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A DIMENSÃO DO CUIDADO NA VIDA HUMANA

Por: Enilson Souza Silva Júnior

Acadêmico do terceiro período de filosofia – UNISALES

O cuidado é condição fundamental na humanidade, estando presente em todos os momentos da vida. O velho ditado que diz “quem cuida, ama” mostra-nos muito bem a dimensão do cuidado: o amor. Diferente dos outros animais, ao nascer o ser humano é totalmente dependente do cuidado, caso contrário ele morre. O homem precisa e carece de cuidado e ao mesmo tempo é dotado de capacidade para cuidar: Estamos dando e recebendo cuidados necessários para a preservação da vida?

O cenário causado pela pandemia do novo coronavírus tornou mais evidente que o ser humano é um ser de relação, isto é, um ser no mundo com o outro na dimensão do cuidado. Num cenário pandêmico prestar ou não o cuidado faz uma grande diferença. Quando não há o cuidado, o que vemos são hospitais lotados, uma crescente no número de mortos e famílias sofrendo a amargura do luto. Vemos que o vírus não se importa com a cor, com a classe social ou o cargo que ocupa na sociedade; ele simplesmente age e ceifa vidas. Mas por outro lado quando há o cuidado vemos pessoas que não medem esforços para cuidar dos que necessitam nas mais adversas circunstâncias, preservando a vida.

Apesar de termos a consciência de que o cuidado é necessário nem sempre ele é opção da sociedade. Com a ascensão da modernidade, evidenciou-se um mundo tão polarizado, cético e individualista, marcado por conflitos e divisões, sendo quase uma anti-realidade, que não valoriza a vida e socorre os necessitados. Será possível cultivar a esperança e cuidado frente a este cenário individualista?

Sobre essa anti-realidade, no livro Saber cuidar o filósofo e teólogo Leonardo Boff afirma:

Essa anti-realidade afeta a vida humana naquilo que ela possui de mais fundamental: o cuidado e a compaixão. Mitos antigos e pensadores contemporâneos dos mais profundos nos ensinam que a essência humana não se encontra tanto na inteligência, na liberdade ou na criatividade, mas basicamente no cuidado. O cuidado é, na verdade, o suporte real da criatividade, da liberdade e da inteligência. No cuidado se encontra o ethos fundamental do humano. Quer dizer, no cuidado identificamos os princípios, os valores e as atitudes que fazem da vida um bem-viver e das ações um reto agir. (1999, pág. 01)

O ser humano é um ser de relação e o cuidado é fundamental para essa vida em harmonia. Um cuidado à família, às crianças, aos jovens, aos idosos, aos moribundos, excluídos e à natureza que temos ao nosso redor. O cuidado serve de crítica à nossa civilização agonizante e também de princípio inspirador de um novo paradigma de convivialidade.

A pandemia do Covid-19 despertou em nós, a consciência de sermos uma comunidade mundial, que viaja no mesmo barco, em que o mal prejudica a todos.

O Papa Francisco na carta Encíclica Fratelli tutti, diz que “ninguém se salva sozinho e que só é possível salvar-nos juntos”. Por isso, “a tempestade desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa descoberto as falsas e supérfluas seguranças que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades” (FT n° 32).  A tempestade também serve para mostrar que não podemos viver somente no “eu” preocupando-se somente com a própria imagem. Temos uma pertença comum, à qual não podemos nos subtrair: a pertença como irmãos.

O Cuidado se efetiva por meio da solidariedade, responsabilidade, diálogo e compaixão por aquele que sofre. A falta de cuidado por sua vez nos leva a solidão, ao sofrimento e até mesmo a perder a fé: perder a fé na capacidade de regeneração do ser humano e de projeção de um futuro melhor. Depois da vida há coisa pior que perder o brilho da vida?

Se existem pessoas que não se preocupam em cuidar, existem aqueles que valorizam e se dedicam a missão de cuidar. Exemplo lindo de cuidado que podemos ver nos tempos atuais, são os esforços e o amor dos profissionais da saúde, manifestado no cuidado com aquele que sofre. Muitos destes irmãos saem de casa e deixam suas famílias e filhos para cuidar da família e filhos de outros. Eles não sabem o que vão enfrentar e quem vão encontrar, mas cultivam em seus corações o amor e a esperança da salvar vidas.

A esperança é ousada, sabe olhar para além das comodidades pessoais, das pequenas seguranças e compensações que reduzem o horizonte, para abrir aos grandes ideais que tornam a vida mais bela e digna, caminhemos na esperança. (FT, n 51).

O cuidado deve ser uma ação desapegada de interesses ou ambições pessoais. Na parábola, o bom samaritano que “Viu, sentiu compaixão e cuidou” (Lc 10, 33-34) provoca-nos a ser presença amorosa de serviço e cuidado na vida de tantos irmãos irmãs que sofrem abandonados à beira do caminho, uma vez que “ver compadecer-se e cuidar” são compromissos indispensáveis ao humano, e devem ser cumpridos com entusiasmo. Mesmo com vários sinais de falta de cuidado que toca a nossa realidade, são muitos os exemplos de pessoas que se importam e agem em prol do cuidado para com o próximo valorizando a vida.

Que o bom samaritano, que vê, tem compaixão e cuida, nos inspire a cuidar uns dos outros no amor.

REFERÊNCIAS

FRANCISCO, Papa. Carta Encíclica Fratelli Tutti, sobre a fraternidade e a amizade social. Tradução oficial Paulus 1° edição, 2020.

BOFF, Leonardo. Livro saber cuidar, ética do humano – compaixão pela terra. Editora Vozes 10° edição.

HOMILIA DO PE. EDIVALDO KLIPEL NA MISSA DA PADROEIRA DA CATEDRAL, BEM-AVENTURADA VIRGEM MARIA, MÃE DA IGREJA, NO DIA 24 DE MAIO DE 2021

Atos 1,12-14; Sl 86; João 19,25-34

Com um Decreto publicado no dia 03 de março de 2018, pela Congregação do Culto Divino e da Disciplina dos Sacramentos, o Papa Francisco determinou a inscrição da Memória da “Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja” no Calendário Romano Geral. Esta memória é celebrada todos os anos na Segunda-feira depois de Pentecostes.

Com esta iniciativa do Papa, concretiza-se um percurso iniciado há 57 anos. Era 21 de novembro de 1964, quando São Paulo VI no discurso de encerramento da 3ª sessão do Concílio, durante a promulgação da Constituição Lumen Gentium dedicada à Igreja e aos decretos sobre o ecumenismo e as Igrejas orientais, proclamava diante de mais de dois mil bispos reunidos em São PedroMaria como “Mãe da Igreja“.

O motivo da celebração está brevemente descrito no Decreto “Ecclesia Mater”: favorecer o crescimento do sentido materno da Igreja nos Pastores, nos religiosos e nos fiéis, como, também, da genuína piedade mariana.

O Decreto diz: “O desejo é que esta celebração, agora para toda a Igreja, recorde a todos os discípulos de Cristo que, se queremos crescer e enchermo-nos do amor de Deus, é preciso enraizar a nossa vida sobre três realidades: na Cruz, na Eucaristia e na Virgem. Estes são os três mistérios que Deus deu ao mundo para estruturar, fecundar, santificar a nossa vida interior e para nos conduzir a Jesus Cristo. São três mistérios a contemplar no silêncio.”

Em Lucas, nos Atos dos Apóstolos, primeira leitura de hoje, a última imagem de Maria que aparece na Bíblia é aquela de uma mulher em oração, no cenáculo, na primeira comunidade cristã junto aos discípulos. Desse modo, Maria se despede de nós nas Escrituras: Ela é na Igreja aquela que reza com a Igreja, é a Mãe da Igreja. Reza para que venha o Espírito Santo. Ainda agora, reza na Igreja e pede o Espírito, para que o Pentecostes continue no mundo. Esta primeira comunidade em que Maria fez parte é a miniatura do novo povo de Deus. O dom do Espírito Santo expandirá a força desse grupo para além da sala em que por enquanto se encontra reunido.

O evangelho de hoje é segundo São João. Nele, Maria aparece poucas vezes. Dos 900 versículos deste evangelho ela aparece apenas em apenas 16! Mas ela aparece sempre na hora certa e no lugar certo: nas bodas de Caná e no texto do evangelho de hoje. Sempre discreta, sabendo quando entrar em cena, quando esperar e quando sair. Pra ela o importante é “fazer tudo o que Ele mandar”.

O outro texto em que Maria aparece em São João, no final do Evangelho é a cena em que ela vê seu filho agonizante no meio da tortura, escolhido para a Missa de hoje. Esta cena nos faz pensar em tantas mães que choram seus filhos ainda crianças, adolescentes e jovens, mortos pela fome, droga, violência, trânsito ou mau atendimento médico. Nos faz lembrar as mães dos 28 assassinados pela truculência policial nos últimos dias no Rio de Janeiro, na mãe do menino Paulo Antônio Marinho assassinado no morro do Romão no dia 02 de abril em Vitória, pelo próprio padrasto e em todas as mães que veem seus filhos assassinados pelos padrastos Brasil afora. Como têm aumentado esses casos!

Maria rezou ao pé da cruz, uma oração de presença, de silêncio, de fé, de amargura profunda, deixando ao Filho todo o espaço. Era uma oração de amor, em pura adesão ao Filho, para que o Verbo encha o silêncio com sua Palavra: “Mulher, eis o teu filho, Eis a tua mãe”. Jesus morre, ao passo que nasce a Igreja, com Mãe e Filho. A cena de Maria e outras mulheres aos pés da cruz inspirou grandes artistas. É uma cena que merece ser contemplada em silêncio.

João, ao narrar esta cena, não quis contar um fato da biografia de Maria, mas que fosse evangelho de Jesus, Boa Nova. Por isso, desde a antiguidade, muitos cristãos veem nesta cena também um sentido simbólico: na solene Hora de Jesus, de sua morte nasce uma nova vida, a Igreja. Por disposição de Jesus, esta Igreja recebe agora por Mãe aquela que o gerou, educou e entregou à sua missão. A Igreja, sua filha, a ama, louva, implora e sofre com ela.

Qual a Mãe que Jesus dá à sua Igreja? Sem dúvida, é a sua Mãe, mulher cuja fé no amor extremo é fidelidade absoluta ao Filho; mulher cuja fé é amor, seja o que for que aconteça. João já havia apresentado a Mãe de Jesus nas bodas de Caná, como modelo de fé; aos pés da cruz ele deixa ver até onde vai a fé dessa Mãe. Ela é também a mulher provada no fogo na hora da cruz. Jesus concede a nós e à Igreja uma Mãe experimentada no sofrimento, capaz de compreender as nossas dores e de acolhê-las no seu coração materno. Quando faz de sua Mãe a nossa Mãe e Mãe da Igreja, dá a ela também todo o poder para ser este tipo novo de Mãe. Jesus não lhe coloca uma etiqueta com um título de honra, título vazio de poder.

Maria é feita a nossa Mãe com capacidade sem fim de ser Mãe. Isso, porém, provém de Jesus, do único Mediador. Maria pode ou não interceder por nós? Podemos pedir seu auxílio? Por certo que sim, senão tornaríamos vã a Palavra de Jesus. É o próprio Jesus que nos leva à sua Mãe. Eis o que justifica todas as nossas orações, quando vamos a Maria com os nossos problemas.

Quatro mulheres (Maria, irmã de Maria, Maria de Cléofas e Maria Madalena) e um homem (João) junto à cruz de Jesus. Enquanto os algozes zombavam de Jesus elas se mantinham discretamente a distância. Mas, agora, no auge do abandono e de sua humilhação, lá estão elas, cheias de coragem e de dignidade. E não é assim até hoje? As mulheres continuam com a força daquelas quatro representantes delas aos pés da cruz com o mesmo vigor na vida cotidiana e na Igreja.

“Todas as palavras de Nossa Senhora são palavras de mãe, desde o momento da Anunciação até o fim, ela é Mãe”. Essas palavras foram ditas pelo Papa Francisco na Casa Santa Marta, na primeira Missa celebrada em memória da Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja, em 21 de maio de 2018.  E explicava como os Padres da Igreja haviam entendido que a maternidade de Maria era a maternidade da Igreja.

Ao salientar a dimensão feminina da Igreja e também a importância da mulher, afirmou: “Sem a mulher a Igreja não vai em frente, porque ela é mulher, e essa atitude da mulher vem de Maria, porque Jesus assim o quis”.

“Maria, Mãe da Igreja, ajuda-nos a entregar-nos plenamente a Jesus, a crer no seu amor, sobretudo nos momentos de tribulação e de cruz, quando nossa fé é chamada a amadurecer”. (Francisco, 10/06/19, na 2ª festa de hoje).

         

XXIX DIA Mundial do Enfermo – O testemunho da fraternidade no cuidado com os enfermos

Neste dia 11 de fevereiro de 2021, dia de Nossa Senhora de Lourdes, a Igreja celebra o XXIX Dia Mundial do Enfermo. Com essa celebração, a intenção da Igreja jamais é de fazer apologia à dor e ao sofrimento da pessoa humana. Não! Uma mãe que sente pelos filhos o genuíno amor visceral, jamais se engrandecerá com o sofrimento destes. Da mesma forma, a Igreja sente desde as entranhas sincera compaixão por todas as pessoas que se encontram em estado de vulnerabilidade. E este gesto caritativo da Igreja está sob olhar de Maria Santíssima, a Mãe de misericórdia, que a nenhum dos filhos de Deus desampara e despreza.

Olhando para “Jesus Cristo, que é o rosto da misericórdia do Pai”1, a Igreja sente-se impelida a irradiar no mundo o clarão da luz da compaixão de Deus que se comove ao ouvir o clamor dos homens e mulheres de todos os tempos (Cf. Ex 3,7). Como propagadora da graça de Deus manifestada em Jesus, a Igreja Católica entende que o cuidado com os que se encontram em estado de fragilidade não é uma ideologia como muitos que para se esquivarem de seus compromissos na responsabilidade com o outro vêm dizendo, nem tão pouco é uma opinião partidária, mas é sumamente compromisso com o Evangelho de Jesus, o misericordioso de Nazaré. Por isso, neste dia, cabe-nos dirigir uma palavra de alento e amor a cada pessoa que se encontra acometida por alguma enfermidade e junto a estas palavras também dedicamos nossas orações e reiteramos nosso compromisso de lutarmos para que haja mais e melhores condições para os cuidados da saúde de todos, sobretudo dos mais pobres e necessitados. Também dedicamos nossas orações a todas as pessoas de boa vontade que se dedicam ao cuidado dos enfermos, sejam elas em caráter domiciliar ou nos ambientes clínico-hospitalar.

O Papa Francisco dedicou o seguinte tema par o XXIX Dia Mundial do Enfermo celebrado neste ano de 2021: Um só é o vosso Mestre e vós sois todos irmãos (Mt 23, 8). A relação de confiança, na base do cuidado dos doentes. No trecho do texto evangélico (Mt 23, 1-12), Jesus faz uma profunda crítica à hipocrisia de todos quantos dizem muito, mas nada fazem para aliviar a dor de quem traz nos ombros um fardo pesado. Para Francisco,

Quando a fé fica reduzida a exercícios verbais estéreis, sem se envolver na história e nas necessidades do outro, então falha a coerência entre o credo professado e a vida real. O risco é grave; Jesus, para acautelar do perigo de derrapagem na idolatria de si mesmo, usa expressões fortes e afirma: “Um só é o vosso Mestre e vós sois todos irmãos”. Esta crítica feita por Jesus àqueles que “dizem e não fazem” é sempre salutar para todos, pois ninguém está imune do mal da hipocrisia, um mal muito grave, cujo efeito é impedir-nos de desabrochar como filhos do único Pai, chamados a viver uma fraternidade universal2.

Assim como para Jesus é inadmissível o comportamento hipócrita e acomodado dos que enriquecem os discursos com belas eloquências, mas tem uma prática miserável e desprovida de amor, também para a Igreja de Cristo é inconcebível que os cristãos se eximam do cuidado com os que mais necessitam. Para a Igreja, a prática dos cristãos deve ser como as de Jesus: ir ao encontro, entrar na casa, conhecer a realidade dos que sofrem, para assim como Ele fez, estender a mão e ajudar o enfermo a se reerguer. Foi por estes gestos que a sogra de Pedro sentiu a força que vem de Deus (Cf. Mc 1, 30-32). Diante dessas circunstâncias, cumprem papel de fundamental importância os ministros ordenados que vão ao encontro dos moribundos e lhes garantem o alívio que só é possível pelos Sacramentos da Igreja. Também os fiéis leigos nas diversas pastorais voltadas diretamente à saúde e bem estar das pessoas, suas visitas com a oração, um abraço ou uma palavra amiga sempre manifestam a ternura da Igreja que não se mantem indiferente quando um dos membros do Corpo Místico de Cristo sofre.

Nesses tempos em que estamos a enfrentar os mais diversos níveis de dor e sofrimentos causados pela pandemia do Novo Coronavírus, a Igreja não cessa de agradecer aos profissionais da área da saúde que nos diversos espaços das unidades hospitalares manifestam a ternura e compaixão de Jesus. Tal como Jesus frente àquele homem acometido pela enfermidade da lepra que não hesitou em lhe estender a mão e curá-lo (Cf. Lc 5,12-13), assim também estão os profissionais da saúde frente a estes irmãos e irmãs acometidos pela Covid-19, estendem a mão, o coração, enfim, agem com compaixão. Vós, caros irmãos e irmãs, dão com este gesto testemunho da fraternidade que supera as práticas do indiferentismo tão frequentes em nossos tempos. Somente a fraternidade pode curar o mal do egoísmo narcísico que impede o ser humano de enxergar as necessidades do outro que está a sua frente. Por isso, permaneçam firmes nesse compromisso com o cuidado com o outro que se descortina frente a vós, vale a pena lutar com amor em favor da vida humana, afinal, ela é o dom mais precioso de toda obra da criação.

Por fim, dirijo-me diretamente aos enfermos mais uma vez: diante da dor e do sofrimento que por vezes assolam vossos dias, não desanimem, jamais. Recordai-vos que Cristo que também sofreu em sua carne as dores da humanidade, não se esquece de nenhum daqueles que o Pai o confiou. Esforcem-se para transformar os possíveis múrmuros em preces, as lágrimas de dor em rios de esperanças, os momentos de solidão em momentos de um deserto fecundo, propício para o encontro com o Senhor. Vós, com vossas lutas diárias para continuarem a viver a cada dia, são para todos nós testemunho de coragem e temor ao Deus Criador. A Igreja se ocupa com zelo e ternura com cada um de vós, pois acredita no valor da vida e defende que a dignidade da pessoa humana permanece intacta independente da qualidade da sua saúde física.

E para concluir, roguemos à Virgem de Lourdes, Maria Santíssima, Mãe do Senhor Crucificado, para que junto de Seu Filho ressuscitado na glória de Deus Pai, interceda por todos os enfermos, para que em suas dores sejam consolados, nas tristezas sejam reanimados e em todos os momentos sejam abençoados e guarnecidos da força da graça de Deus.

1 Cf. FRANCISCO, Papa. Bula Misericordiae Vultus – O Rosto da Misericórdia: São Paulo: Paulinas, 2015, n.1.

2 FRANCISCO. MENSAGEM DE SUA SANTIDADE PAPA FRANCISCO PARA O XXIX DIA MUNDIAL DO DOENTE. 2021. Disponível em: http://www.vatican.va/content/francesco/pt/messages/sick/documents/papa-francesco_20201220_giornata-malato.html. Acesso em: 09 Jan. 2021.

A CULTURA DO CUIDADO COMO PERCURSO DE PAZ

MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO
PARA A CELEBRAÇÃO DO 54º DIA MUNDIAL DA PAZ

1. Aproximando-se o Ano Novo, desejo apresentar as minhas respeitosas saudações aos Chefes de Estado e de Governo, aos responsáveis das Organizações Internacionais, aos líderes espirituais e fiéis das várias religiões, aos homens e mulheres de boa vontade. Para todos formulo os melhores votos, esperando que o ano de 2021 faça a humanidade progredir no caminho da fraternidade, da justiça e da paz entre as pessoas, as comunidades, os povos e os Estados.

O ano de 2020 ficou marcado pela grande crise sanitária da Covid-19, que se transformou num fenómeno plurissectorial e global, agravando fortemente outras crises inter-relacionadas como a climática, alimentar, económica e migratória, e provocando grandes sofrimentos e incómodos. Penso, em primeiro lugar, naqueles que perderam um familiar ou uma pessoa querida, mas também em quem ficou sem trabalho. Lembro de modo especial os médicos, enfermeiras e enfermeiros, farmacêuticos, investigadores, voluntários, capelães e funcionários dos hospitais e centros de saúde, que se prodigalizaram – e continuam a fazê-lo – com grande fadiga e sacrifício, a ponto de alguns deles morrerem quando procuravam estar perto dos doentes a fim de aliviar os seus sofrimentos ou salvar-lhes a vida. Ao mesmo tempo que presto homenagem a estas pessoas, renovo o apelo aos responsáveis políticos e ao sector privado para que tomem as medidas adequadas a garantir o acesso às vacinas contra a Covid-19 e às tecnologias essenciais necessárias para dar assistência aos doentes e a todos aqueles que são mais pobres e mais frágeis.[1]

É doloroso constatar que, ao lado de numerosos testemunhos de caridade e solidariedade, infelizmente ganham novo impulso várias formas de nacionalismo, racismo, xenofobia e também guerras e conflitos que semeiam morte e destruição.

Estes e outros acontecimentos, que marcaram o caminho da humanidade no ano de 2020, ensinam-nos a importância de cuidarmos uns dos outros e da criação a fim de se construir uma sociedade alicerçada em relações de fraternidade. Por isso, escolhi como tema desta mensagem «a cultura do cuidado como percurso de paz»; a cultura do cuidado* para erradicar a cultura da indiferença, do descarte e do conflito, que hoje muitas vezes parece prevalecer.

2. Deus Criador, origem da vocação humana ao cuidado

Em muitas tradições religiosas, existem narrativas que se referem à origem do homem, à sua relação com o Criador, com a natureza e com os seus semelhantes. Na Bíblia, o livro do Génesis revela, desde o início, a importância do cuidado ou da custódia no projeto de Deus para a humanidade, destacando a relação entre o homem (’adam) e a terra (’adamah) e entre os irmãos. Na narração bíblica da criação, Deus confia o jardim «plantado no Éden» (cf. Gn 2, 8) às mãos de Adão com o encargo de «o cultivar e guardar» (Gn 2, 15). Isto significa, por um lado, tornar a terra produtiva e, por outro, protegê-la e fazê-la manter a sua capacidade de sustentar a vida.[2] Os verbos «cultivar» e «guardar» descrevem a relação de Adão com a sua casa-jardim e indicam também a confiança que Deus deposita nele fazendo-o senhor e guardião de toda a criação.

O nascimento de Caim e Abel gera uma história de irmãos, cuja relação em termos de tutela ou custódia será vivida negativamente por Caim. Depois de ter assassinado o seu irmão Abel, a Deus que lhe pergunta por ele, Caim responde: «Sou, porventura, guarda do meu irmão?» (Gn 4, 9).[3] Com certeza! Caim é o «guarda» de seu irmão. «Nestas narrações tão antigas, ricas de profundo simbolismo, já estava contida a convicção atual de que tudo está inter-relacionado e o cuidado autêntico da nossa própria vida e das nossas relações com a natureza é inseparável da fraternidade, da justiça e da fidelidade aos outros».[4]

3. Deus Criador, modelo do cuidado

A Sagrada Escritura apresenta Deus, além de Criador, como Aquele que cuida das suas criaturas, em particular de Adão, Eva e seus filhos. O próprio Caim, embora caia sobre ele a maldição por causa do crime que cometera, recebe como dom do Criador um sinal de proteção, para que a sua vida seja salvaguardada (cf. Gn 4, 15). Este facto, ao mesmo tempo que confirma a dignidade inviolável da pessoa, criada à imagem e semelhança de Deus, manifesta também o plano divino para preservar a harmonia da criação, porque «a paz e a violência não podem habitar na mesma morada».[5]

É precisamente o cuidado da criação que está na base da instituição do Shabbat que, além de regular o culto divino, visava restabelecer a ordem social e a solicitude pelos pobres (Gn 2, 1-3; Lv 25, 4). A celebração do Jubileu, quando se completava o sétimo ano sabático, consentia uma trégua à terra, aos escravos e aos endividados. Neste ano de graça, cuidava-se dos mais vulneráveis, oferecendo-lhes uma nova perspetiva de vida, para que não houvesse qualquer necessitado entre o povo (cf. Dt 15, 4).

Digna de nota é também a tradição profética, onde o auge da compreensão bíblica da justiça se manifesta na forma como uma comunidade trata os mais frágeis no seu seio. É por isso que particularmente Amós (2, 6-8; 8) e Isaías (58) erguem continuamente a voz em prol de justiça para os pobres, que, pela sua vulnerabilidade e falta de poder, são ouvidos só por Deus, que cuida deles (cf. Sal 34, 7; 113, 7-8).

4. O cuidado no ministério de Jesus

A vida e o ministério de Jesus encarnam o ápice da revelação do amor do Pai pela humanidade (Jo 3,16). Na sinagoga de Nazaré, Jesus manifestou-Se como Aquele que o Senhor consagrou e enviou a «anunciar a Boa-Nova aos pobres», «a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos» (Lc 4, 18). Estas ações messiânicas, típicas dos jubileus, constituem o testemunho mais eloquente da missão que o Pai Lhe confiou. Na sua compaixão, Cristo aproxima-Se dos doentes no corpo e no espírito e cura-os; perdoa os pecadores e dá-lhes uma nova vida. Jesus é o Bom Pastor que cuida das ovelhas (cf. Jo 10, 11-18; Ez 34, 1-31); é o Bom Samaritano que Se inclina sobre o ferido, trata das suas feridas e cuida dele (cf. Lc 10, 30-37).

No ponto culminante da sua missão, Jesus sela o seu cuidado por nós, oferecendo-Se na cruz e libertando-nos assim da escravidão do pecado e da morte. Deste modo, com o dom da sua vida e o seu sacrifício, abriu-nos o caminho do amor e disse a cada um: «Segue-Me! Faz tu também o mesmo» (cf. Lc 10, 37).

5. A cultura do cuidado, na vida dos seguidores de Jesus

As obras de misericórdia espiritual e corporal constituem o núcleo do serviço de caridade da Igreja primitiva. Os cristãos da primeira geração praticavam a partilha para não haver entre eles alguém necessitado (cf. At 4, 34-35) e esforçavam-se por tornar a comunidade uma casa acolhedora, aberta a todas as situações humanas, disposta a ocupar-se dos mais frágeis. Assim, tornou-se habitual fazer ofertas voluntárias para alimentar os pobres, enterrar os mortos e nutrir os órfãos, os idosos e as vítimas de desastres, como os náufragos. E em períodos sucessivos, quando a generosidade dos cristãos perdeu um pouco do seu ímpeto, alguns Padres da Igreja insistiram que a propriedade é pensada por Deus para o bem comum. Santo Ambrósio afirmava que «a natureza concedeu todas as coisas aos homens para uso comum. (…) Portanto, a natureza produziu um direito comum para todos, mas a ganância tornou-o um direito de poucos».[6] Superadas as perseguições dos primeiros séculos, a Igreja aproveitou a liberdade para inspirar a sociedade e a sua cultura. «As necessidades da época exigiam novas energias ao serviço da caridade cristã. As crónicas históricas relatam inúmeros exemplos de obras de misericórdia. De tais esforços conjuntos, resultaram numerosas instituições para alívio das várias necessidades humanas: hospitais, albergues para os pobres, orfanatos, lares para crianças, abrigos para forasteiros, e assim por diante».[7]

6. Os princípios da doutrina social da Igreja como base da cultura do cuidado

diakonia das origens, enriquecida pela reflexão dos Padres e animada, ao longo dos séculos, pela caridade operosa de tantas luminosas testemunhas da fé, tornou-se o coração pulsante da doutrina social da Igreja, proporcionando a todas as pessoas de boa vontade um precioso património de princípios, critérios e indicações, donde se pode haurir a «gramática» do cuidado: a promoção da dignidade de toda a pessoa humana, a solidariedade com os pobres e indefesos, a solicitude pelo bem comum e a salvaguarda da criação.

* O cuidado como promoção da dignidade e dos direitos da pessoa

«O conceito de pessoa, que surgiu e amadureceu no cristianismo, ajuda a promover um desenvolvimento plenamente humano. Porque a pessoa exige sempre a relação e não o individualismo, afirma a inclusão e não a exclusão, a dignidade singular, inviolável e não a exploração».[8] Toda a pessoa humana é fim em si mesma, e nunca um mero instrumento a ser avaliado apenas pela sua utilidade: foi criada para viver em conjunto na família, na comunidade, na sociedade, onde todos os membros são iguais em dignidade. E desta dignidade derivam os direitos humanos, bem como os deveres, que recordam, por exemplo, a responsabilidade de acolher e socorrer os pobres, os doentes, os marginalizados, o nosso «próximo, vizinho ou distante no espaço e no tempo».[9]

* O cuidado do bem comum

Cada aspeto da vida social, política e económica encontra a sua realização, quando se coloca ao serviço do bem comum, isto é do «conjunto das condições da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada membro, alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição».[10] Por conseguinte os nossos projetos e esforços devem ter sempre em conta os efeitos sobre a família humana inteira, ponderando as suas consequências para o momento presente e para as gerações futuras. Quão verdadeiro e atual seja tudo isto, no-lo mostra a pandemia Covid-19, perante a qual «nos demos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados mas ao mesmo tempo importantes e necessários, todos chamados a remar juntos»,[11] porque «ninguém se salva sozinho»[12] e nenhum Estado nacional isolado pode assegurar o bem comum da própria população.[13]

* O cuidado através da solidariedade

A solidariedade exprime o amor pelo outro de maneira concreta, não como um sentimento vago, mas como «a determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum, ou seja, pelo bem de todos e de cada um, porque todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos».[14] A solidariedade ajuda-nos a ver o outro – quer como pessoa quer, em sentido lato, como povo ou nação – não como um dado estatístico, nem como meio a usar e depois descartar quando já não for útil, mas como nosso próximo, companheiro de viagem, chamado a participar, como nós, no banquete da vida, para o qual todos somos igualmente convidados por Deus.

* O cuidado e a salvaguarda da criação

A encíclica Laudato si’ reconhece plenamente a interconexão de toda a realidade criada, destacando a exigência de ouvir ao mesmo tempo o grito dos necessitados e o da criação. Desta escuta atenta e constante pode nascer um cuidado eficaz da terra, nossa casa comum, e dos pobres. A propósito, desejo reiterar que «não pode ser autêntico um sentimento de união íntima com os outros seres da natureza, se ao mesmo tempo não houver no coração ternura, compaixão e preocupação pelos seres humanos».[15] Na verdade «paz, justiça e salvaguarda da criação são três questões completamente ligadas, que não se poderão separar para ser tratadas individualmente, sob pena de cair novamente no reducionismo».[16]

7. A bússola para um rumo comum

Assim, num tempo dominado pela cultura do descarte e perante o agravamento das desigualdades dentro das nações e entre elas,[17] gostaria de convidar os responsáveis das Organizações internacionais e dos Governos, dos mundos económico e científico, da comunicação social e das instituições educativas a pegarem nesta «bússola» dos princípios acima lembrados para dar um rumo comum ao processo de globalização, «um rumo verdadeiramente humano».[18] Na verdade, este permitiria estimar o valor e a dignidade de cada pessoa, agir conjunta e solidariamente em prol do bem comum, aliviando quantos padecem por causa da pobreza, da doença, da escravidão, da discriminação e dos conflitos. Através desta bússola, encorajo todos a tornarem-se profetas e testemunhas da cultura do cuidado, a fim de preencher tantas desigualdades sociais. E isto só será possível com um forte e generalizado protagonismo das mulheres na família e em todas as esferas sociais, políticas e institucionais.

bússola dos princípios sociais, necessária para promover a cultura do cuidado, vale também para as relações entre as nações, que deveriam ser inspiradas pela fraternidade, o respeito mútuo, a solidariedade e a observância do direito internacional. A este respeito, hão de ser reafirmadas a proteção e a promoção dos direitos humanos fundamentais, que são inalienáveis, universais e indivisíveis.[19]

Deve ser recordado também o respeito pelo direito humanitário, sobretudo nesta fase em que se sucedem, sem interrupção, conflitos e guerras. Infelizmente, muitas regiões e comunidades já não se recordam dos tempos em que viviam em paz e segurança. Numerosas cidades tornaram-se um epicentro da insegurança: os seus habitantes fatigam a manter os seus ritmos normais, porque são atacados e bombardeados indiscriminadamente por explosivos, artilharia e armas ligeiras. As crianças não podem estudar. Homens e mulheres não podem trabalhar para sustentar as famílias. A carestia lança raízes em lugares onde antes era desconhecida. As pessoas são obrigadas a fugir, deixando para trás não só as suas casas, mas também a sua história familiar e as raízes culturais.

As causas de conflitos são muitas, mas o resultado é sempre o mesmo: destruição e crise humanitária. Temos de parar e interrogar-nos: O que foi que levou a sentir o conflito como algo normal no mundo? E, sobretudo, como converter o nosso coração e mudar a nossa mentalidade para procurar verdadeiramente a paz na solidariedade e na fraternidade?

Quanta dispersão de recursos para armas, em particular para as armas nucleares,[20] recursos que poderiam ser utilizados para prioridades mais significativas a fim de garantir a segurança das pessoas, como a promoção da paz e do desenvolvimento humano integral, o combate à pobreza, o remédio das carências sanitárias! Aliás, também isto é evidenciado por problemas globais, como a atual pandemia Covid-19 e as mudanças climáticas. Como seria corajosa a decisão de criar «um “Fundo mundial” com o dinheiro que se gasta em armas e outras despesas militares, para poder eliminar a fome e contribuir para o desenvolvimento dos países mais pobres»![21]

8. Para educar em ordem à cultura do cuidado

A promoção da cultura do cuidado requer um processo educativo, e a bússola dos princípios sociais constitui, para o efeito, um instrumento fiável para vários contextos relacionados entre si. A propósito, gostaria de fornecer alguns exemplos:

A educação para o cuidado nasce na família, núcleo natural e fundamental da sociedade, onde se aprende a viver em relação e no respeito mútuo. Mas a família precisa de ser colocada em condições de poder cumprir esta tarefa vital e indispensável.

Sempre em colaboração com a família, temos outros sujeitos encarregados da educação como a escola e a universidade e analogamente, em certos aspetos, os sujeitos da comunicação social.[22] São chamados a transmitir um sistema de valores fundado no reconhecimento da dignidade de cada pessoa, de cada comunidade linguística, étnica e religiosa, de cada povo e dos direitos fundamentais que dela derivam. A educação constitui um dos pilares de sociedades mais justas e solidárias.

As religiões em geral, e os líderes religiosos em particular, podem desempenhar um papel insubstituível na transmissão aos fiéis e à sociedade dos valores da solidariedade, do respeito pelas diferenças, do acolhimento e do cuidado dos irmãos mais frágeis. Recordo, a propósito, as palavras que o Papa Paulo VI proferiu no Parlamento do Uganda em 1969: «Não temais a Igreja; esta honra-vos, educa-vos cidadãos honestos e leais, não fomenta rivalidades nem divisões, procura promover a liberdade sadia, a justiça social, a paz; se tem alguma preferência é pelos pobres, a educação dos pequeninos e do povo, o cuidado dos atribulados e desvalidos».[23]

A todas as pessoas empenhadas no serviço das populações, nas organizações internacionais, governamentais e não governamentais, com uma missão educativa, e a quantos trabalham, pelos mais variados títulos, no campo da educação e da pesquisa, renovo o meu encorajamento para que se possa chegar à meta duma educação «mais aberta e inclusiva, capaz de escuta paciente, diálogo construtivo e mútua compreensão».[24] Espero que este convite, dirigido no contexto do Pacto Educativo Global, encontre ampla e variegada adesão.

9. Não há paz sem a cultura do cuidado

cultura do cuidado, enquanto compromisso comum, solidário e participativo para proteger e promover a dignidade e o bem de todos, enquanto disposição a interessar-se, a prestar atenção, disposição à compaixão, à reconciliação e à cura, ao respeito mútuo e ao acolhimento recíproco, constitui uma via privilegiada para a construção da paz. «Em muitas partes do mundo, fazem falta percursos de paz que levem a cicatrizar as feridas, há necessidade de artesãos de paz prontos a gerar, com criatividade e ousadia, processos de cura e de um novo encontro».[25]

Neste tempo, em que a barca da humanidade, sacudida pela tempestade da crise, avança com dificuldade à procura dum horizonte mais calmo e sereno, o leme da dignidade da pessoa humana e a «bússola» dos princípios sociais fundamentais podem consentir-nos de navegar com um rumo seguro e comum. Como cristãos, mantemos o olhar fixo na Virgem Maria, Estrela do Mar e Mãe da Esperança. Colaboremos, todos juntos, a fim de avançar para um novo horizonte de amor e paz, de fraternidade e solidariedade, de apoio mútuo e acolhimento recíproco. Não cedamos à tentação de nos desinteressarmos dos outros, especialmente dos mais frágeis, não nos habituemos a desviar o olhar,[26] mas empenhemo-nos cada dia concretamente por «formar uma comunidade feita de irmãos que se acolhem mutuamente e cuidam uns dos outros».[27]

Vaticano, 8 de dezembro de 2020.

A COMPAIXÃO NO CUIDADO COM O DOENTE TERMINAL

Magno Nogueira Pereira[1]

Edebrande Cavalieri[2]

Na iminência de deixar o seminário para dar continuidade em meu processo formativo, agora como estagiário em vista da Ordenação Diaconal, compartilho com vocês, caros amigos e queridas amigas, em parceria com meu estimado professor e amigo Edebrande Cavalieri, um aceno do que abordei em meu trabalho monográfico para a conclusão do curso de teologia.

Desde tempos imemoráveis tem-se notícias de que a dor e sofrimento são realidades que acompanham a história da humanidade. Os relatos bíblicos nos atestam isso de forma bastante frequente, contudo, não é cabível dizer que o sofrimento e a dor do ser humano são realidades queridas por Deus, ou mesmo um meio de punição e castigo por alguma falha cometida pela pessoa. Não! A segunda carta de São João nos atesta que Deus é amor (1Jo 4,8), portanto, frente a esta verdade que alimenta a fé Cristã, não se pode imaginar que um Deus que é amor haverá de se ocupar em vingar ou castigar o ser humano que Ele mesmo o criou no amor à Sua imagem e semelhança e o abençoou (Gn 1, 26-28).

Esse ideal cabe a um deus mesquinho que só existe nos altares da idolatria ou em uma teologia da retribuição e meritocracia, mas nunca ao Deus de Jesus Cristo. Sabe-se que o sofrimento e a dor são realidades que coexistem a partir da realidade finita do homem enquanto criatura, que embora sendo feito à imagem de seu criador não é um ser perfeito, somente Deus é completamente bom e perfeito. Por isso diante das intempéries e vicissitudes da vida, nós, seres humanos, somos chamados a viver nossa condição de criatura e fragilidade diante de Deus, para que sua fortaleza suporte a fragilidade que é própria de nossa humanidade.

Mas longe de ser uma ocasião de desgraça e desalento, o momento de dor e sofrimento pode ser ressignificado quando o moribundo se coloca sob à sombra da Cruz do Cristo que enfrentou o suplício da dor e do sofrimento perante o silêncio do mundo e a escuridão da terra. Assim como a Cruz de Cristo aponta para a ressurreição e para a vida de felicidade, sem dor e sofrimento, também a pessoa que oferece seu sofrimento como um completar em sua carne os sofrimentos de Cristo (Cf. Cl 1,24), também receberá a glória do Filho de Deus.

As maneiras de enfrentamento da doença para uma possível ressignificação são de incumbência do moribundo. No entanto, ele sozinho não tem condições de suprir suas necessidades de cuidado dada sua fragilidade da saúde. Nesse momento entra em cena a ação compassiva e misericordiosa de quem é o próximo do enfermo.

Para arrazoar sobre o perfil paradigmático do cuidador, faz-se oportuno um olhar contemplativo do exemplo dado pelo Bom Samaritano da parábola do Evangelho (Cf. Lc 10, 29-37). O Bom Samaritano ensina que o começo do alívio das dores de um moribundo se dá quando um olhar de compaixão se versa sobre ele. A compaixão extrapola os limites legalistas que em muitas circunstâncias impedem uma ação caritativa aos frágeis e necessitados. Um olhar de compaixão elimina toda estranheza e diferença criados pelo egoísmo. O sentimento de compaixão não comporta divisão nem tampouco classificação de cor, raça ou religião.

A pessoa que se deixa mover pela compaixão enxerga apenas no outro um ser humano, e isso basta, ou seja, no outro que se descortina frente a mim, vejo um outro eu que precisa da força do meu amor para sustentá-lo. No ocaso da vida, quando as expectativas de cura já não estão mais em vigor, tudo que um doente em fase terminal necessita é um cuidado compassivo e atenção carinhosa, isso possibilitará continuar se sentindo pessoa e não um peso.

Somente com um toque de compaixão se consegue tocar alguém em sua fragilidade. A caridade e a compaixão são duas forças que se fundem e se transformam em cuidado. E a partir dessas duas forças se consegue vencer um sistema de objetivação da pessoa, prática desumana donde origina a cultura do descartável. O sentimento de compaixão é próprio de Deus, por isso, toda pessoa que se deixa mover por compaixão assume a condição de semelhante de Deus.

O exemplo do Bom Samaritano ensina à humanidade de todos os tempos que o valor da pessoa humana não está no que ela pode oferecer, ou no quanto tempo de vida ainda resta para ela, nem tampouco na sua “utilidade”, mas naquilo que ela é: pessoa, criada à imagem de Deus. E por sê-lo, merece e deve ser cuidada desde o princípio da vida, no ato da concepção, até a terminalidade de sua vida de forma natural, independentemente da idade ou situação. No sofrimento e dor de cada homem e de cada mulher de todos os tempos é o próprio Cristo que grita por cuidado. Portanto, olhar com compaixão, apear do comodismo, abaixar e envolver-se com a pessoa acabrunhada pelo sofrimento é tocar o próprio Cristo, pois lembremo-nos de suas palavras: foi a mim que fizestes (Cf. Mt 25, 31-46).

O Bom Samaritano ensina que o agir com compaixão elimina a cultura do indiferentismo que impede o ser humano de agir em prol do bem do outro. Por ser genuinamente um sentimento divino, a compaixão, faz o homem mais humano e mais autêntico, pois o faz desprender-se de si e de suas pressas para dispensar atenção e zelo a um outro de si que se encontra necessitado do remédio do amor e de um leito de caridade. Que os momentos de dor, fragilidade e sofrimento, sirvam de oportunidade para a santificação do moribundo que se configura ao Cristo crucificado e do cuidador que se assemelha a Deus que é compassivo e misericordioso.

Por fim, cabe ainda refletir o compromisso prático desse cuidado pastoral com doentes terminais. Essas pessoas podem ser encontradas nos hospitais, mas também em nossas casas, bem pertinho. Geralmente os profissionais de enfermagem não estão preparados para garantir um atendimento que satisfaça os pacientes em suas necessidades espirituais. E também as pessoas que convivem nas próprias casas com pacientes terminais também precisam de ajuda.

Ao mesmo tempo não é suficiente a prática de uma espiritualidade pontual com orações e cânticos, mas quase sempre não tocando no paciente que sofre. Uma espiritualidade distante e indiferente pouco contribui. Quem espera palco e aplausos pode desistir imediatamente desse campo pastoral. A dor não comporta palco, pois é um calvário.

Depois de realizar essa pesquisa concluo que esse campo é profundamente desafiador em termos pastorais. A primeira ação deverá ser a formação para o cuidado pastoral, com experiências práticas no atendimento. Não se trata de um conhecimento teórico, mas essencialmente prático, que toca o coração, que afeta a pele, o olhar, o afeto, o carinho, a ternura. A pessoa que se sente chamada para esse serviço pastoral deve não apenas possuir grande maturidade emocional, mas também muita serenidade.

A formação deverá ser sempre de caráter interdisciplinar envolvendo a dimensão teológica, em diálogo com o campo psicológico, antropológico, emocional e de enfermagem. É através da capacidade de transcendência que o cuidador tornar-se-á sempre mais próximo do doente terminal. E através do movimento de transcendência se constitui o sentimento de solidariedade na dor, no sofrimento. Essa é a pessoa samaritana. Aquela que é capaz de descer do cavalo, descer de seu lugar ou zona de conforto e chegar e se debruçar sobre a pessoa adoecida em fase final.

É na dinâmica de uma “Igreja em saída”, não autorreferencial, que o cuidado pastoral com pacientes terminais deve ser organizado e implementado. Os ministros ordenados são chamados para exercerem essa missão junto àqueles que se despedem da vida aqui na terra. É no encontro com aqueles que sofrem as dores do fim que o ministro samaritano se debruça e o recolhe em sua dor.

[1] Licenciado em Filosofia, co-autor do livro “Conjuntura Eclesial e Religiosa: do Sínodo da Amazônia à transição religiosa” e concluinte do curso de Teologia pelo Instituto Interdiocesano de Vitória, ES. Contatos: nogueiramagnus@gmail.com

[2] Doutor em Ciências da Religião, Professor Titular da UFES e Professor de História da Igreja e Orientação de Pesquisa (TCC) do Instituto Interdiocesano de Vitória, co-autor e Organizador do Livro “Conjuntura Eclesial e Religiosa”. Contatos: edebrande@gmail.com

O retorno ao Templo no contexto do Mês Missionário

A Igreja destaca o mês de outubro para intensificar as ações missionárias e dedica o terceiro domingo deste mês para rezar pelos missionários e missionárias clamando ao “Senhor da Colheita que envie trabalhadores para a sua colheita” (Mt 9, 38). O tema do mês missionário de 2020 é: “A vida é missão”, pois levar a mensagem salvífica de Jesus no coração e proclamá-la por palavras e atos por onde fores é missão de todo cristão. O lema recorda a vocação do profeta Isaias: “Eis-me aqui, envia-me” (6,8), e convida os batizados a assumirem sua vocação cristã. Retornar a ‘casa do Pai’ após o longo período de distanciamento social, por conta da pandemia da Covid 19, interpela os fiéis a responderem o questionamento vocacional que o Senhor faz: “Quem enviarei?” (Is 6,8).

O Dia Mundial das Missões foi instituído em 1926 pelo papa Pio XI (1922-1939), um apaixonado pela missão, por sugestão dos seminaristas da Arquidiocese de Sassari região da Sardenha – Itália – que apresentaram a proposta de se celebrar um dia dedicado às atividades missionárias na Igreja ao secretário da Sagrada Congregação de Propaganda Fide (hoje, a Congregação para a Evangelização dos Povos), Monsenhor Luigi Drago. E pediram-lhe que tratasse a questão com o Papa.  Ao receber a proposta o papa Pio XI disse que esta era uma inspiração vinda do céu. No dia 14 de abril do mesmo ano, a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos informava a aprovação do dia mundial para as missões a ser celebrado anualmente no terceiro domingo de outubro.

Em 1963, o papa Paulo VI tomou iniciativa de enviar por escrito e a viva voz uma Mensagem Pontifícia a fim de promover a participação e a colaboração ativa dos fiéis nas atividades missionárias.

Em mensagem para o dia das missões de 1965, o Papa Paulo VI agradeceu o empenho dos missionários, sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos dizendo-lhes que “respondendo a um sublime chamado, deixando família, casa, pátria, tornastes-vos anunciadores da paternidade de Deus, da divindade de Cristo, do mistério da Salvação que se dá na Igreja” (Pontifícias Obras Missionárias, 2008, p. 16). O papa são João Paulo II, em 1981, lembrava que “ver multiplicar-se no mundo pequenas comunidades cristãs, dinâmicas e abertas, que compreendam a própria responsabilidade no anúncio do evangelho” (2008, p. 95), aumenta a esperança e confiança na luta por um mundo melhor.  No ano de 2008, o papa emérito Bento XVI, fazendo referência ao apóstolo Paulo, salientava que a “atividade missionária é uma resposta ao amor com que Deus nos ama”. E acrescentou que o “seu amor redime-nos e estimula-nos para a missão ‘ad gentes’; […] e, é energia espiritual capaz de fazer crescer na família humana a harmonia, a justiça e a comunhão entre as pessoas, raças e povos” (2008, p. 222).

A mensagem do Papa Francisco para o dia das missões de 2020 aponta o chamado vocacional do Profeta Isaias: “Eis-me aqui envia-me” (6, 8). E nos convida a responder decididamente à interpelação do Pai: “Quem enviarei?” (Is 6,8). Neste contexto de pandemia esta pergunta atravessa não somente a Igreja, mas toda a humanidade, de modo que cada cristão deve sentir-se tocado por este apelo divino. Muitos filhos de Deus quando confrontam seu estilo de vida e suas escolhas, com a vocação própria do cristão, o amor, percebem que nem sempre suas escolhas vão ao encontro da vontade de Deus para sua criatura. Quando esta resposta não tem profundidade no coração, Jesus convida ao amor gratuito, na doação total a Deus e ao outro.

O ofício da “Igreja em saída” missionária presente na Exortação Evangelii Gaudium encontra seu impulso primário na pessoa de Jesus Cristo que inspirado pelo Espírito chama a sua Igreja a deslocar-se na direção dos mais fragilizados e carentes de cuidados e proteção. A missão e vocação dos batizados é tornar visível a dinâmica do Reino no meio dos homens e isto não é possível sem a promoção da vida humana. Por isso o tema da campanha do mês missionário afirma que “a vida é missão”.

Para o Papa Francisco compreender a mensagem que Deus está manifestando neste momento histórico é um enorme desafio, pois, as condições de sofrimento, doença, medo, desemprego e abandono em que muitos irmãos e irmãos se encontram nos questionam. Contudo, salienta que o isolamento levou muitos homens e mulheres a compreenderem que são necessitados da vivência comunitária e da presença de Deus em suas vidas. Quem dos irmãos que fazendo a experiência do isolamento não se angustiou com o imobilismo e não desejou participar do banquete eucarístico e do convívio comunitário?

Durante o período de distanciamento social a Igreja, visando o cuidado e acatando os decretos governamentais, orientou os fiéis a fazerem a experiência das comunidades domésticas, comum aos primeiros cristãos; promoveram missas, momentos de oração e formações transmitidas por meio do rádio, televisão, redes sociais e outras plataformas de mídias digitais; manteve as capelas do santíssimo abertas para visitas; promoveu ações solidárias em favor das famílias carentes. Isto significava dizer que enquanto estava com as portas fechadas para as celebrações presenciais a Igreja se esforçava para levar uma mensagem de conforto e de esperança aos fiéis.

Este período provocou o sentimento de solidariedade nos corações e levou muitos cristãos e não cristãos a superarem as diferenças e se unirem no compromisso mútuo a favor da vida e das necessidades básicas dos povos e nações carentes no mundo. As propostas para o mês das missões e a própria vocação missionária dos batizados convidam ao exercício da caridade.

O retorno do Povo de Deus às cerimônias litúrgicas nas comunidades geram expectativas, pois há tempo os fiéis aguardavam o retorno ao convívio nas Comunidades Eclesiais de Base. Porém, maior é a responsabilidade da Igreja quanto ao cumprimento das normas sanitárias recomendadas pelos órgãos competentes a fim de que os fiéis possam celebrar a fé no Ressuscitado sem riscos para sua saúde.

A reabertura das igrejas alegrou o povo de Deus, pois possibilitou-lhe participar presencialmente da celebração da Palavra e da Eucaristia. Contudo, o Arcebispo de Palmas (TO), Dom Pedro Brito Guimarães manifesta sua preocupação com o abandono da Eucaristia. Em seu artigo “a desafeição da eucaristia em tempo de pandemia, real ou fictícia?”, afirma: “Durante o tempo em que estávamos em restrições, recebi muitas mensagens de pessoas ávidas pela Eucaristia. Quando as restrições foram redimensionadas, os fiéis não apareceram nas igrejas, como era de se esperar”.

Neste sentido Dom Pedro Guimarães se pergunta sobre os prejuízos para a fé dos fiéis, caso os crentes se acostumem com as missas virtuais e deixem de participar de forma ativa nas celebrações litúrgicas. A este respeito o Concílio Vaticano II nos diz que “a liturgia renova e aprofunda a aliança do Senhor com os homens, na Eucaristia, fazendo-os arder no amor de Cristo” (Sacrosanctum Concilium, nº 10). Daí compreende-se que a presença real nas celebrações litúrgicas não pode ser substituída pela ‘presença virtual’, sem grandes prejuízos para a vivência da fé em Jesus Cristo.

Com o redimensionamento das restrições, e sem deixar de observar os cuidados necessários, cada filho amado do Pai é chamado a viver a fé em comunidade e realizar a missão de batizado participando ativamente da vida comunitária a fim de encorajar os irmãos no cuidado com o outro e com a criação, pois “a vida é missão”. A resposta que Deus espera ouvir neste interim é aquela dada por Isaías: “Envia-me” (6, 8). Responder sim ao chamado do Pai é um gesto de amor gratuito para com a causa de Jesus e a vida do próximo, sobretudo daqueles que padecem na carne e no espírito as consequências desta pandemia.

Para viver a missão, neste mês missionário, observando a dinâmica do amor pode-se tomar o bom exemplo de são Francisco de Assis: a oração, o cuidado e a partilha.  São Francisco era assíduo na oração tanto na vida comunitária quanto na intimidade com Deus e assim superava as provações físicas e espirituais. Homem zeloso e integrado à natureza respeitava e cuidava da vida, fosse animal ou vegetal, como que a um irmão. Neste contexto de pandemia outra situação que preocupa a Igreja no Brasil são as queimadas que vem acinzentando os ecossistemas nacionais e causando danos irreparáveis a biodiversidade em escala mundial.

A partilha é outro marco da vida do pobre de Assis. Despindo-se de seus bens optou por viver da generosidade das pessoas. Seguindo seu exemplo muitos irmãos deixam casa, trabalho, pátria e se colocam no seguimento de Jesus e contam com a partilha dos irmãos para levar a cabo a missão confiada à Igreja por Jesus.

Por fim, cabe exortar os irmãos a percorrerem o caminho do discipulado fiel a Jesus Cristo, assumindo a missão de batizados no Amor. O mês missionário oportuniza aos fiéis exercerem o amor gratuito, por meio da oração pelas vocações missionárias ad gentes; da doação material a favor das obras missionárias; e, da opção pelo seguimento radical a Jesus, o Bom Pastor. Nesta perspectiva a Igreja por meio de seus pastores está empenhada em proporcionar uma fraterna acolhida aos seus fiéis a fim de que ao se aproximarem da “fonte da vida” (Jo 4, 14) sintam a presença afetiva do Senhor no templo. Que Nossa Senhora Aparecida interceda por seus filhos e filhas e ajude-nos a caminhar ao encontro do Pai, assumindo a nossa vocação missionária na vivência comunitária da eucaristia.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BIBLIA.  Bíblia Sagrada. Tradução Oficial CNBB. 1. ed. São Paulo: Edições CNBB, 2018.
CONCÍLIO VATICANO II. Vaticano II: Mensagens Discursos Documentos.  Sacrosanctum Conctilium. São Paulo: Paulinas, 2007.
GUIMARÃES, Brito Pedro, Bispo.  A desafeição da eucaristia em tempos de pandemia, real ou fictícia? Disponível em: <https://www.cnbb.org.br/a-desafeicao-da-eucaristia-em-tempo-de-pandemia-real-ou-ficticia/>. Acesso em: 28/09/2020.
PONTIFÍCIAS OBRAS MISSIONÁRIAS. Campanha Missionária 2020. Disponível em: <http://www.pom.org.br/campanha-missionaria-2020/>. Acesso em: 28/09/2020.
PONTIFÍCIAS OBRAS MISSIONÁRIAS. Mensagens Pontifícias: Dia mundial das Missões. Brasília: Impacto, 2008.

A nossa vida é essencialmente missionária

A vida é missão! Com esta motivação, as Pontifícias Obras Missionárias (POM) trazem neste ano, com o lema do profeta Isaías 6,8: “Eis-me aqui, envia-me”, o que iremos rezar neste mês missionário. É preciso salientar a realidade atual em que somos chamados a viver, num caminho de missão que se apresenta de formas inusitadas e desafiantes. Com a pandemia do Covid-19, foi preciso mudar o jeito de evangelizar e continuar o caminho. Uma delas, talvez esquecida por muitos, novamente foi enaltecida: a oração. Assim como Santa Terezinha do Menino Jesus, patrona das missões, que do seu claustro rogou incessantemente a Deus pelas missões, transformamos nossas “vidas isoladas” em “terrenos missionários”, lugares onde o desejo pela missão novamente foi manifestado por todos. Uma vida cristã que não traz consigo o desejo de espalhar o Cristo que se doa é semelhante à semente que nada produz (Mt 13, 18s), à lâmpada que se esconde (Mt 5, 15), à moeda permanentemente desaparecida (Lc 15, 8s). Uma vida missionária é um caminho de contínua busca pelo Senhor, de amadurecimento e formação (EG, 2013, n.160). Nossa vida é missão. Precisamos ser pessoas da esperança definitiva. O mundo está doente e de diferentes formas: o medo do outro, a peste do ódio, a aridez do amor, a intolerância com o diferente, o descuidado com a vida. O texto das POM (2020) nos conclama a “defender e cuidar da vida em todas as suas dimensões”, e assim, termos a certeza de que tudo é bom, pois foi criado por Deus.

Estamos aqui e mais uma vez o Senhor nos quer enviar em missão. Cabe darmos o SIM, transformador da realidade e gerador de vida e em plenitude para todos. O Papa Francisco, para o Dia Mundial das Missões deste ano diz (2020): “Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados mas, ao mesmo tempo, importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento.” Não tenhamos medo em anunciar a Boa Nova. Peçamos ao Espírito Santo que renove o nosso coração para sempre vivermos o anúncio da vida nova, renovada na ressurreição do Mestre e assim, impulsione-nos à missão (ChV, 2019, n.131). O Senhor nos envia em missão. Tenhamos coragem em dizer SIM. Que Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil e Santa Terezinha do Menino Jesus, intercedam por nosso viver missionário.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FRANCISCO. Christus Vivit: para os jovens e para todo o povo de Deus. 1 ed., São Paulo: Paulus, 2019.
______. Evangelii Gaudium:  A alegria do Evangelho. São Paulo: Loyola, 2013.
______. Mensagem de sua Santidade Papa Francisco para o dia mundial das missões de 2020. Disponível em:< http://www.vatican.va/content/francesco/pt/messages/missions/documents/papa-francesco_20200531_giornata-missionaria2020.html> Acesso às 9h44, 24 Set. 2020.
POM. Campanha Missionária 2020. Disponível em: <http://www.pom.org.br/campanha-missionaria-2020/> Acesso às 9h23, 24 Set. 2020.

 

MEMÓRIAS DE DOM ALDO: 49 ANOS DE EPISCOPADO

Primeira etapa da minha vida.

Fui coroinha dos 6 aos 12 anos, com muito gosto e orgulho do Sagrado.

Na minha aldeia frequentei a escola primária 5 anos e mais um ano por licença e sugestão de meus pais para decidir encaminhamento:

– ser técnico marceneiro;

– ou padre diocesano.

Nesse tempo recebi a visita de um comboniano, Pe. Lourenço, barbudo, ele falou muito sobre as missões na África e eu me decidi: “vou ser missionário lá para salvar pelo menos uma alma e depois morrer na simplicidade!”.

Comecei a preparação para ser padre: entrei no seminário aos 12 anos. Fiz 5 anos de ginásio, 2 de noviciado (tempo de espiritualidade e mística), 6 de Filosofia e Teologia. Escolhi fazer estes dois últimos cursos em Roma, bem ao lado da Basílica de São Pedro, um privilégio! Tive dificuldades. Na mesa de estudo tinha um mapa da África…

Após a ordenação tive uma surpresa: não fui enviado à África, mas ao Brasil. Saí, de navio, em novembro de 1957 e cheguei a São Mateus no mês seguinte. O território era mata atlântica, as atividades eram extração de madeira nas florestas. Não tinha asfalto. As viagens eram a cavalo debaixo de sol causticante. Fiquei como ajudante do padre e visitava as capelas do interior. Vi muitas comunidades nascerem. A pastoral era basicamente ministrar sacramentos.

Em 1962 Dom José mandou-me uma mensagem dizendo que eu seria o secretário dele no Concílio Vaticano II. Aproveitei para fazer novo estudo em Roma: Doutrina Social da Igreja. Retornei ao Brasil e fui para São José do Rio Preto e depois, de novo, São Mateus. Na Diocese me encarreguei das Pastorais Sociais, acompanhando sindicatos, que naquela altura eram fracos, e ajudando o povo a se organizar, sempre ao lado de Dom José.

A segunda etapa de minha vida foi maior.

Dom José renunciou e eu fui indicado para ser administrador da Diocese. No dia 24 de maio de 1971, aos 40 anos, fui nomeado bispo. Aceitei porque já conhecia a Diocese. Foi quando me perguntei: “e o meu sonho infantil de salvar uma alma na África e morrer lá?”

Fiz 5 visitas pastorais. Nas três primeiras visitei todas as comunidades. Uma vez fiquei em Ecoporanga 1 mês e 10 dias, sem vir a São Mateus. Pensei: “devo ir a São Mateus para ver se alguém deu um golpe de estado?” (risos). Cada pedaço de comunidade, cada pessoa, é um pedaço da minha alma! Creio que respondi de forma razoável aos clamores. Fiz tudo na certeza de caminhar com o povo de Deus rumo ao Reino de Deus. Ser presença Dele no mundo. Nos 36 anos de Bispo quantas alegrias e cruzes! Sofri até atentado no bispado com ataques de tiros. Houve momentos de crise…

Esta história é conhecida, apresentei uma avaliação rápida, imediata, superficial. A graça de Deus foi maior que minhas fraquezas. Glória a Deus! Gratidão afetuosa ao povo! Estou aqui para agradecer. A vocação é um processo, uma longa caminhada, a graça de Deus vai nos ajudando. As estruturas foram feitas pelo antecessor. Comigo foi feita a Catedral, o mosteiro e o seminário. Ordenei mais de 30 padres. A renúncia foi aceita pelo papa em 20 de março de 2006.

O Pai do céu tem um projeto para os jovens de hoje. Há uma nova vocação humana para todos os batizados:

– vocação à vida

– vocação à tarefa, missão etc.

Nossa passagem no mundo deve deixar nossas marcas: pequena, desconhecida ou maior. Que haja duas exigências:

– descobrir o que Deus quer de mim

– agir para tal ideal.

A importância da comunicação divina na garantia da vida

Comunicar sempre esteve em nosso enredo antropológico. Desde a criação, o poder da palavra foi modelando as nossas condições humanas. Pelo “façamos” (Gn 1, 26), um ser à imagem de Deus fora feito: “Eu”. O “feito da terra” ganhou a semelhança divina, ou seja, criaturas feitas, caminhamos pela razão, para nos aproximarmos do Criador (BASÍLIO, 1998). Deus comunicou a sua bondade nos criando (ATANÁSIO, s.d.), disse a cada um de nós, desde a nossa concepção, o quanto nos ama e deseja que ao amarmos o outro, narremos as mais belas histórias nesta “saga” que em certos momentos teríamos muitas perturbações (Sl 42,12), mas Ele mesmo disse que não nos deixaria órfãos. Daria o Espírito da Verdade, aquilo que o mundo não fora capaz de receber (Jo 14, 17-18). Em Cristo, a nossa condição decaída pelo pecado é dignificada, pois a palavra criadora de outrora, teve compaixão e as trevas que nos envolviam, foram suprimidas pela ação do Verbo (Jo 1,5).

O Papa Francisco, na mensagem para o 54° dia Mundial das Comunicações Sociais, convida-nos a valorizar estas histórias que nos marcam, emocionam, cativam e dão esperança em tempos de crise. Com o texto do Êxodo, vemos que Deus é o Senhor da nossa história: “Para que possas contar e fixar na memória” (Ex 10, 2). O Senhor não abandona seu povo e revela na história tamanha bondade que misteriosamente nos encanta e nos faz caminhar, apesar das dores da vida. É verdade que a nossa história começou a ser narrada não segundo os desígnios divinos: quisemos não SER e desejamos a todo custo TER. Não fomos capazes de comunicar a beleza da sua obra e o nosso zelo para com ela tem sido catastrófico nos últimos anos da humanidade.

Decerto, nem todas as muitas histórias vividas por nós tiveram finais felizes, mas há uma História que superou a nossa crise primeira: a história do amor que não nos abandonou. Deus continua a narrar a nossa esperança em tempos melhores. Segundo o Papa Francisco (2020) “cada história humana tem uma dignidade incancelável” e assim, querer admitir que não temos mais motivos para descrever tantas belas narrativas é ir contra o sonho de Deus: “Que todos sejam um” (Jo 17,21), e aquilo que num capítulo de nossa existência, abandonamos o autor da vida, para viver “a minha exclusiva história”, fomos readmitidos a esta narrativa, em que não somos donos do “ponto final”, mas a todo momento estamos sujeitos a mudanças. O Autor deste roteiro nos quis aqui não como meros objetos, e sim, como os seres mais capazes de ressignificar a vida mediante as tantas crises que ainda teremos de enfrentar. “Nunca é inútil narrar a Deus a nossa história” (FRANCISCO, 2020). Façamos isso quantas vezes for preciso e o Senhor da História nos mostrará os caminhos que teremos de escolher. O Seu amor nos comunicou que a vida venceu a morte.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BASÍLIO DE CESAREIA. Homilias sobre a origem do Homem. São Paulo: Paulus, 1998.

BÍBLIA SAGRADA. Tradução Oficial da CNBB.1 ed. Brasília: CNBB, 2018.

FRANCISCO.Mensagem do Papa Francisco para LIV dia Mundial das Comunicações Sociais. 2020.Disponível de: <http://www.vatican.va/content/francesco/pt/messages/communications/documents/papa-francesco_20200124_messaggio-comunicazioni-sociali.html> Acesso em 23 Mai.2020.

SANTO ATANÁSIO. A encarnação do Verbo. S.d. Disponível de: <https://ortodoxia.pt/data/Patristica-18.pdf> Acesso em 23 Mai. 2020.

Valor da vida frente à economia

Em tempos de pandemia do coronavírus (COVID-19), uma das preocupações é manter a população saudável e buscar meios para conter o avanço do vírus. Pelo menos deveria ser essa prioridade de todos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem recomendado medidas preventivas para manter a vida intacta. Uma delas é o isolamento social. Cabe à população, orientada pelos governantes, em sua liberdade e necessidade, exercer as medidas que julgarem convenientes.

Até então o isolamento social apresenta-se como o meio mais eficaz de se conter o avanço dessa pandemia. Porém, muitos não tem tratado com seriedade a gravidade da situação, ignorando as orientações fornecidas pelas autoridades de saúde e, por isso, as conseqüências do avanço da pandemia. Nota-se que a preocupação de alguns não é tanto com a saúde, mas de que o país não deve “parar”, pois a economia é diretamente afetada, impedindo o desenvolvimento. A preocupação com a economia não deixa de ser válida, porque é através dos recursos financeiros gerados pelos impostos na movimentação de mercado, que o país se mantém e, principalmente, os recursos para a área da saúde.

Mas frente a esse dilema é de se pensar o que realmente torna-se importante: preservar a vida ou não deixar a economia parar? Padre Zezinho, na música “Em prol da vida” (1994) inspirada no livro do Deuteronômio, permite uma profunda reflexão sobre a escolha que se deve fazer: “Diante de ti ponho a vida e ponho a morte. Mas tens que saber escolher. Se escolhes matar, também morrerás. Se deixas viver, também viverás. Então viva e deixa viver […]” (cf. Dt 30, 15-20).

Se escolhermos a economia, fazendo com que todos voltem a sua rotina normal, colocaremos vidas em risco, pois no momento o isolamento social ainda é a melhor prevenção. Se escolhermos a vida, a economia será afetada e o país deixa de crescer e com o tempo não haverá recursos para mantermos os hospitais e o funcionamento básico das redes públicas.

Os cálculos neste momento não devem ser somente financeiros. Deve-se levar em conta as vidas que serão ceifadas. Valeria a pena perder tantas vidas para manter a economia? O Brasil é um país rico, o agronegócio não para e os recursos naturais são explorados diariamente.

Diante de uma escolha que se deve fazer, a vida deveria ser priorizada; todos tem direito de viver. A Doutrina Social da Igreja também nos auxilia nessa reflexão quando afirma que “[…] O agir humano, quando tende a promover a dignidade e a vocação integral da pessoa, a qualidade das suas condições de existência, o encontro e a solidariedade dos povos e das nações, é conforme ao desígnio de Deus, que nunca deixa de mostrar o Seu amor e a Sua Providência para com Seus filhos”. (COMPÊNDIO DA DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA, 2005, p. 34).

Enfim, que nossas lideranças governamentais planejem uma estratégia futura para recuperação econômica. Vale a pena pensar que agora seja o momento de “apertar os cintos”, cortar gastos, remanejar recursos e replanejar a estratégia de governos, pois sem pensar no valor da humanidade de nada adianta salvar a economia.