelhas.

– O gesto mais belo do pastor é dar a vida por amor. Pastor e ovelhas têm uma relação vital, um não vive sem o outro. O pastor conhece suas ovelhas e elas o conhecem. Jesus conhece o Pai e o Pai conhece o Filho. É esta relação íntima e amorosa que Jesus estabelece conosco. “Só amamos aquilo que conhecemos” (São Tomás de Aquino).

– Ao redor da imagem do Pastor, em João 10,1-18, aparece também uma série de outras imagens conexas com a atuação do pastor e a vida das ovelhas. Imagens ou símbolos fortes que farão parte do ministério episcopal do Monsenhor Edivalter e da missão de cada um de nós. Podemos ser: a porta do redil, que significa comunicação, passagem, proteção, segurança, aconchego ou fechamento; o porteiro que controla; o estranho que as ovelhas não conhecem; o ladrão que rouba, mata e destrói; o mercenário que quando vê o lobo chegar, abandona as ovelhas e sai correndo; o pastor que sai à frente do rebanho para guiá-lo à pastagens seguras e luta para defendê-lo, etc,. Qual a identificação ou a missão do Bispo e de cada um de nós neste contexto?

– Parece-me que a história se repete. Monsenhor Edivalter, foi escolhido por Deus para esta nova missão dentro de um contexto social complexo, muito próximo ao que o profeta Ezequiel se destina, principalmente em nosso Brasil. Corrupção, desconfiança, desconforto nas relações interpessoais, espírito de vingança, roubos, injustiças, conflitos, desrespeito e falta de amor ao próximo, mortes, perda de tantos valores, etc,. Como atualizar a profecia de Ezequiel e iluminar esta situação?  Ou ainda, entre tantas vozes que ouvimos de todos os lados no mundo de hoje, como identificar a voz do verdadeiro Pastor Jesus Cristo que nos leva a vida?

– Independente da função que cada um exerce na vida, o primeiro passo fundamental é tornar-se ovelha obediente, identificar, conhecer a voz do Bom Pastor e segui-lo. O segundo passo é fazer a passagem de ovelha para pastor. Tornar-se também um bom pastor, amar e cuidar bem do outro.

– “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo10,10). Querido e amado Edivalter, seguindo os passos e ouvindo a voz do Bom Pastor, fizeste também a escolha pela vida. Ser um bom pastor, que além de sentir o cheiro de suas ovelhas, deve amar e cuidar bem de cada uma delas. Terá também como responsabilidade em teu múnus apostólico, a missão de criar ou fortalecer a consciência do povo, que para construir uma sociedade justa e fraterna, não basta simplesmente eliminar governantes injustos e substituí-los por governantes justos. A justiça deve penetrar todas as relações sociais e interpessoais, eliminando a exploração, a opressão e toda e qualquer forma de corrupção, independente da função que cada um exerce.

– Amado povo de Deus aqui presente, de modo especial os Presbíteros, Diáconos, religiosos(as) e todo povo da Diocese de Floriano, acolham com alegria e ação de graças este novo pastor, Monsenhor Edivalter, que nós, Bispos aqui presentes, mediante a imposição das mãos associamos ao colégio episcopal. Devem honrá-lo como ministro de Cristo e dispensador dos mistérios de Deus; pois a ele foi confiado testemunhar a verdade do Evangelho e o ministério do Espírito e da santidade. Lembrai-vos das palavras de Cristo aos Apóstolos: «Quem vos ouve, a Mim ouve; quem vos despreza, a Mim despreza, e quem Me despreza, despreza Aquele que Me enviou». Fiquem atentos à voz do novo pastor. Ouçam a sua voz e caminhem com ele. Mantenham acesa a reciprocidade de amor nas relações. Pastor e ovelhas caminhando juntos

– Quanto a ti, caríssimo irmão Monsenhor Edivalter, escolhido pelo Senhor, lembra-te que foste tirado dentre os seres humanos e colocado a serviço deles nas coisas de Deus. O episcopado é um serviço e não uma honra. O Bispo deve distinguir-se mais pelo serviço prestado que pelas honrarias recebidas. Conforme o preceito do Senhor, aquele que é maior, seja como o menor e aquele que preside, como o que serve.

– Na figura de pastor, com toda sensibilidade e experiência pastoral, proclama a palavra de Deus, quer agrade, quer desagrade. Exorta com paciência e desejo de ensinar. Na oração e no sacrifício oferecido pelo povo a ti confiado, procura alcançar copiosamente da plenitude do Cristo as riquezas da graça.

– Sabemos que a missão é árdua, porém ela se torna bela, quando estiver pautada no amor gratuito do mestre e Bom Pastor Jesus Cristo que acolhe, ama, cuida e dá a vida por suas ovelhas. NA TERNURA DE CRISTO e com ajuda dos presbíteros conseguirá: procurar a ovelha perdida, trazer de volta aquela que se desgarrar, curar as feridas daquela que se machucar, fortalecer a que estiver fraca, em meio aos conflitos construir ou incentivar a cultura de paz e lutar por uma sociedade justa e fraterna.

– Com amor de pai e de irmão, ama a todos aqueles que Deus te confiou. Ame e cuide bem de suas ovelhas, dos Diáconos, religiosos, religiosas, seminaristas, porém, mantenha um olhar atento e amoroso aos presbíteros, principalmente aos mais jovens, escolhidos e queridos aos olhos do Senhor.

“Como é importante que os jovens padres encontrem párocos e bispos que os encorajem e não apenas que os esperam porque há necessidade de mudar e de preencher lugares vazios. O coração de um jovem padre vive entre o entusiasmo dos primeiros projetos e a ânsia dos cansaços apostólicos, nos quais emerge um certo temor, que é sinal de sabedoria” (Papa Francisco 01/06/17).

– É necessário estabelecer com os presbíteros uma relação filial, com ênfase na dinâmica do cuidado. Pois, eles são teus colaboradores no serviço de Cristo. E entre vós está presente o próprio Jesus Cristo, Senhor e Pontífice eterno.

– Ama também os pobres e doentes, os peregrinos e imigrantes. Exorta os fiéis a colaborarem contigo na missão apostólica e não recuses ouvi-los de boa vontade. Mostra um zelo incansável pelos que ainda não pertencem ao rebanho de Cristo, como se fossem entregues a ti pelo próprio Cristo. Não te esqueças de que fazes parte do colégio dos Bispos no seio da Igreja universal unida pelo vínculo da caridade.

– Vela, pois, por todo o rebanho dos fiéis cujo serviço te coloca o Espírito Santo, para reger a Igreja de Deus: em nome do Pai, de quem és imagem entre os fiéis; em nome do Filho, cuja missão de mestre, sacerdote e pastor vais exercer; e em nome do Espírito Santo, que dá vida à Igreja de Cristo e fortalece a nossa fraqueza com a sua própria força.

– Em nome da Igreja, particularmente desta Diocese de São Mateus, que tanto amas, Deus seja louvado pelo teu sim e muito obrigado por tudo que fez por esta Diocese. Estamos felizes, porque sabemos que a nossa missão transcende um espaço geográfico e para onde vais, estará dando continuidade a tua missão, servindo a mesma Igreja de Cristo que tanto amamos. Por isso, as três recomendações que o Papa Francisco deixou a todos os sacerdotes, desejamos que ressoem como partes integrantes em teu ministério episcopal: “rezar sem parar, caminhar sempre e partilhar com o coração.”

– Que Nossa Senhora Aparecida Rainha e Padroeira do Brasil, São Mateus e São Pedro de Alcântara intercedam a Deus para que o teu ministério seja regado de amor e encanto, fecundo em bênçãos e graças. Assim seja. Amém!

Dom Paulo Bosi Dal´Bó

Bispo Diocesano.

Homilia de Dom Paulo na Missa dos Santos Óleos

MISSA DO SANTO CRISMA E RENOVAÇÃO DAS PROMESSAS SACERDOTAIS – Bênção dos Santos Óleos – Montanhas – 11/04/17

1) Excelentíssimo Dom Aldo, amados filhos Presbíteros, Religiosos e Religiosas, Seminaristas, autoridades constituídas e todo povo santo de Deus.

– O mesmo Espírito que gerou o Novo em Maria (Jesus), que gerou o novo na comunidade dos Apóstolos em Pentecostes, é o mesmo Espírito, que gera o novo em cada um de nós. O Espírito Santo ninguém vê, mas vemos a sua ação no mundo através de nossas ações.

– No espírito do Ano Mariano, celebramos a Missa de bênção dos santos óleos e também a renovação das promessas sacerdotais. 300 anos da aparição de Nossa Senhora Aparecida, rainha e padroeira do Brasil e também padroeira desta paróquia de Montanhas, que nos acolhe e celebra jubilosamente seus 60 anos de instalação e caminhada de fé, neste ano de 2017. Maria, mãe da Igreja

– Padre Zezinho em sua canção sobre Maria diz o seguinte: “Não és deusa, não és mais que Deus, mas depois de Jesus, o Senhor, neste mundo ninguém foi maior”. Depois de Jesus, Maria é quem ocupa o lugar mais elevado e ao mesmo tempo mais próximo de nós, onde temos a graça de honrá-la e intitulá-la como Maria, mãe de Jesus e nossa mãe. “Maria sempre foi uma porta aberta ao conhecimento de Jesus; é o modelo de seguimento de Cristo, dos valores humanos que marcam a identidade religiosa do povo” (Cardeal Damasceno). Maria marca também a identidade do presbítero. Por isso, mesmo sabendo que o presbítero age “in persona Christi”, gostaria de mencionar a importância de Maria no exercício de seu ministério.

2) MARIA E PRESBÍTERO, UMA ALIANÇA DE AMOR:

– Maria e presbítero se entrelaçam no seu jeito de amar e de acolher o chamado de Deus. O sim de Maria, “Eis aqui a serva do Senhorfaça-se em mim segundo a tua palavra”(Lc 1,38), também é o sim do presbítero ao chamado que o Senhor lhe fez, quando jovem e ainda hoje lhe faz: Eis aqui o servo do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.

– Acolhendo o chamado de Deus através de seu mensageiro (Anjo Gabriel), o presbítero também é convidado a gerar. Estar grávido. E no período da gestação já se coloca a caminho, inspirado nos passos de Maria, que sai apressadamente para o encontro solidário a sua prima Isabel. Um encontro agraciado de fecundidade que provoca alegria, encanto e não frustração ou medo.

– O período de saída e gestação, nove meses, pode ser associado ao período em que o jovem deixa a casa, a família, o emprego, o mundo, etc., para se encontrar consigo mesmo, com Deus e com o outro. Prepara-se para gerar o novo, cheio de surpresas, às vezes um universo desconhecido. Em outras palavras, são aproximadamente nove anos entre a preparação através dos encontros vocacionais, Propedêutico, Filosofia, Teologia e o estágio antes da Ordenação Diaconal e Presbiteral. É de fato um período de gestação. Uma gravidez pautada de cuidados, bem assistida e acompanhada, que possibilitará o nascimento de uma criança saudável. Ou seja, um bom presbítero.

– Para que a criança nasça saudável, cresça em graça, sabedoria e idade, são necessários  cumprir os preceitos do Senhor, fazer a experiência da casa, da família (independente da consanguinidade), entrar, estar e amar o Templo, como se ama a sua própria casa e se estende em toda a Igreja como a casa maior. A família de Nazaré fez isso. No processo de formação faz-se necessário, cortar o cordão umbilical, porém sem matar suas raízes.

A) O NASCIMENTO NEM SEMPRE ACONTECE DO JEITO QUE A GENTE QUER: O presbítero na relação com Maria não pode se frustrar, quando seus projetos ou iniciativas pastorais não derem certo ou não encontrarem um lugar adequado ou digno, para nascerem do jeito que ele quer. Lembre-se: “Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles dentro da casa” (Lc 2,7). Jesus nasce pobre, num curral, colocado num “coxo”, filho de uma família humilde e pobre, para cuidar e amar a todos, mas principalmente os pobres e excluídos. O presbítero deve ter a consciência em perceber, que do lugar onde não se espera, pode nascer algo encantador. Fazer-se pequeno e humilde na arte de nascer, amar e servir.

B) A EXPERIÊNCIA DOS MAIS EXPERIENTES FORMA OS NOVOS: Na pequenez de Maria, o jovem presbítero deve ter a humildade de se aproximar de Simeão, ou seja, dos mais experientes e permitir-se os toques necessários, para o amadurecimento humano e espiritual no exercício do seu ministério. Encarar estes toques como bênçãos, mesmo que, às vezes, possam trazer inquietações, dores e sofrimentos.Simeão os abençoou, e disse Maria,  mãe do  menino: Eis que  este  menino vai ser causa de queda elevação de muitos em  Israel. Ele será  um sinal  de contradição.  Quanto você, uma espada  de  atravessar-lhe a alma” (Lc 2,34-35). Este toque de Simeão foi fundamental para o amadurecimento de Maria, enquanto mãe, mulher e missionária. Aprendeu a lidar com as podas, as perdas, o martírio de forma mais amadurecida. Hoje, corremos o risco de errar por não saber dar ou receber o toque na hora certa. Jovens presbíteros, quando sentirem-se cansados ou sozinhos, lembrem-se de que sempre por perto existe um Simeão.

C) A ENERGIA POSITIVA DOS NOVOS PRESBITEROS REENCANTAM OS MAIS EXPERIENTES. O “Presbítero Simeão” (mais experiente) é aquele que reconhece, que ninguém toma o lugar de ninguém. O novo presbítero chega para somar forças e não para ser concorrente. A energia positiva que brota da motivação e encanto do novo presbítero, deve levar o mais experiente a se reencantar, aprimorar suas forças, motivacionar o exercício do seu ministério. Espera-se que com a chegada do novo, o presbítero mais experiente não se acomode e nem diga o que o velho Simeão proclamou: “Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar o teu servo partir em paz”…(Lc 2,29). Não se trata de uma despedida ou acomodação, porque o novo chegou, trata-se do reconhecimento, que é mais um que chega e recebe de Deus o dom de comunicar a vida. O “presbítero Simeão” é aquele que toma o mais novo nos braços, abençoa-o, se faz próximo, louva ao Senhor por sua chegada e assume com responsabilidade, maturidade e capacidade de dar o toque na hora certa, àquele que chega. O presbítero em relação com Maria fica maravilhado com a dinâmica do encontro.

D) Outra virtude importante nessa relação; SILENCIAR PARA MELHOR SERVIR: Quando os pastores contaram o que o anjo lhes anunciara sobre o menino Jesus, Maria conservava todos os fatos em seu coração e meditava sobre eles, silenciosamente. Em função da dinâmica pastoral é quase impossível tirar tempo, para silenciar o coração. O presbítero também é homem do silêncio. Evangeliza e comunica a através da escuta. O ser humano geralmente é um ser falante. Quer falar o tempo todo e não tira tempo para ouvir, para silenciar… Tem receio de ouvir, pois estar aberto à dinâmica do ouvir, corre-se o risco de ouvir aquilo que deseja, mas também aquilo que não gostaria de ouvir. Saber ouvir, é silenciar-se e nem sempre o silêncio é algo confortável. Tira a pessoa da área de conforto. Meche com sentimentos ocultos. Sentimentos, às vezes, prazerosos, porém muitas vezes desconfortáveis. Quem aprende a ouvir e silenciar, aprende a comunicar a vida sem agredir. Em muitas situações na vida do presbítero o silencio é a melhor resposta. Faça a experiência do silêncio e saboreie o resultado. Não se esqueça de que o silêncio, também é um grande veículo de comunicação e evangelização.

E) Outro aspecto considerável na relação com Maria; RETIRAR-SE PARA SE FORTALECER, disse o anjo: “José levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito! Fica lá até que eu te avise! Porque Herodes vai procurar o menino, para matá-lo” (Mt 2,13).

– No corre – corre da vida, o presbítero deve saber a hora certa de se retirar. A fuga do Egito é necessária para o presbítero de hoje. Não fugir por medo ou insegurança, mas se preparar melhor, para enfrentar os Herodes do mundo moderno. A corrupção política, o desemprego, as drogas, a violência, o desrespeito ao ser humano e outros. Caminhar na contra- mão ou em ventos contrários, exige do presbítero e de cada um de nós um esforço contínuo de reconhecer, que se retirar para o deserto interior é necessário e produtivo no campo da preparação. Se não tomarmos cuidado, os Herodes dos tempos atuais matam Jesus e seu Evangelho, matam o presbítero e os que são evangelizados por ele. O presbítero precisa aprender a tirar tempo, para cuidar-se melhor.

F) PAIS ATENTOS E CUIDADOSOS COM OS FILHOS: Na figura de Maria acompanhada de José, o presbítero no papel de pai espiritual, deve estar sempre motivado para a festa da Páscoa. Estar com os filhos no Templo e na missão, porém com um olhar atento, para que eles não se percam. Quando isso acontecer, saber voltar atrás e aprender a procurar os filhos quando se perdem. Alegrar-se, quando os encontrarem mesmo sem saber os reais motivos, que os levaram a se perder. Maria e José não compreenderam o que Jesus lhes dissera, quando estava na casa de seu Pai. Lembrem-se: alguns filhos poderão estar no Templo entre os “doutores”, ouvindo-os e fazendo perguntas, assim como fez Jesus, mas outros poderão estar em universos desconhecidos e sofrendo amargamente com a ausência do pai. Por diversas vezes, o presbítero deve ser também pai dos pais. Muitos pais têm a sorte de Maria e José, ao encontrarem seus filhos sãos e salvos, porém muitos choram amargamente, por perderem seus filhos em caminhos sem volta. Querido presbítero, cuide dos filhos e filhas como verdadeiro pai. A missão do presbítero como pai é fazer-se próximo. Lembre-se: O verdadeiro pai não é simplesmente aquele que gera, mas sim, aquele que ama e cuida.

G) ALÉM DE PAI O PRESBÍTERO TAMBÉM É FILHO. Sendo filho, é convidado por sua Mãe Maria a fazer tudo o que Jesus disser. Renovar a cada dia sua aliança de amor com o Pai e levar os fiéis a fazerem o mesmo. Estabelecer com os irmãos e irmãs uma relação de amor (de casamento), de família, de confiança, de cuidado, cumplicidade e entrega. Somente quem ama, obedece. Amado filho presbítero, quando falta vinho, Maria vê a necessidade e intercede pelo seu povo. Mas também é obediente, dizendo: Fazei tudo o que Ele vos disser. Maria, presente em Caná, intercede em favor dos noivos e dos convidados à festa. Sem Maria, o vinho faltaria e não haveria nem festa e nem alegria. Sem Maria, não estaríamos aqui hoje, celebrando o Mistério Maior nesta missa de bênçãos dos santos óleos e renovação das promessas sacerdotais. Querido presbítero, seja obediente a Jesus, sem perder a sua relação filial com Maria. Procure estar atento, para que todos entrem na festa e não venha a faltar vinho (vida) aos convidados.

H) MARIA E PRESBÍTERO, UMA OFERTA DE AMOR. O presbítero na relação com Maria aprende a ofertar-se. Aos pés da cruz, Maria faz a grande oferta de amor, entregando seu Filho como graça e dom a toda humanidade. No Altar da cruz, o próprio Jesus se faz oferenda. Entrega-se por amor a humanidade, porque ama. No Altar da cruz, nos tornamos filhos amados no Filho Jesus, que ama até as últimas consequências. “Jesus, ao ver sua mãe e ao lado dela, o discípulo que ele amava, disse à mãe: Mulher, este é o teu filho. Depois disse ao discípulo: Esta é a tua mãe. Daquela hora em diante, o discípulo a acolheu consigo” (Jo 19,26-27). – Amado presbítero, lembra do toque precioso que Simeão fez a Maria? “Quanto a você, Maria, uma espada  de  atravessar-lhe a alma” (Lc 2,35). Além de ter sido agraciada pelo chamado, que Deus lhe fez, Maria contou com a presença e apoio de quem ama e se faz próximo. Aprendeu desde cedo a contemplar a beleza do chamado, mas também se preparar para a complexidade da missão. Os toques necessários, no tempo certo, fizeram com que Maria encarasse de pé, de forma amadurecida, sua missão de mãe, mulher e missionária. FOI DE PÉ, AOS PÉS DA CRUZ, na hora do maior sofrimento, que Maria fez a grande oferta de amor e acolheu a humanidade como sua filha. Assim, a Cruz como que uma Cátedra ou Altar serviu de apoio, para que o próprio Jesus expressasse as Palavras que legitimariam sua Mãe Maria, como Mãe de toda a humanidade. No exercício do seu ministério, unido a Jesus e a Mãe Maria, na dor ou na alegria, o presbítero é convidado a ofertar-se. Entregar-se por inteiro, porque ama.  Consciente da complexidade da missão, manter-se de pé, procurar fazer de sua vida e do seu ministério um Altar de amor e oferenda, sem perder o encanto e alegria de servir. Amado filho presbítero, além de Jesus, leve também Maria com todos os seus filhos e filhas para sua casa, para o seu coração, para sua vida e seu ministério. Acolhimento e doação são cântaros de amor.

I) COM MARIA TRANSFORMADOS PELO AMOR E POR AMOR. Se o presbítero mantém com Maria uma aliança de amor, ele também ama, se apaixona por Jesus e permite ser amado. Ama a Igreja mãe com todos seus filhos e filhas, ama o seu irmão presbítero, ama o seu ministério e tudo que faz, porque é transformado pelo amor e por amor. Foi escolhido e chamado por amor, para amar e servir.

– Da mesma forma que um homem e uma mulher não deixam de falar de sua paixão, quando estão apaixonados, um padre apaixonado por Jesus e pelo próximo, se deixa notar. “Quando um sacerdote é apaixonado por Jesus se nota, se reconhece, se vê esse amor, que é transmitido constantemente” (Papa Francisco).

– Amado filho presbítero, tire tempo para Jesus. Não basta simplesmente contemplar Jesus, é preciso que você se deixe contemplar por Ele. “Às vezes essa pode ser uma tarefa difícil, quando os presbíteros estão cansados, com problemas, de forma que podem até acabar cochilando diante do Sacrário. Mas nesses momentos, Deus olha para eles como um pai, que olha para o filho dormindo. Se você dorme diante do Santíssimo, não se preocupe, mas vá até o Tabernáculo, não deixe de ir. Ali vais encontrar o amor. O amor que transforma e contagia” (Papa Francisco).

– Querido presbítero, nesta missa dos santos óleos e renovação das promessas sacerdotais, procure se reencantar, voltar ao primeiro amor, renovar as forças e seguir firme no anúncio do Evangelho. Deus lhe escolheu, porque ama e hoje está convidando-lhe a abrir o livro do profeta Isaías, encontrar o programa da atividade de Jesus e também proclamar:

“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor.” (Lucas 4,16-21).

J) PAI HUMANO: PERFEITO OU IMPERFEITO?

– Queridos religiosos, religiosas, seminaristas, leigos e leigas, independente da função ou opção de vida   que cada um venha a escolher, não existem seres humanos perfeitos, por isso sejam humanos e ajudem os presbíteros a serem mais humanos. Quanto mais humanos formos, mais próximos da divindade estaremos. Sejam amigos e parceiros dos seus presbíteros e não inimigos. Quando errarem, sejam humanos no jeito de acolher, sejam misericordiosos, não julguem, caminhem juntos… Tomem consciência das obrigações, que têm para com eles. Procurem dedicar filial amor, como pais e pastores de vocês. Tomem parte nas suas preocupações, auxiliem-nos quanto lhes for possível, com orações e obras, para que eles melhor possam vencer as dificuldades e cumprir mais frutuosamente os seus deveres (Cf. PD 9). Cuidem, para que os presbíteros e o bispo não venham a adoecer psíquico, emocional, físico e espiritualmente. Sejam colaboradores, na arte de acolher e amar.

– Que Maria mãe de Jesus e nossa mãe, intitulada nesta paróquia, como Nossa Senhora Aparecida, fortaleça nossa aliança de amor e interceda a Deus por nós! Amém!

Dom Paulo Bosi Dal´Bó

Bispo Diocesano

 

 

 

Vivendo a espiritualidade da Semana Santa

Jonathan Costa Rocha

A Semana Santa é assim chamada porque nela se celebra os momentos mais importantes da nossa salvação. Em síntese, Jo 3,16-17 apresenta: “Pois Deus amou tanto o mundo, que entregou seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus não enviou o Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele”. Com sua entrega Jesus santificou esta semana por cada um de nós, e, quanto a nós, devemos santificá-la com nosso compromisso de Cristão.

O Domingo de Ramos marca o início dessa grande semana, e nele temos a entrada de Jesus em Jerusalém aclamado Rei por uma multidão irradiante de alegria. Estendem seus mantos, agitam os ramos que têm nas mãos e soltam gritos de louvor: “Bendito aquele que vem, o Rei, em nome do Senhor! Paz no céu e glória no mais alto dos céus!” (Lc 19,38). Na celebração de Ramos e da Paixão do Senhor, no dia 24 de março de 2013, o Papa Francisco em sua homilia, na Praça de São Pedro, fala aos fiéis presentes desse clima de alegria manifestada pela multidão com a entrada de Jesus em Jerusalém. Mas, o Santo Padre apresenta alguns questionamentos que nos ajudam a vivência e fortalecer nossa espiritualidade para a Semana Santa. Assim fala o Papa:

Para que entra Jesus em Jerusalém? Ou talvez melhor: Como entra Jesus em Jerusalém?
A multidão aclama-O como Rei. E Ele não se opõe, não a manda calar (cf. Lc 19, 39-40). Mas, que tipo de Rei seria Jesus?

[…] Quem O acolhe são pessoas humildes, simples, que possuem um sentido para ver em  Jesus algo mais; têm o sentido da fé que diz: Este é o Salvador. Jesus não entra na  Cidade Santa, para receber as honras reservadas aos reis terrenos, […] entra para receber uma coroa de espinhos, […] para subir ao Calvário carregado com um madeiro. […] Jesus entra em Jerusalém para morrer na Cruz.

E é precisamente aqui que refulge o seu ser Rei segundo Deus: o seu trono real é o madeiro da Cruz!

[…] Porquê a Cruz? Porque Jesus toma sobre Si o mal, a sujeira, o pecado do mundo, […] e lava-o; lava-o com o seu sangue, com a misericórdia, com o amor de Deus. […] na cruz, Jesus sente todo o peso do mal e, com a força do 
amor de Deus, vence-o, derrota- o na sua ressurreição. 

Este é o bem que Jesus realiza por todos nós sobre o trono da Cruz.
Abraçada com amor, a cruz de Cristo nunca leva à tristeza, mas à alegria, à alegria 

de sermos salvos e de realizarmos um bocadinho daquilo que Ele fez 
no dia da sua morte.

No tempo intermediário entre o Domingo de Ramos e o Tríduo Pascal, a liturgia da segunda, terça e quarta-feira santa, apresenta preciosos textos bíblicos e orações que nos introduzem, aos poucos, no mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo. Além da celebração eucarística, a Igreja, conforme a possibilidade, oferece aos fiéis o acesso à confissão sacramental.

A religiosidade popular criou uma série de atos de piedade ao longo da Semana Santa que não constam na liturgia, sobretudo as procissões. A liturgia prevê apenas a procissão de Domingo de Ramos, a pequena procissão do Santíssimo na quinta-feira Santa para o local fora da Igreja onde permanece em adoração e a procissão com o Círio aceso na Vigília Pascal. Mas, duas coisas são importantes: primeiro, o respeito pela piedade popular que não entendia as cerimônias da Semana Santa e a partir daí foram surgindo expressões populares de piedade, de fé e de compaixão; segundo, insistência no essencial, ou seja, a liturgia da Igreja. E, dentro de todo esse tempo, a Ressurreição é o grande farol que nos guia.

O Tríduo Pascal é o centro e o cume do Ano Litúrgico. Começa com a Missa da Ceia do Senhor na Quinta-feira Santa, tem seu ponto alto na Vigília Pascal e termina no entardecer do Domingo da Ressurreição. Na Quinta-feira Santa há o rito do Lava-pés, a Instituição da Eucaristia e do Sacerdócio que manifesta a unidade com o único Sacerdócio de Cristo, (cf. Jo 13,1-5.12-15). A missa não termina neste dia; em lugar dos ritos finais, faz-se a Transladação do Santíssimo Sacramento e a adoração. Momento convidativo para um profundo encontro pessoal com o Cristo Sacramentado.

Na Sexta-feira Santa, seguindo uma tradição muito antiga, não há Celebração Eucarística, mas põe em destaque a proclamação da Palavra. Em seguida, às 15h, nas Igrejas, celebra-se a Paixão do Senhor, não como num funeral, e sim, a morte vitoriosa de Jesus Cristo. (cf. Jo 19,28-30). Porém, antes de sua morte Jesus sofreu e sua maior dor foi quando gritou na cruz: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” (Mt 27,46; Mc 15,34). Chiara Lubich[1], em seu livro “Jesus Abandonado” (p. 28-29) ao falar da maior dor, acredita que esta, a dor do abandono, foi a dor extrema. Assim, ela convida a uma espiritualidade que possibilita experimentar justamente o amor a esse Jesus Crucificado e abandonado como possibilidade para colocar em prática a unidade.

No Sábado Santo temos a Vigília Pascal, mas durante o dia, vê-se na figura de Maria, a hora em que ela, mais uma vez, haverá de guardar “todas essas coisas, meditando em seu coração”. Por isso, mais que um luto em torno da morte de Jesus, somos convidados a nos preparar para o que virá com grande explosão de júbilo, na noite santa da Vigília Pascal: a ressurreição do Senhor. É celebrada depois do anoitecer do Sábado Santo e antes do amanhecer do Domingo da Ressurreição. É chamada por Santo Agostinho de “a mãe de todas as vigílias”, e nela a Igreja espera, velando, a Ressureição do Senhor. O sepulcro é encontrado vazio (cf. Mt 28,1-10; Jo 20,1-18)

Por fim, temos a Páscoa do Senhor. Páscoa em hebraico significa “passagem”. É a festa mais importante do povo judeu e o eixo central da fé cristã. Sem ela não existe Ano Litúrgico. A nossa Páscoa nasceu da Páscoa judaica, é, portanto, a passagem da escravidão à liberdade, da morte à vida. Ela é celebrada de modo intenso na Semana Santa e Domingo de Páscoa, sendo esse celebrado igualmente em todas as missas. A morte de cada pessoa é sua Páscoa, a passagem deste mundo para o Pai. A Páscoa é vitória da vida sobre a morte. São Paulo em 1Cor 5,7-8 nos convida a vivenciá-la com novo fermento, afim de que seja a vitória de Jesus e também a nossa. Ele é o primogênito de uma grande família, a humanidade. Abriu-nos a porta da ressurreição e da imortalidade. Por isso, toda a liturgia do dia da Páscoa está centrada na pessoa de Jesus Cristo,“o ressuscitado”.

 

Referências:

BORTOLINE, Pe. José. Quaresma, Páscoa e Pentecostes: 62 perguntas e respostas sobre o ciclo da Páscoa. 6º ed. São Paulo: PAULUS, 2011.

Quaresma e Páscoa: como celebrar?. 1º ed. São Paulo: PAULUS, 2014.

Celebração do Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, Homilia do santo padre Francisco. Disponível em:
http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/homilies/2013/documents/papa-francesco_20130324_palme.html

LUBICH, Chiara. Jesus Abandonado. Vargem Grande Paulista, SP: Cidade Nova, 2016.

[1] Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares. Este, surgiu na Itália durante o período da Segunda Guerra Mundia e tem como carisma a Unidade, baseado no pedido de Jesus “Que todos sejam um” (Jo 17,21).

Exercícios que reconciliam

Por Dener Evangelista Barbosa de Sales

Estamos no tempo Quaresmal. Esse tempo é um grande retiro que a Igreja nos propõe, assim como fez Jesus ao jejuar quarenta dias no deserto se preparando para a sua missão. Todo mundo precisa fazer retiro na vida: parar um pouco a sua correria do dia a dia e rever, reavaliar e realinhar a própria existência. Por isso, a fé nunca anda desligada da vida, e no ritmo do tempo a Igreja vai nos propondo esses momentos para que, acompanhando a vida de Jesus, nós nos reajustemos também como cristãos. Sabemos que o pecado rompe com a comunhão original estabelecida por Deus: rompe a comunhão com Deus, com os irmãos, comigo mesmo e com a natureza. Nesse tempo, então, somos chamados à Conversão, isto é, a transformar a nossa vida, deixando de lado atitudes ruins que costumamos ter, em vista de reestabelecermos a comunhão rompida. Mas enfim, como ninguém muda de vida de uma hora para outra, para nos ajudar nesse processo de conversão a Igreja nos propõe os exercícios quaresmais do Jejum, da caridade e da oração.

Como a própria palavra já nos sugere, são exercícios e exigem de nós um esforço pessoal e penitencial. O primeiro é o do Jejum: esse exercício me faz entrar em contato comigo mesmo, fortalecendo o meu espírito para vencer as tentações e “maus costumes” da vida. Ele é um exercício de renúncia dos próprios desejos carnais do alimento, mas podemos fazê-lo também em relação a coisas ou atitudes às quais temos certo tipo de apego, para nos purificarmos e nos libertarmos desses apegos. “Acaso o jejum que me agrada não é outro: […] romper com todo tipo de escravidão?” (Isaías 58, 6).

O segundo exercício é o da caridade: com ele somos chamados a nos aproximarmos uns dos outros, rompendo as barreiras dos preconceitos e discriminações, e tendo a sensibilidade de tocar a carne do nosso irmão que sofre com fome, com sede, sem casa, sem roupa, doente, preso ou morto. Mas por que devemos fazer isso? Devemos fazer isso, pois só amaremos de verdade a Jesus, se amarmos essas pessoas, tendo coragem de socorrê-las em suas necessidades, pois nos disse Jesus: “Cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mateus 25,40). Significativa também a expressão de são João da Cruz: “No entardecer da nossa vida seremos julgados pelo amor”.

E por fim o exercício da Oração que me leva a aproximar-me de Deus. Quanto à oração, não são as muitas palavras que fazem dela uma oração eficaz. O que torna uma oração eficaz é a intimidade que eu crio com Deus a partir dela. “Pedi e vos será dado; buscai e achareis; batei e vos será aberto. E o Pai do céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem!” (Lucas 11,9.13).

E particularmente no Brasil temos a Campanha da Fraternidade que sempre nos vem como um apelo a uma conversão social. Talvez hoje um dos apelos mais fortes pela nossa conversão seja em relação ao cuidado com a natureza. Precisamos ouvir a voz de Deus nos grita: CONVERTEI-VOS! Meus irmãos, se não nos arrependermos de nossos pecados contra o meio ambiente, não fizermos penitência e mudarmos nossas atitudes, seremos destruídos por nosso próprio egoísmo. Que a reflexão sobre o tema “Fraternidade e biomas brasileiros e defesa a vida”, desperte a nossa solidariedade de fiéis e de sociedade, para romper as barreiras do egoísmo e redescobrirmos juntos a nossa missão de “cultivar e guardar a criação” (Gênesis 2,15).

A quaresma, portanto, é esse tempo privilegiado de esperança na nossa reconciliação com Deus, com os irmãos, consigo mesmo e com a natureza. Que os exercícios quaresmais perseverantes nestes quarenta dias transformem a nossa vida, para que, como pessoas e comunidades renovadas, exultemos de alegria com o Cristo Ressuscitado na Páscoa.

“SÓ A JUSTIÇA GERA PAZ!”

Por: Dener Evangelista Barbosa de Sales
Seminarista

“Eu vos deixo a paz; eu vos dou minha paz. Não a dou como o mundo dá. Que vosso coração não se perturbe nem tenha medo.” Jo 14,27

Como temos vivido nestes últimos dias, a falta de segurança pública gerou em nosso Estado do Espírito Santo um caos terrível: A população ficou refém do medo, centenas de vida foram ceifadas, assaltos, saques e muitos prejuízos. O clamor que brota desse momento não é outro senão o de PAZ.

Mas que paz é essa que tanto sonhamos e estamos buscando? É verdadeiramente paz, ou apenas normalidade da ordem?

Infelizmente a falta de policiamento nas ruas desvelou uma triste realidade: não há paz! Nós não estamos preparados para viver sem um vigia. As pessoas agiram como crianças a espera da saída dos pais para poderem descumprir as ordens por eles estabelecidas. É triste, mas não havia paz em nosso Estado, e nem haverá com o retorno do policiamento e das forças militares. O que há na verdade é uma normalidade da ordem gerada pela força das armas.

Não quero aqui desmerecer as forças militares. Na verdade, reafirmo a sua necessidade. Nós precisamos da segurança que eles nos garantem. Eles, na verdade, nos protegem de nós mesmos. Sob a coação das armas, mantemos boa parte da nossa maldade presa dentro de nós.

Nestes tempos conturbados, é momento de voltarmo-nos para Deus e buscarmos n’Ele a esperança. Jesus nos diz: “Eu vos deixo a paz! Eu vos dou a minha paz” (Mc 14,27). A paz que vem de Deus não é como a paz do mundo, e bendito seja Deus, por isso.

A paz que o mundo pode nos dar é simplesmente a normalidade da ordem, simplesmente a ausência de guerra – todavia também são aspectos importantes – mas essa é apenas uma paz de fachada, uma paz silenciosa, conformista e que, tristemente, muitos de nós cristãos aceitamos como a verdadeira paz. Sobre isso, se expressa bem a música “Minha Alma” da banda O Rappa: “Pois paz sem voz não é paz, é medo!”. A paz coagida pelas armas, não é paz! E que triste ver cristãos defendendo o armamento civil, quando o próprio Jesus, no momento da sua prisão, grita a Pedro: “Guarda tua espada na bainha” (Jo 18,11).

“A paz é fruto da justiça” (Is 32,17). Esta é verdadeira paz, a paz que vem de Deus, que não é a paz fruto do silêncio dos empobrecidos e injustiçados, mas a paz fruto da justiça social, fruto do alimento e salário digno para todos (inclusive para os PM’s que fazem a nossa segurança), fruto do acesso à saúde e educação de qualidade, fruto da distribuição equitativa de renda e do acesso a terra. Essa é a paz que atinge todos os cantos da cidade e do campo. Não é a paz encerrada apenas sob a cerca elétrica dos condomínios, mas uma paz que consegue atingir todas as ruas da periferia, tanto literal quanto às periferias existenciais. Esta é a paz que vem de uma consciência tranquila, de um coração que repousa em Deus e encontra n’Ele a inspiração para todos os seus atos.

A paz não virá até nós se ficarmos apenas fechados em nossas casas e Igrejas rezando e pedindo a Deus a solução para os nossos problemas como num passe de mágica. Claro que o que está acontecendo em nosso Estado foge do nosso controle e só nos resta rezar pedindo uma solução. Mas é momento de me questionar: no dia a dia de minha vida, o que eu faço pela paz? Eu busco a justiça? Eu sou honesto no que faço? Ou eu sou mais um instrumento de discórdia no mundo?

“Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9). Ser cristão é ser promotor de paz. Promover, não apenas esperar. Somos chamados a trabalhar incansavelmente pela paz, pois esta não se alcança de braços cruzados.

Que Deus nos ajude nestes dias difíceis. E que a paz de Deus esteja sempre em nossa vida! Amém.

Ao colocar o Menino Jesus no presépio, reze em família

Oração da família diante do presépio

Menino Jesus, Deus que se fez pequeno por nós, diante da cena do teu nascimento, do presépio, estamos reunidos em família para rezar.

Mesmo que fisicamente falte alguém, em espírito somos uma só alma.

Olhando Maria, tua Mãe Santíssima, rezamos pelas mulheres da família, que cada uma delas acolha com amor a palavra de Deus, sem medo e sem reservas, que elas lutem pela harmonia e paz em nossa casa.

Vendo teu pai adotivo, São José, pedimos ó Menino Deus, pelos homens desta família, que eles transmitam segurança e proteção, estejam sempre atentos às necessidades mais urgentes, que saibam proteger nossos lares de tudo que não provém de ti.

Diante dos pastores e reis magos, pedimos por todos nós, para que saibamos render-te graças, louvar-te sempre em todas as circunstâncias, e que não nos cansemos de te procurar, mesmo por caminhos difíceis.

Menino Jesus, contemplando tua face serena, teu sorriso de criança, bendizemos tua ação em nossas vidas.

Que nesta noite santa, possamos esquecer as discórdias, os rancores, possamos nos perdoar.

Jesus querido, abençoa nossa família, cura os enfermos que houver, cura as feridas de relacionamentos.

Fazemos hoje o propósito de nos amar mais.

Que neste Natal a bênção divina recaia sobre nós.

Amém.